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2020: o ano em que a Terra parou

Quando sairmos da fase aguda da crise, teremos de rever o papel do governo na economia

Paulo Leme, O Estado de S. Paulo

05 de abril de 2020 | 05h00

Durante a infância, sempre gostei de ler jornais, a revista National Geographic e gibis. Os jornais reportavam o presente, mostrando o assassinato do presidente Kennedy, a Guerra do Vietnã e as barbáries dos regimes militares na América Latina. A National Geographic mostrava o passado, com reportagens fascinantes sobre cosmologia e arqueologia (os horrores de Pompeia e a ambivalência entre a sofisticação artística e as atrocidades religiosas dos maias). Os gibis abriam as portas à imaginação e ao futuro, mostrando um mundo fantástico onde super-heróis combatiam psicopatas e alienígenas que planejavam aniquilar o planeta azul. 

A minha geração tem a sorte de viver no mundo do pós-guerra e beneficiar-se das grandes descobertas médicas que protegem a vida: aspirina, antibióticos, raio X e imunizações. Hoje, protegidos pela ciência, seguros e instrumentos financeiros, adquirimos a falsa sensação de segurança contra a inevitabilidade da nossa finitude e a natureza aleatória da vida. 

Durante a minha carreira, passei por dois momentos marcantes que pareciam, mas não foram o início do fim do mundo. O primeiro foi quando eu trabalhava em Wall Street e vivenciei os horrores dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001. Perambulei pelas ruas com fuligem à altura da cintura até encontrar uma balsa para voltar a New Jersey. Ao contornar o sul de Manhattan, vi uma montanha de escombros em chamas, aquilo que um dia foi o World Trade Center. O mundo parou, e Nova York ficou de luto.

O segundo foi durante a crise financeira de 2008, quando em setembro o governo americano decretou a falência do Lehman Brothers, o que gerou um efeito dominó que quase derrubou o sistema financeiro global. Em outubro, os grandes bancos estiveram a horas de quebrar, mas foram salvos por um conjunto de ações inimagináveis pelos bancos centrais e os governos das economias avançadas. Em menos de um ano, as forças que quase extinguiram o sistema financeiro contemporâneo metamorfosearam-se no maior “bull market” da história.

Extraí duas lições dessas experiências. O mundo é aleatório e, por mais que queiramos nos precaver contra todos os sinistros, sempre haverá um cisne negro que embaralhará todas as cartas e mudará o nosso destino. A segunda é que, por pior que seja, o sinistro termina e a vida continua. Como disse Thomas Fuller, “a hora mais escura da noite é justo aquela antes do amanhecer”. 

E isso me traz à tragédia humana e econômica causada pelo coronavírus. Nem os mais ousados gibis de ficção científica seriam capazes de desenvolver um roteiro tão dramático: combinar políticos omissos com um patógeno capaz de ceifar vidas e parar a economia mundial. Resultado: “2020, o ano em que a Terra parou”.

Um governo tem três áreas em que sua atuação pode ser superior àquela do setor privado: Saúde, Segurança Pública e a capacidade de redirecionar grandes volumes de recursos em momentos excepcionais. Durante esta crise, a maioria dos governos falhou nessas missões. Nos últimos dez anos, a embreagem do processo político quebrou: as democracias ocidentais estão empoderando populistas despreparados para exercer o poder e que não representam os anseios e os valores da sociedade. 

Nos Estados Unidos, há muito tempo que a comunidade científica alertou o presidente Trump sobre o coronavírus: ele tinha à sua disposição a informação necessária para preparar o país para enfrentar a pandemia. No entanto, ele e o establishment político ignoraram a ciência e não protegeram o país, ao não ter nenhuma estratégia de prevenção, testes, equipamentos e materiais hospitalares.

Há momentos em que só o governo é capaz de redirecionar rapidamente fatores de produção e recursos para um setor prioritário, como a Saúde. É a escolha entre produzir manteiga ou canhões. Quando há um colapso de uma parte importante da demanda privada e de parte da oferta (ruptura das cadeias produtivas e serviços), cabe ao governo injetar rapidamente os recursos maciços através da política fiscal, monetária e de crédito. Essa é a única maneira de evitar o colapso da produção e a destruição de negócios, capital e emprego. 

O Fed foi extraordinário na velocidade e audácia com que entrou em campo disparando com todas as suas armas (10% do PIB) para evitar o colapso do sistema financeiro. O Congresso demorou muito, mas finalmente aprovou um programa fiscal de 10% do PIB. O que falta agora é que o presidente Trump e o Congresso permitam que médicos, cientistas e o setor privado reconstruam o sistema de saúde americano a tempo de limitar a tragédia.

Quando sairmos da fase aguda da crise, teremos de rever o papel do governo na economia, o funcionamento dos nossos regimes democráticos e reconstruir os mecanismos de cooperação global. Nos Estados Unidos, o governo se apropriou de 20% do PIB. A primeira pergunta é quem vai se beneficiar desses recursos e quem pagará a conta. A segunda pergunta é como encolher de volta o governo ao seu tamanho inicial.

A história do século 20 mostra que o Estado é como um gás: uma vez que se expande, é difícil colocá-lo de volta na garrafa e diminuir a sua influência na economia e restrições à liberdade. 

PROFESSOR DE FINANÇAS  NA UNIVERSIDADE DE MIAMI

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