800 mil argentinos fogem das crises

Maioria das pessoas que deixou o país era de profissionais qualificados; êxodo concentrou-se entre 2001 e 2002

Ariel Palacios, O Estadao de S.Paulo

06 de setembro de 2009 | 00h00

Ao longo das últimas quatro décadas, a Argentina, país que foi um grande centro de recepção de europeus entre 1880 e 1950, experimentou uma diáspora. Os argentinos partiram em massa para países desenvolvidos, como os Estados Unidos, França e Itália, ou emergentes, entre eles o Brasil.

Ao contrário de outros países latino-americanos, que expulsavam operários e lavradores, a Argentina caracterizou-se desde os anos 60 por sofrer uma sangria de profissionais qualificados. Mas o principal êxodo de argentinos ocorreu com a crise econômica, social e política de 2001 e 2002.

Segundo um relatório da Organização Internacional sobre Migrações (OIM), 806 mil argentinos abandonaram o país nos últimos oito anos. As estimativas indicam que 77% desses emigrantes tinham graduação universitária.

O número de argentinos que partiu desde 2001 equivale a 2,1% da população do país. A pesquisadora Susana Novick, no livro Norte-sul, Estudos sobre a Emigração Recente dos Argentinos, diz que o êxodo recente "se trata da maior onda migratória dos últimos cem anos".

O portenho Federico Vega, de 32 anos, mora na Espanha desde 2001. "Cheguei um mês antes do "corralito" (confisco bancário) do governo Fernando De la Rúa. "Foi mais ou menos uma aventura ter vindo para cá", explica, por telefone, ao Estado. "O cenário na Argentina era de instabilidade. E aqui as coisas deram certo para mim", afirma Vega, que atualmente tem uma locadora de vídeos de cinema de arte em Girona, na Catalunha.

Vega não descarta um dia voltar para a Argentina. Segundo ele, seus compatriotas na Espanha estão divididos. "Metade sonha em voltar e outra, não."

Esse é o caso dos Dalfiores. Oriundos da cidade de Rosário, faliram com o corralito de 2001. Em março de 2002, um primo em Milão conseguiu trabalho para Jorge Dalfiore, de 60 anos, e sua esposa, Elsa, de 59, em um pequeno hotel. Engenheiro, Jorge transformou-se em um "faz-tudo" no estabelecimento, consertando encanamentos e instalações elétricas. Elsa ocupou-se da recepção.

No entanto, seu filho César, arquiteto de formação, emigrou para os EUA em abril de 2002, onde virou atendente em uma academia de ginástica em Los Angeles. Depois de ficar três anos ilegalmente, conseguiu o green card.

Entre 2002 e 2005, os Dalfiores ajudaram com US$ 5 mil por ano em média os parentes que ficaram na Argentina. César admitiu que a situação nos EUA "está péssima" e não descarta voltar para a Argentina. "Fiz um pé de meia, tenho a esperança de que as coisas vão dar certo na Argentina", diz, por telefone. Seus pais consideram que voltar à Argentina é "um colossal risco".

OUTRAS CRISES

Milhares de argentinos partiram em êxodos anteriores à crise de 2001. Muitos abandonaram o país em 1989, quando a hiperinflação arrasou o país. Outros partiram na segunda metade dos anos 90, época em que a conversibilidade econômica do governo Carlos Menem começou a naufragar.

Karina Mizrahi partiu para o Brasil em 1996, onde foi fazer especialização em aviação comercial. "No início, minha permanência no Brasil não se deveu à crise, mas, nos anos seguintes, a Argentina não mostrava um panorama muito estimulante, enquanto no Brasil o cenário era mais positivo. Nesse momento, decidi colocar raízes aqui, em São Paulo. O Brasil acolhe as pessoas", diz, por e-mail, Karina, que trabalha como professora.

No mesmo ano, María Victoria Soria iniciou um êxodo familiar em massa, deixando Hurlingham, na Grande Buenos Aires, para instalar-se em Salvador, Bahia. "Meu irmão veio para Salvador um ano antes, pois casou com uma baiana. As coisas estavam feias na Argentina. Meus pais venderam a casa em Hurlingham por metade do preço e aqui compramos um lugar no centro histórico e instalamos um restaurante, a Casa da Roça. E agora também temos uma pousada na Chapada Diamantina."

Durante a crise de 2001, seu pai viajava para a Argentina de carro, levando caixas de alimentos não perecíveis aos parentes que estavam em graves problemas econômicos. Hoje, aos 32 anos, María Victoria afirma que de vez em quando pensa voltar. "Mas as coisas em Buenos Aires volta e meia ficam complicadas na economia."

Entre 2001 e 2007, as remessas dos argentinos que estavam no exterior para os parentes no país passaram de US$ 100 milhões para US$ 920 milhões. Isso equivale a 0,4% do PIB argentino.

REGRESSO

"Eu parti para a Espanha em 2001, entre o corralito e a queda do presidente De la Rúa", relata Natalia Felder. "Na época, não via a Argentina como um país para ficar." Natalia lembra que voltou para Buenos Aires em 2004. "Se pudesse, teria ficado um pouco mais na Espanha. Mas eram grandes os problemas para ter os documentos."

Natalia, formada em relações internacionais, mas atualmente na área de produção de espetáculos musicais, ressalta que gostava de morar na Europa. No entanto, ela indica que percebeu que teria melhores chances de expansão na Argentina que no Velho Continente.

O cineasta Sergio Criscolo é um dos que partiram do país em 1999, quando a Argentina estava no meio da recessão do final do governo do ex-presidente Carlos Menem. Criscolo não partiu por problemas econômicos. Mas, durante sua permanência na Espanha fez o documentário El Exterior (O Exterior), em que relata a história de argentinos que partiram para se instalar na Europa.

"Nos seis anos em que ali estive, vi muitos jovens argentinos que haviam migrado, muitos dos quais não haviam entrado ainda no mercado de trabalho na Argentina. Mas, perante as incertezas que surgiam no país, aproveitavam uma chance de estudar na Espanha para ficar na Europa e procurar trabalho", contou.

A Argentina passou por diversos êxodos de seus habitantes desde os anos 60. O primeiro grande êxodo de argentinos ocorreu em 1967, quando o governo do então ditador Juan Carlos Onganía expulsou quase 30 mil professores universitários e técnicos de seus postos de trabalho. Esse fluxo foi seguido de outro, a partir de 1974, por pessoas que deixaram o país pelas tensões políticas que tomavam conta do último governo de Juan Domingo Perón. Dois anos depois, o golpe militar de 1976 e a feroz repressão desatada sobre os civis provocou um novo grande fluxo de argentinos para o exterior.

Durante a democracia, a hiperinflação de 1989 provocou mais outro grande êxodo. A recessão que iniciou em 1998 e que agravou-se com a crise de 2001-2002 gerou a maior leva de imigrantes argentinos para o exterior já registrada.

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