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343 dias

Investimentos em pesquisa pavimentaram o caminho para o desenvolvimento em tempo recorde de uma vacina contra a covid

Guy Perelmuter*, O Estado de S.Paulo

07 de janeiro de 2021 | 04h00

Em meu artigo publicado no Estadão em abril do ano passado, escrevi que “Especialistas apontam que a viabilidade de uma vacina [para covid-19] em menos de 12 ou 18 meses é remota, mas ainda assim a quantidade de esforços nessa direção é inédita.” E a melhor notícia do ano que passou foi justamente essa: o ineditismo dos esforços da comunidade acadêmica e científica, da iniciativa privada e de alguns governos gerou resultados extremamente positivos, com diversos países do mundo em plena vacinação de sua população apenas 12 meses depois da detecção do vírus, em dezembro de 2019.

Foram exatos 343 dias decorridos entre o primeiro alerta enviado pela startup canadense BlueDot a respeito de uma “pneumonia incomum nos arredores de um mercado na cidade de Wuhan, na China” e a Sra. Margaret Keenan — uma avó de 90 anos, moradora do Reino Unido — tornar-se a primeira pessoa do mundo a receber uma dose da vacina da Pfizer contra covid-19. Este resultado é absolutamente extraordinário, considerando-se a complexidade do processo de desenvolvimento de uma vacina: pesquisa científica, estudos pré-clínicos, testes clínicos em três fases, aprovações junto às agências reguladoras, manufatura e distribuição. O recorde anterior, da década de 1960, era de quatro anos (para criação de uma vacina contra caxumba). 

Com a covid-19, prioridade absoluta de pesquisadores, médicos e reguladores ao redor do mundo, estudos e tecnologias desenvolvidas ao longo dos últimos anos foram alavancados e o panorama para o desenvolvimento de vacinas no futuro mudou para sempre com a era das vacinas de mRNA. Simplificando bastante, o “RNA mensageiro”  carrega as instruções para que nosso organismo possa codificar proteínas específicas. Ao invés de expor o paciente ao vírus atenuado (tecnologia utilizada tradicionalmente), o sistema imunológico é apresentado (via mRNA) a um pedaço do código genético do coronavírus, “aprendendo” assim a fabricar os anticorpos necessários para combater a doença. Isso permite que a tecnologia seja utilizada também para, se necessário, implementar com relativa velocidade as mudanças necessárias para atacar mutações do vírus.

Cientistas já pesquisam o desenvolvimento de vacinas utilizando o mRNA há cerca de trinta anos. Conforme explicado pelo Dr. Anthony Komaroff, editor da Harvard Health Letter (publicada pela Harvard Medical School), as vacinas de mRNA apresentaram uma série de obstáculos ao longo do processo de pesquisa: a implementação de modificações no mRNA sem provocar reações violentas do sistema imunológico, o estímulo para que as células do sistema imunológico assimilassem o mRNA no sangue, a produção da proteína-chave em quantidade suficiente e, finalmente, a proteção do mRNA em cápsulas microscópicas para evitar que produtos químicos em nosso sangue o destruíssem. Ainda segundo o Dr. Komaroff, em comparação com vacinas tradicionais, as vacinas de mRNA podem gerar uma imunidade mais robusta, pois estimulam o sistema imunológico a produzir tanto anticorpos quanto células que atacam o vírus invasor. 

Mais uma vez, a importância de amplos investimentos em pesquisa básica — em centros científicos e universidades — provou ser uma estratégia absolutamente crítica para segurança e prosperidade de uma nação, garantindo o domínio sobre uma tecnologia que irá salvar milhões de vidas. Há quase três anos, em março de 2018, escrevi neste espaço a coluna Nanopolítica onde pode-se achar o seguinte trecho: “Refletindo de forma clara o que se espera de governos quando o assunto é apoio à pesquisa básica e desenvolvimento de novas tecnologias, em 2000 o então presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, declarou que ‘Alguns dos objetivos da pesquisa em nanotecnologia irão levar mais de vinte anos para serem atingidos, e é exatamente por isso que o governo federal possui um papel tão relevante’”. A iniciativa americana em nanotecnologia (National Nanotechnology Initiative) recebeu, desde 2001, quase US$ 29 bilhões de dólares em investimentos. Já a chamada Operação WARP Speed, também do governo americano, despejou mais de US$ 10 bilhões para pesquisa, desenvolvimento e compra de vacinas contra a covid-19. 

No Brasil, lamentavelmente, o contraste não poderia ser maior, e o apoio à Ciência prossegue com baixa prioridade. O conflito entre a implementação de mudanças estruturais — que exigem décadas de comprometimento — com o calendário eleitoral cobra seu preço, pago por toda sociedade. Seguimos caminhando de forma tímida na direção de um futuro que insiste em não chegar para enorme parcela de nossa população. Este não é um fenômeno recente — ao contrário, tornou-se tão corriqueiro que deixou de gerar estranheza. É imperativo que nossos servidores públicos, de todos os Poderes da República, priorizem a saúde, a prosperidade, o bem-estar e o futuro de uma nação que, há décadas, é considerada a nação do futuro.

*Fundador da GRIDS Capital e autor do livro Futuro Presente - o mundo movido à tecnologia, vencedor do Prêmio Jabuti 2020 na categoria Ciências. É Engenheiro de Computação e Mestre em Inteligência Artificial

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