600 mil mortes depois
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600 mil mortes depois

O Brasil se aproxima das 600 mil mortes pela covid-19 e, mesmo com a reabertura, as condições econômicas estão sob forte risco

Celso Ming*, O Estado de S.Paulo

07 de outubro de 2021 | 20h43

Durante todos esses meses de pandemia a principal tensão concentrou-se no definhamento da atividade econômica. Quase seiscentas mil mortes depois, a pandemia parece ter recuado substancialmente, não há a mesma necessidade de manter a população sob isolamento, os negócios estão reabertos, mas as condições econômicas estão sob forte risco, agora por outras razões.

O preço dessas mortes. Foi o resultado dos desastres já conhecidos: o negacionismo do presidente Jair Bolsonaro, a desorganização dentro do Ministério da Saúde e a falta de coordenação no enfrentamento à covid-19.


No entanto, mesmo com os atrasos e trombadas do processo de imunização, com os desperdícios e suposta corrupção, a vacinação avançou. Hoje são 97 milhões os vacinados com duas doses ou dose única e outros 148,8 milhões parcialmente imunizados com uma dose. A variante Delta, que há alguns meses levantava temores, acabou por não ter a periculosidade temida. O relativo recuo da pandemia foi o fator que passou a permitir a suspensão dos lockdowns e a retomada da atividade econômica. As aulas presenciais voltaram e, até mesmo, nos jogos de futebol foi liberado o comparecimento de torcedores.

É verdade que muita coisa não voltará a ser o que era. Apenas em parte o trabalho em home office será suspenso, algumas viagens corporativas devem ser substituídas por videochamadas e boa parte da população optou por serviços de compra e de comida via aplicativos.

No entanto, quem entendia que bastaria a reversão da pandemia para que a economia voltasse a bombar, como está acontecendo em outros países, não pode contar com essa virada porque são grandes os riscos e as incertezas que se antepõem às decisões.

A maior ameaça está na área fiscal. Os grandes projetos do governo inviabilizam-se entre si. A proposta de substituir o Bolsa Família pelo Auxílio Brasil, concebido para alavancar a reeleição, tromba com a quase inviabilidade da reforma do Imposto de Renda. A necessidade de saldar R$ 90 bilhões em precatórios esbarra na impossibilidade de expandir as despesas públicas (Teto de Gastos). E os demais projetos de reforma não mostraram até agora viabilidade política.

Afora isso, a inflação continua em disparada, como deverá ser confirmado nesta sexta-feira com a divulgação do IPCA de setembro. O governo quer evitar o repasse da alta global da gasolina, do diesel e do gás de cozinha para o consumidor, mas não sabe o que fazer.

Embora haja grande disponibilidade de recursos no mercado internacional, os investidores já não olham o Brasil como grande oportunidade. O leilão de áreas de petróleo na última quinta-feira só conseguiu interessados em 5 dos 92 blocos ofertados. Os investimentos estrangeiros diretos no País, que em 2011 alcançaram os US$ 100 bilhões, não deverão ultrapassar os US$ 50 bilhões neste ano. E, cá entre nós, se o próprio ministro da Economia prefere fazer seus investimentos em paraíso fiscal, como convencer os investidores estrangeiros a canalizar seus recursos para o Brasil?

E há as incertezas políticas, que podem crescer com a aproximação das eleições. Ou seja, nem mesmo a vitória contra a covid, que custou o sacrifício de 600 mil brasileiros, pode garantir a redenção para a economia nos próximos meses.

>> CONFIRA 

> As safras para 2022

 

As próximas safras de grãos ainda não foram semeadas, mas, a partir de informações preliminares, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima que crescerão 14,2% em relação às do ano anterior. A disposição do plantio é excelente graças aos bons preços obtidos ao longo de 2021. Mas ainda é preciso saber até que ponto a crise hídrica, que prevaleceu em 2021 no Centro-Sul, também não prejudicará as culturas neste resto de ano e em 2022. A área plantada crescerá para 71,5 milhões de hectares, 3,6% a mais sobre a anterior.

*CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA

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