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98% de conversa

A política monetária (política de juros) não consegue atingir os objetivos se as expectativas do mercado não forem solidamente conduzidas

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2015 | 21h00

Se é verdade que “a política de um banco central consiste em 98% de conversa e 2% de ação”, como ensina Ben Bernanke, ex-presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), então esta direção do Banco Central do Brasil está devendo eficiência.

É que a política monetária (política de juros) não consegue atingir os objetivos se as expectativas do mercado não forem solidamente conduzidas. E essa condução se faz principalmente com muita conversa e muita argumentação, ambas consistentes. Ou seja, para que a política monetária funcione, a comunicação tem ao menos de ser coerente; não pode confundir.

Não tem sido aqui no Brasil, a ponto de não conseguir convencer os fazedores de preços de que as projeções com que trabalha o Banco Central se confirmarão.

Ao fim do ano passado, por exemplo, os dirigentes garantiam que a inflação convergiria para a meta de 4,5% ao longo de 2016. Depois, passaram a dizer que esse efeito aconteceria apenas no fim de 2016.

Para a média dos analistas, a inflação na virada de 2016 para 2017 estourará o teto da meta; ficará nos 6,64%. A partir de outubro, as coisas mudaram outra vez. O Banco Central passou a avisar nos seus documentos que a convergência ficou para acontecer “no horizonte relevante da política monetária”. Supostamente foi adiada em um ano, para o fim de 2017.

Há dois dias, o próprio governo, para efeito de elaboração do Orçamento da União, passou a admitir inflação de 6,47% em 2016. Os juros de 14,25% ao ano foram calibrados em julho, quando o Banco Central ainda esperava uma inflação não mais alta do que de 4,5% no fim do próximo ano. E ainda acrescentou o recado de que agiria prontamente se a inflação real se distanciasse de forma relevante da meta. Até agora não agiu, talvez porque tenha concluído que não obteria melhor resultado se agisse.

E aí chegamos a outra questão. Vem ganhando força entre analistas pesos-pesados a percepção de que a política monetária do Banco Central perdeu eficácia, em consequência da enorme desordem das contas públicas. Teria começado a prevalecer a “dominância fiscal”, situação em que, ao invés de diminuir a inflação, mais juros a aumentam. Entre outras razões, isso acontece porque a maior carga de juros eleva a dívida pública, que afugenta os capitais, movimento que, por sua vez, aumenta a cotação do dólar, que aumenta a inflação.

Se essa percepção está errada, não haveria instituição em melhores condições para desmenti-la do que o Banco Central. No entanto, se, de um lado, silencia a respeito do assunto, de outro, parece concordar com ela, na medida em que mantém os juros onde estão, aparentemente porque não adianta puxá-los ainda mais para cima.

Nesta quarta-feira, 25, haverá mais uma reunião do Copom que será realizada num clima de inflação em alta e deterioração das contas públicas. É boa oportunidade para que o Banco Central ajuste suas doses de conversa e de ação.

CONFIRA:

Aí está a evolução do desemprego medido pela Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílio - Contínua, a Pnad Contínua.

 A caminho dos 10%

O nível do desemprego está disparando. Chegou aos 8,9% no terceiro trimestre do ano, de acordo com levantamento do IBGE. No mesmo período de 2014, estava a 6,8%. A informação mais relevante é a de que a tendência, nos próximos meses, é de ir para acima dos 10%. A Pesquisa Mensal apontara 7,9% em outubro, mas a Pnad Contínua tem mais abrangência e é mais moderna.

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