700 carteiros pedem para sair do fundo Postalis

Em crise de confiança com gestão do fundo, trabalhadores não querem pagar a conta do déficit de R$ 5,6 bilhões

O Estado de S.Paulo

19 Abril 2015 | 02h04

O carteiro Leonardo está assustado porque ouviu na "rádio peão" que tem uma dívida de R$ 45 mil com o fundo de pensão dos Correios, o Postalis. Ele faz contribuições para o Postalis há mais de dez anos. Todo mês, cerca de R$ 100 são descontados de seu salário. O que disseram é que se ele sair da empresa agora, terá que pagar tudo isso de uma vez. Se ficar, vai pagar em 15 anos. Já o carteiro Juarez, a dois anos de se aposentar, só sabe dizer: "eles roubam e depois é a gente que tem que pagar a conta. Por isso, tem muita gente saindo". Alguns carteiros em São Paulo já chegam a comentar que se mobilizam para entrar em greve.

Assim como Leonardo e Juarez, milhares de carteiros espalhados pelo País não entendem o que está acontecendo com o dinheiro de suas aposentadorias. O clima fica tenso porque, segundo contam, ainda foram proibidos de dar entrevistas. Nessa toada de desinformação e crise de confiança, 700 participantes já pediram o desligamento do fundo somente neste mês de abril, segundo informações do Postalis. Em março, antes da divulgação do déficit, eram pouco mais de 20 pedidos.

Além disso, 4 mil cartas foram enviadas para tentar barrar o desconto maior no salário, que virá registrado no contracheque de abril, para cobrir o déficit de R$ 5,6 bilhões registrado no fundo e que terá que ser coberto por quase 76 mil participantes, entre trabalhadores e pensionistas, e pelo Correios.

Sem efeito. O que muitos desses funcionários não sabem é que ao se desligarem do fundo não podem retirar o seu dinheiro imediatamente. O saque só pode ser feito quando deixam os Correios efetivamente. Além disso, não podem resgatar a contribuição dada pela empresa. Esse dinheiro fica no fundo e depois será dividido entre aqueles que permanecerem.

Tem mais: a carta para tentar impedir a cobrança, que estão enviando ao fundo, não tem nenhum poder legal sem um pedido efetivo de desligamento do fundo. Segundo o sindicalista e carteiro Emerson Marinho, teme-se que o fundo vá quebrar. "Para a maior parte dos participantes, o aumento da contribuição representa cerca de 7% do salário. Na média geral, será 5%", diz.

Na semana passada, a Federação Nacional dos Trabalhadores em Empresas de Correios e Telégrafos (Fentect) entrou com uma ação judicial para tentar suspender a cobrança. Além disso, segundo o secretário geral da Federação, José Rodrigues, pedem para que Previc, o órgão fiscalizador dos fundos, e o próprio Correios sejam responsabilizados pelo rombo.

Há anos o Postalis é criticado por investimentos questionáveis que colocaram em risco a carteira. Um exemplo foram os quase R$ 400 milhões aplicados em papéis da Venezuela e da Argentina, que recentemente deu um calote em sua dívida. Também investiu em bancos que quebraram, como BVA e Cruzeiro do Sul. Somente em processos na Justiça paulista são mais de R$ 1 bilhão em que a nova administração tenta reaver o dinheiro mal aplicado.

O próprio fundo diz que boa parte do déficit foi gerado por provisões para perdas com investimentos. Por isso, se questiona o papel da Previc. O diretor de fiscalização, Sérgio Bjund, diz que uma auditoria feita em 2012 no Postalis resultou em 12 autuações contra administradores. Suas conclusões foram enviadas ao Ministério Público. O déficit daquele ano fez com que a contribuição dos carteiros aumentasse em 3,94%. Outra auditoria está em andamento. O déficit acumulado terá agora um efeito de 25,98% sobre o valor da contribuição. /J.G.

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