27 tons de vermelho e azul

Nesta primeira semana pós-eleitoral, impossível negar que o Brasil acordou dividido. Na oposição ainda perdura o gosto amargo da derrota por diferença tão reduzida de votos. E ainda permanecem abertas as feridas de uma campanha tão acirrada e tão agressiva. O projeto de poder do PT a qualquer custo impôs um marketing político que ultrapassou todos os níveis toleráveis da ética e do respeito pelos adversários. Já a presidente Dilma, o ex-presidente Lula e seus aliados do PT acordaram desta festa da vitória, que até o último minuto parecia incerta, muito mais temerosos do que vitoriosos, diante do inevitável choque da realidade que vem pela frente.

Roberto Giannetti da Fonseca, O Estado de S.Paulo

30 de outubro de 2014 | 02h05

Tanto no plano político como no plano econômico os desafios serão imensos. Desta vez não há de se falar em "herança maldita" nem na terceirização de culpas e responsabilidades, mas, sim, de uma profunda reflexão e processo de autocrítica para correção dos graves equívocos de política econômica e dos inaceitáveis desvios de conduta na gestão do patrimônio público. É preciso dar um basta e eliminar de vez o desperdício e a corrupção de recursos públicos.

Administrar a Nação dividida será um grande desafio para o segundo mandato da presidente Dilma. A heterogênea distribuição geográfica e social dos votos no território brasileiro impõe de imediato uma inquietante reflexão: como será possível obter nestes próximos quatro anos uma convergência das forças políticas e da sociedade civil brasileira em torno de objetivos comuns de um projeto de recuperação econômica e de desenvolvimento social? Diante deste país cindido entre duas forças políticas rivais e equivalentes, como fazer as urgentes reformas estruturais necessárias para aprimorar a Federação brasileira? Como a governabilidade será afetada pelo desenrolar das investigações sobre os escândalos de corrupção da Petrobrás?

Sinceramente, eu não saberia responder neste momento, mas, como a grande maioria dos brasileiros, independentemente da coloração política, sinto um misto de angústia e receio. Sei que serão anos difíceis, pois não existem passes de mágica nem milagres divinos que resolverão nossos problemas econômicos, políticos e sociais do dia para a noite. O discurso de comemoração de vitória da presidente Dilma conclamando pela união nacional após tão agressiva campanha foi equilibrado, cauteloso e pragmático, mas não nos parece de fácil consecução. As condições para tal serão múltiplas, profundas e de quase impossível realização a curto prazo.

Nada pode ser mais valioso para o futuro de qualquer nação democrática do que instituições sólidas e independentes. Os brasileiros jamais aceitarão, como alguns países vizinhos, uma "bolivarianização" de sua Constituição, e muito menos uma democracia sem alternância de poder e sem real independência dos Três Poderes constituídos. Enganam-se os radicais à esquerda e à direita que imaginam o contrário. O tempo de golpes e de atos institucionais de exceção já foi encerrado há muito tempo. A liberdade de expressão, a livre-iniciativa e o direito individual de propriedade são imperativos do Estado de Direito e do jogo democrático e conquistas inalienáveis de nossa sociedade.

Vejam que existem muitos riscos de um impasse institucional à frente, e, a menos que haja de fato um verdadeiro diálogo conciliador e equilibrado em torno de um projeto de desenvolvimento nacional convergente, teremos mais uma década perdida, de crescimento econômico medíocre e regressão social e política. Se formos relativamente conscientes da gravidade do momento e suficientemente maduros para não aprofundar diferenças, mas, sim, agregar convergências, então ainda teremos esperança de construir desde já um Brasil mais justo e próspero. Que prevaleçam entre todos nós os 27 tons de verde e amarelo que colorem nossa bandeira e cobrem todo o nosso território de Norte a Sul.

*Roberto Giannetti da Fonseca é economista e empresário. É presidente do capítulo brasileiro do Conselho de Empresários da América Latina (Ceal) 

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