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5G chega a 220 milhões de pessoas no mundo, puxadas pela China 

Atualmente, 1 bilhão de pessoas estão vivendo em regiões onde a nova tecnologia está disponível

Circe Bonatelli, O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2020 | 10h00

A internet móvel de quinta geração, 5G, vai fechar 2020 com aproximadamente 220 milhões de pessoas conectadas em todo o mundo, de acordo com o mais recente relatório da Ericsson, fabricante sueca de equipamentos de telecomunicações. 

Atualmente, 1 bilhão de pessoas estão vivendo em regiões onde a nova tecnologia está disponível. Considerando também os esforços de operadoras para expansão das redes, a expectativa é que o total de usuários salte para 3,5 bilhões até o fim de 2026.

Quem está puxando de verdade o crescimento do 5G no mundo é a China, país que concentra 175 milhões de usuários, o equivalente a 79,5% do total global de conexões, de acordo com a pesquisa da Ericsson.

As maiores teles do país asiático - China Mobile, China Telecom e China Unicom - estão colocando em prática um plano ambicioso de expandir rapidamente a nova geração de internet, que trará diferenciais conectivos para empresas, indústria e agronegócio.

"A China é de longe o País com maior implementação de antenas, a maior cobertura e a maior quantidade de conexões", afirma o editor executivo do relatório global da Ericsson, Patrik Cervall, em entrevista ao Estadão/Broadcast.

O executivo observa que, mesmo ponderando as dimensões continentais da China e o tamanho gigantesco da sua população em números absolutos, o país se destaca também em termos relativos.

Na China, 11% dos celulares locais estão conectados ao 5G, bem à frente da América do Norte (4%) e da Europa (1%). Outras regiões não têm porcentuais significativos, pois a implementação da nova tecnologia ainda está muito no começo ou nem teve início.

O coordenador do estudo projeta que a situação deverá ficar mais equilibrada à medida em que as redes e os aparelhos ao redor do mundo evoluam. Nos próximos quatro anos, o 5G deve responder por 80% do total de conexões na América do Norte, 68% na Europa e 66% no Nordeste Asiático.

Cervall avalia ainda que o ritmo de crescimento do 5G está relacionado ao poder de compra da população. E na China, já existe uma boa variedade de celulares 5G a preços mais em conta. "Os aparelhos caíram bastante em termos de preços na China, com unidades por menos até de US$ 200. No resto do mundo, eles estão chegando agora a menos de US$ 300", diz.

Outro ponto é a marca do celular. Só recentemente o iPhone 12 (próprio para rodar 5G) chegou aos mercados norte-americano e europeu, o que deverá estimular os fãs da marca Apple a aderirem à nova tecnologia. "Os consumidores são bastante leais à marca preferida", pondera.

Guerra EUA x China

Questionado se a evolução do 5G ao redor do mundo sofreu impactos negativos por conta da guerra comercial e política entre Estados Unidos e China, com perseguição à fabricante chinesa de equipamentos de telecomunicações Huawei (principal concorrente da Ericsson), Cervall disse que não.

"Vemos uma demanda clara dos consumidores por mais dados, acessos a redes sem fio, fibra ótica e 5G. E todas esses serviços têm sido lançados pelos operadoras. Quando se olha as atualizações do mercado, não vejo esse impacto, não vejo nenhuma grande diferença", afirma o executivo da Ericsson.

No Brasil, porém, as teles se uniram em um comunicado conjunto, na sexta-feira, 27, contra possíveis restrições à participação de fornecedores na tecnologia 5G no País, alegando que isso poderá atrasar a implementação e elevar os custos do serviço.

Isso porque o governo de Jair Bolsonaro está inclinado a se alinhar aos Estados Unidos e já procura meios legais para banir a Huawei, conforme revelou o Broadcast neste domingo, 29. O Ministério das Comunicações trata o assunto como uma questão de Estado e segurança de dados e não nega a articulação para restringir a fabricante chinesa.

"Esse ambiente de incertezas pode impactar o desempenho do setor, pois eventuais restrições implicarão potenciais desequilíbrios de custos e atrasos ao processo, afetando diretamente a população", diz o sindicato que representa as teles, Conexis Brasil Digital.

Conexões no Brasil

O relatório da Ericsson mostrou ainda que, apesar da incerteza causada pela pandemia, boa parte das teles seguiram com seus planos para ativação do 5G ao redor do mundo. Já são mais de 100 companhias atuando nesse mercado.

O próprio Brasil passou a integrar as estatísticas, com Claro, Vivo, Oi e TIM lançando suas primeiras redes comerciais de 5G neste semestre. Essa é uma cobertura ainda restrita a bairros de algumas capitais, mas tende a se espalhar pelo País nos próximos anos.

Por enquanto, as companhias estão oferecendo o 5G no Brasil numa modalidade que pega "emprestado" um pedaço das faixas de radiofrequência nas quais já trafegam os sinais do 4G.

Esse tipo de 5G "parcial" é um avanço na conexão, mas ainda está abaixo da velocidade super alta de navegação que virá no 5G "definitivo". Mas isso ainda depende do leilão das faixas específicas para o 5G, que será feita ano que vem pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).

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Governo busca brecha na lei para limitar atuação da Huawei no 5G no País

Empresas se movimentam para evitar que grupo chinês fique de fora do leilão da nova tecnologia, o que poderia atrasar e encarecer o processo

Circe Bonatelli, O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2020 | 10h00

O governo Jair Bolsonaro está procurando alternativas, dentro da lei, para limitar a participação da fabricante chinesa de equipamentos de telecomunicações Huawei na implementação das redes de 5G no País, conforme apurou o Estadão/Broadcast

A ideia é estabelecer uma barreira com base em requisitos técnicos ou de segurança, sem citar o nome da Huawei, mas que, na prática, impeçam a empresa de participar do mercado 5G, de acordo com fontes ligadas ao assunto, que falaram na condição de anonimato. 

Embora haja inclinação para concretizar a iniciativa, a avaliação é que o governo precisará fazer um "contorcionismo jurídico" para achar uma justificativa para limitar o livre mercado, pois faltam dispositivos legais que apoiem um veto antecipado a qualquer empresa.

O que está em estudo, segundo as fontes, é a regulamentação da Instrução Normativa 4, publicada em março deste ano pelo Gabinete de Segurança Institucional (GSI) e que dá as diretrizes de segurança cibernética para a construção das redes.

Uma ala do governo vê a chance de explorar o artigo dez, que determina que as operadoras devem contratar fornecedores distintos em cada região, de modo que cada local tenha diversidade no ecossistema, ajudando a diluir os riscos em caso de problemas eventuais nas redes. Haveria ali espaço para estabelecer medidas mais rígidas e que funcionem como barreiras para o avanço da companhia chinesa, que tem a maior participação do mercado em muitas localidades.

O grupo que trata do assunto envolve a Presidência da República, o Gabinete de Segurança Institucional (GSI) e os ministérios de Relações Exteriores, Casa Civil, Economia e Comunicações.

O assunto ganhou corpo nos bastidores do governo de Jair Bolsonaro nos últimos dias e foi justamente isso que levou associações empresariais a publicarem comunicados na sexta-feira, 27, se posicionando contra o impedimento de qualquer fornecedor no mercado brasileiro. O temor das empresas é que sobrem apenas dois grandes fornecedores de equipamentos - a sueca Ericsson e a finlandesa Nokia - por aqui, o que poderia acarretar aumentos nos custos de instalação de antenas.

As manifestações contrárias partiram do Conexis Brasil Digital (que representa as operadoras Vivo, Claro, TIM e Oi) e da Federação Nacional de Infraestrutura de Redes e Telecomunicações (Feninfra). As empresas já argumentaram que a limitação à Huawei pode encarecer muito a implantação do 5G no Brasil, já que boa parte da infraestrutura usada pelas empresas de telecomunicações já é fornecida pelo grupo chinês. Novos equipamentos, fornecidos por outras companhias, não "conversariam" com as redes já implantadas.

Ainda que a medida em estudo pelo governo evolua, a possível brecha na instrução normativa é apontada como questionável e frágil, por fontes do mercado. O Estadão/Broadcast apurou que os representantes das empresas já estão mobilizando advogados para questionar na Justiça qualquer decreto ou medida provisória que venha a ser publicado pelo governo federal.

Procurado, o Ministério das Comunicações afirmou que a decisão sobre os fornecedores de equipamentos de telecomunicações é um tema de Estado e que envolve segurança de dados. "A decisão sobre os fornecedores de equipamentos de telecomunicações perpassa diversos órgãos de governo para além do Ministério das Comunicações, como o Gabinete de Segurança Institucional (GSI), o Ministério da Defesa, o Ministério da Economia e o Ministério das Relações Exteriores. Por se tratar de segurança nacional, envolve também todos os presidentes da república dos países envolvidos com esse tema. Ressalta-se ainda que o Presidente está a par do processo decisório envolvendo a licitação 5G e ciente de que as discussões sobre o tema transcorrem dentro do horizonte temporal esperado", disse, em nota.

A Huawei e os outros ministérios foram procurados pela reportagem, mas não se pronunciaram.

Consequências

O clima de incerteza em torno do banimento ou permanência da Huawei no Brasil pode ter como consequência o adiamento na publicação do edital que irá leiloar as faixas para o sinal do 5G, que estava previsto para metade do ano que vem.

O edital é elaborado pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) com base nas políticas definidas pelo governo federal. Portanto, o órgão regulador poderá ter de aguardar uma posição oficial do alto escalão do governo antes de publicar as regras do certame. E se houver uma briga judicial, pode demorar ainda mais.

E do lado das operadoras a tendência é de segurarem investimentos. Isso porque a Huawei tem contratos com Vivo, TIM, Claro e Oi. Sua participação no mercado gira em torno de 40% a 50% se considerados apenas os equipamentos para a rede 4G. E boa parte disso será aproveitado pelas teles para a implantação do 5G.

Para o governo de Jair Bolsonaro, a decisão tem como pano de fundo o alinhamento em meio à guerra comercial travada por Estados Unidos e China. Os Estados Unidos vêm pressionando aliados ao redor do mundo a restringir a atuação da Huawei, o que já deu certo em países como Canadá e Reino Unido. E já está claro que essa pressão diplomática vai continuar na gestão de Joe Biden.

Também pesam na escolha aspectos de segurança cibernética. Há uma preocupação de que as redes das operadoras e das fabricantes sejam utilizadas por agentes maliciosos para vazar dados sensíveis de cidadãos, empresas e governos. Para a Huawei, o assunto é mais crítico, uma vez que a empresa privada vem de um país em que a influência do Estado se permeia fortemente por toda a economia.

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