A 3ª Era da Computação

Há algumas semanas, durante uma conversa entre amigos, falávamos sobre os avanços tecnológicos nas últimas décadas. Então, percebi que a maior parte concordava que uma nova era da computação está começando: a Era dos Sistemas Cognitivos, a qual as máquinas são capazes de aprender e processar informações de forma similar aos humanos.

Fabio Scopeta Rodrigues, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2014 | 03h06

Ainda no século 19, iniciou a Primeira Era da Computação, com máquinas que tinham um só propósito, contar. Até a década de 40, os sistemas mecânicos ajudaram os humanos a executar desde tarefas simples como o de uma máquina registradora, até o censo demográfico de um país.

Necessidades mais sofisticadas - como encriptar mensagens em tempo de guerra - demandaram um novo tipo de sistema que pudesse ser programado para executar tarefas complexas. Nascia a Segunda Era da Computação - o período dos sistemas programáveis, o modelo tradicional de computação que conhecemos hoje. Tanto os grandes computadores quanto o seu smartphone são exemplos deste mesmo modelo computacional. Os aplicativos ou "apps" que usamos são programadas para seguir regras definidas: se acontecer isso faça aquilo, caso contrário, faça outra determinada coisa.

Esse modelo computacional não é capaz de lidar com a explosão de dados gerados pela nova dinâmica social e de negócios que estamos experimentando. Estimamos que 90% dos dados disponíveis no mundo hoje foram criados apenas nos últimos dois anos e que 80% deles são desestruturados, ou seja, são formatados como os humanos processam informação: blogs, tweets, artigos, papers, anotações médicas, etc.

Para lidar com esses dados e avançar na solução de problemas complexos, como doenças, a pobreza e o esgotamento de recursos naturais, precisamos de sistemas capazes de simular a forma que os humanos pensam e interagem. O intuito é que possam extrair conhecimento dentro um conjunto de dados tão vasto que levaria décadas para ser analisado por nós humanos. Precisamos de sistemas cognitivos.

O Watson, sistema cognitivo criado pela IBM - homenagem ao fundador da companhia Thomas J. Watson - apareceu em público pela primeira vez em 2011, ao vencer o programa norte-americano de TV Jeopardy!, quando "deu o pontapé inicial" para essa nova Era.

Vale notar que objetivo desses sistemas não é substituir o pensamento humano em tarefas complexas, mas multiplicar nossa capacidade cognitiva por meio da colaboração com ele. Com isso, seremos capazes de resolver problemas além das nossas limitações humanas. Essencialmente, essa não é uma era focada nas máquinas, mas na interação das pessoas com os computadores.

A Era da Computação Cognitiva transformará indústrias e profissões, mesmo as mais tradicionais. Por exemplo, médicos terão a colaboração de sistemas capazes de ler todos os artigos escritos sobre determinadas doenças, drogas criadas para tratá-las, mutações genéticas que afetam a eficácia de um tratamento, casos de sucesso e qualquer outra informação relevante e que possa ser útil ao propósito de gerar recomendações de procedimentos que levem ao melhor resultado para aquele paciente específico. Essas recomendações baseadas em um grande número de variáveis serão utilizadas pelo médico como apoio a sua decisão final sobre o tratamento.

Outras profissões também surgirão na medida em que os dados passam a ser o novo "recurso natural" para ser explorado. Em um futuro próximo terão demanda profissões ligadas ao tratamento de dados bem como aquelas com o objetivo de promover a interação com as máquinas, treinando-as para atuarem em diversos domínios de conhecimento.

Recentemente, um amigo me disse uma frase bem humorada: "Fábio, não estive com Armstrong quando o homem chegou a Lua, mas quero estar com o Watson enquanto criamos uma nova era da computação". Essa afirmação parece exagerada, mas me fez pensar: como poderíamos comparar aquele enorme feito humano com um avanço de muitas décadas no tratamento de uma doença tão destrutiva como o câncer? Ainda não tenho a resposta, mas convido vocês a essa reflexão.

* Líder do Centro de Competência Watson para a IBM América Latina

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