José Patrício/Estadão
José Patrício/Estadão

80% dos credores da Boi Gordo são pequenos investidores

Maioria dos investidores aplicaram menos de 20 mil; esquema prometia 42% em 18 meses e chegou a ter comercial em horário nobre

Alexa Salomão, O Estado de S.Paulo

14 de agosto de 2016 | 05h00

Boi Gordo parecia o investimento mais sensacional do mundo. Chegou a ter comercial no horário nobre com o “Rei do Gado” Antônio Fagundes. Dava até 42% de retorno em 18 meses – o tempo para engordar um boi. Cerca de 32 mil pessoas aderiram, até gente famosa, como a atriz Marisa Orth e o ex-treinador da seleção brasileira de futebol, Luiz Felipe Scolari. 

Ocorre que não havia gado para tanta gente. Os investidores antigos eram pagos pelo ingresso de novos, não pelo retorno conseguido com a venda dos animais – ou seja, era um esquema de pirâmide. A época foi próspera em investimentos alternativos no agronegócio. Houve também um surto de aplicações em avestruzes e também em porcos, que igualmente deram em prejuízos. 

José Luis Peres, ex-corretor da Boi Gordo, diz que o negócio degringolou, em 2001, com o atentado das torres gêmeas, quando o mercado financeiro se retraiu. A empresa, então, entrou em concordata: “Até ali, era uma maravilha, eu ganhava de 7% a 9% de comissão e os investidores recebiam os cheques. Todos foram pegos de surpresa.” Inclusive o pai de Peres, que tinha sido convencido pelo filho, meses antes, a investir todo dinheiro da venda da casa em que morava para comprar um imóvel melhor com o rendimento.

O pai morreu em 2003. A mãe, aos 86 anos, mora de aluguel e, desde a falência da Boi Gordo, em 2004, pergunta ao filho quando vem o dinheiro. 

Trágico. “Sinceramente, não sei como tantos caíram nesse negócio e chega a ser trágico porque 80% das pessoas aplicaram menos de R$ 20 mil – eram economias, a poupança de famílias”, diz o advogado José Garcia. Ele representa 6,5 mil credores que se organizaram na ALBG, Associação dos Lesados pela Boi Gordo. Tem clientes no Brasil e em 18 países. Tem cliente até no Japão. 

O que mais impressiona Garcia é a certeza de que a lição não será aprendida. “As pessoas sempre estão em busca de retorno altos, rendimentos fáceis, alternativas de poupança. Tenho certeza que em cinco ou 10 anos, um negócio desses volta e veremos tudo outra vez”, diz. 

Nem todos procuraram ajuda. Cerca de 17 mil credores não se apresentaram. Os 15 mil que foram à Justiça começam a ser reembolsados se o megaleilão vingar.

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