'A agenda da crise não deve ser nossa única preocupação'

Para economista, governo precisa fazer as reformas microeconômicas que vão permitir ao País crescer de forma 'natural'

Entrevista com

RAQUEL LANDIM, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2011 | 03h07

O Brasil não pode ficar preso à agenda da crise global e precisa realizar reformas microeconômicas para reforçar sua capacidade de se descolar da situação externa. O alerta é do economista Aloísio Pessoa de Araújo, um dos idealizadores da Lei de Falências, quando atuava como consultor do Banco Central na gestão de Armínio Fraga. "Temos de retomar a agenda microeconômica. Uma das razões do sucesso dos governos Fernando Henrique e Lula é que fizeram reformas", disse Araújo, que é vice-presidente da Sociedade para o Avanço da Teoria Econômica, sediada nos EUA. "A agenda da crise, que toma espaço nos países europeus e nos Estados Unidos, não deve ser nossa única preocupação". A seguir, trechos da entrevista:

Qual é a diferença entre a crise atual e a de 2008?

É bem diferente porque, agora, os países europeus e os EUA estão muito mais endividados e o sistema financeiro está mais fragilizado. Por outro lado, as autoridades ficam mais alertas e não vão ser pegas desprevenidas. Os países tomam certas precauções. Não vejo um cenário tão pessimista neste momento. O que eu vejo é um crescimento bem mais reduzido nos países europeus e nos Estados Unidos por diversas razões, inclusive políticas.

O senhor vê risco de quebra de bancos europeus?

Se houver default de países, pode ocorrer. Todos já sabem as consequências disso, vai ser evitado ao máximo, porque temos muitas eleições pela frente.

Qual é o impacto para o Brasil?

O impacto já está ocorrendo. Muitas consultorias revisaram para baixo o crescimento econômico. Mas o que aprendemos na última crise é que o Brasil tem formas de crescimento diferentes dos países europeus e dos EUA. O Brasil ainda é muito mais pobre, assim como China e Índia. A medida que incorporem mais capital humano no processo produtivo, tenham um mercado doméstico grande e algum acesso aos mercados internacionais, esses países podem continuar crescendo.

O que o senhor achou da redução de juros feita pelo Copom?

Foi inesperada, mas, com as notícias que vieram depois, nós entendemos mais. O resultado do PIB veio fraco e teve indicadores ruins nos EUA, como a fraca criação de empregos. Mas, se quisermos realmente ter uma trajetória de queda de juros nos próximos anos e se estabilizar em patamares mais favoráveis, são muito importantes as reformas fiscais estruturais.

Que tipo de reformas?

O governo falou em duas medidas muito importantes nessa área. Uma delas realmente está sendo implementada, que é o fundo de pensão do funcionalismo público. Já tinha sido aprovada a mudança no primeiro governo Lula, mas ainda não foi regulamentado e está tramitando no Congresso. Outra medida anunciada, que não ouvimos falar mais, é a mudança de concessão de pensões no Brasil, que é muito leniente.

Quais são os motores de crescimento do Brasil que permitem descolar da crise externa?

O principal é o capital humano. Como os aposentados que saem do mercado de trabalho têm menos educação do que os trabalhadores que entram, os anos de escolaridade média dos brasileiros vão aumentando. Isso será uma fonte de crescimento sistemática e contínua nos próximos 10 a 15 anos. O outro é a capacidade de expansão de exportações. Vários países vão demandar mais carnes, açúcar, minério de ferro. Também teremos um aumento intenso de produção de petróleo.

Mas em que áreas o Brasil precisa avançar?

No curto prazo, a fonte de crescimento seria uma redução do custo Brasil via investimentos em infraestrutura e melhoria da legislação. Temos algumas leis importantes a serem implementadas. Por exemplo, uma lei de liquidação bancária, que foi formulada pelo BC e deveria ter acompanhado a Lei de Falências. Em outras áreas, temos a PEC do ministro Peluzzo (Cesar Peluzzo, presidente do STF, que defende a redução do número de recursos em segunda instância), que pode aumentar a punição e reduzir a corrupção. Mas o mais importante mesmo é acelerar as concessões no Brasil. Não devemos fazer tudo via PAC.

O PAC está 'sobrecarregado'?

Não. O que o PAC está fazendo vai bem, mas outros investimentos poderiam ser feitos paralelamente. Para crescer 4,5% ou 5% ao ano, precisamos de outras fontes de investimento. O Brasil tem atraído muitos recursos, mas para a especulação de curto prazo, que valoriza o câmbio. Precisamos retomar as reformas microeconômicas.

As reformas microeconômicas estão paradas por causa da crise global?

É isso que dá medo. Não podemos ficar escravos da gerência de curto prazo: inflação, juros, câmbio. As reformas microeconômicas permitem um crescimento de forma mais natural, porque reduzem o custo Brasil. Não acho que seja fácil. Várias reformas enfrentaram problemas políticos. O Brasil já está caminhando, não é nada revolucionário.

A agenda micro ficou esquecida no governo Dilma?

O governo está começando agora e algumas coisas foram feitas. Por exemplo, a desoneração da folha de pagamento. Venho falando que é preciso desonerar a carga tributária sobre o emprego há muito tempo. A carga foi elevada nas crises para cumprir um ajuste fiscal de curto prazo, e agora é preciso retroagir. Eu gostaria que o governo tivesse desonerado todos os setores, mas foi no caminho certo. Também há uma tentativa de estimular o crédito de longo prazo, que é positiva. É preciso aliviar o BNDES de ser o único financiador de longo prazo. A agenda da crise, que toma espaço nos países europeus e nos Estados Unidos, não deve ser nossa única preocupação. E isso não é porque somos melhores que os outros, mas porque somos mais pobres. Não é surpreendente que o Brasil cresça em época de crise. Uma das razões do sucesso dos governos Fernando Henrique e Lula foi que fizeram reformas. Começaram em situação difícil, mas caminharam.

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