75% do brasileiros com renda não têm conta em bancos

O comerciante Miguel Tenor, de 62 anos, não tem conta em banco. Vende, diariamente, cocadas num carrinho limpo e bem cuidado no centro da capital paulista. Com cada cocada a R$ 1, chega a fazer, dependendo do dia, R$ 30 ou até R$ 40, dos quais desconta o custo do doce, a embalagem e a luva plástica e descartável que usa. Apesar de conseguir nas ruas rendimento superior a quatro salários mínimos, esse comerciante bom de conversa, casado, pai de uma filha e morador do centro, é um excluído bancário. Ele culpa a falta de comprovação de renda e as tarifas dos bancos por essa situação. Sente saudade do tempo em que tinha loja e empregados e "era tratado como um rei pelos gerentes de bancos". Os sucessivos planos econômicos dos anos 90, a começar pelo confisco no governo Collor, o jogaram na informalidade, "assim como a idade, que dificulta o emprego formal". Hoje, ele brinca com o sobrenome - "cantor de operas, operetas e operárias"- mas se corrige rápido e jura amor eterno à esposa que, todos os dias, o ajuda a embalar as cocadas. Tenor não é exceção entre os brasileiros, seja pela informalidade ou pela ausência de conta bancária e, como conseqüência, de crédito. Ele é parte de um universo de 25 milhões de famílias de um total de 39 milhões que integram a população economicamente ativa e não têm conta em banco. Nada de talão de cheques ou cartão eletrônico. A exclusão bancária, pelos cálculos da própria Federação Brasileira dos Bancos (Febraban) atinge 75% da população economicamente ativa do País. E não são apenas brasileiros como Tenor que passam hoje do outro lado da calçada onde estão os bancos. Dois mil municípios, em um País de 5.561, não têm nenhuma agência bancária, mas há vários brasileiros nestes municípios com muito dinheiro, resultado das atividades no campo e no comércio. É isso que faz com que, dos 2 milhões de famílias com renda superior a 30 salários mínimos por mês, 300 mil não tenham conta em banco. Entre as seis milhões de famílias com renda de 10 até 30 salários minimos, 22% também estão fora da rede bancária, porcentual que chega a 37% entre os domícilos com renda de 5 a até 10 salários mínimos e 80% dos 10 milhões de domicílios com renda de 2 a 5 salários mínimos. Gente que se vê, em casos extremos como pequenos empresários rurais e urbanos, obrigada a movimentar dinheiro em cidades próximas, onde há banco, e a guardar um pouco debaixo do colchão ou em cofres para as despesas correntes. Um nicho que, desde o início do ano, é disputado, palmo a palmo, pelo Bradesco e a Caixa Econômica Federal. No primeiro momento, o programa da Caixa visava atender a rede oficial no pagamento de benefícios sociais como o bolsa-escola, as aposentadorias, o bolsa-gás e outros para a população de renda baixa. Mas as movimentações estão surpreendendo o banco, que finalizou a instalação de correspondentes bancários - 61% deles funcionando em mercearias - e tem hoje cobertura em todos os municípios , inclusive os dois mil onde ainda não há agência bancária. O superintendente Nacional de Estratégia de Canais da Caixa, Luiz Carlos de Azevedo, diz, orgulhoso, que, de janeiro até o dia 13 de setembro, o número de transações nesses locais chegou a 5,7 milhões. No período, foram 2,5 milhões de recebimentos de contas de concessionárias (água, luz, telefone), 2,6 milhões pagamentos de benefícios sociais, correspondendo a 6 2 milhões de benefícios (uma transação paga todos os benefícios a que a pessoa tem direito) e 324 mil transações em conta-corrente e poupança, além de 38 mil pagamentos de Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS). O Bradesco, que fechou contrato para transformar agências dos Correios nos chamados Bancos Postais - serão 5.299 agências postais ao custo de R$ 200 milhões, enquanto uma agência-padrão sai por R$ 150 mil - também comemora resultados. Conquistou até junho deste ano, num projeto formalizado em abril 100 mil novos clientes, com 155 mil depósitos efetuados no valor de R$ 76 milhões. A expectativa do Bradesco é chegar a 3,5 milhões de novos correntistas, e, no futuro, os 40 milhões de brasileiros economicamente ativos que estão fora da rede bancária. A estratégia do Bradesco, similar à da Caixa, é identificar nesses rincões os que têm dinheiro e estão fora dos bancos.

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