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A agitação final?

O Brasil talvez tenha sido o mais leal — e último — apoiador internacional de Trump

Albert Fishlow, O Estado de S.Paulo

17 de janeiro de 2021 | 05h00

O presidente Trump gostou de sua surpreendente eleição e de assumir subitamente o grande poder executivo quatro anos atrás. Ele enfatizou suas enormes conquistas por meio de uma série sem paralelo de mentiras descaradas, fornecendo a base até para a investigação do procurador especial Mueller e um possível impeachment. Sua base no Partido Republicano o apoiou totalmente, e ele continuou em frente.

Agora, ele conquistou um prêmio único. O fim de sua bizarra campanha por uma reeleição, mais disputada do que o previsto, provocou uma agressão ao Capitólio dos Estados Unidos na qual ocorreram vandalismo e ameaças pessoais contra o Congresso. A sessão convocada para certificar a eleição de Joe Biden como seu sucessor foi interrompida por horas, mas foi finalmente concluída durante a madrugada.

A tentativa aberta de Trump de subverter o processo eleitoral lhe valeu agora um segundo impeachment. Ele é a única pessoa na história americana que pode reivindicar tamanha honra. Seu julgamento no Senado está programado para começar durante o governo de Biden, esta semana. Os republicanos, desta vez, podem decidir votar de uma maneira um pouco diferente. Pelo menos alguns deles estão aliviados por não estar mais sujeitos às preferências emocionais de Trump.

O que os EUA têm pela frente? Na primeira instância, um esforço maciço para vacinar com sucesso 100 milhões de americanos nos primeiros 100 dias do novo governo. Paralelamente, grandes aumentos de pagamentos serão destinados para a maioria dos trabalhadores, para complementos de auxílios-desemprego, para pequenos empreendimentos e para Estados e cidades, com a aprovação do Congresso garantida pela nova configuração no Senado — a vice-presidente garantirá a maioria democrata.

Depois disso, veremos vários esforços não somente para desfazer mudanças domésticas e exteriores impostas anteriormente para atender objetivos especiais, mas também para elaborar leis destinadas a fornecer as bases para a liderança nacional, em vez de favorecer exclusivamente interesses privados. Qualquer interpretação da qualidade e da experiência dos novos integrantes do governo em relação aos seus antecessores mostra uma margem de melhoria considerável.

O Brasil talvez tenha sido o mais leal — e último — apoiador internacional de Trump. Jair Bolsonaro e seu ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo, junto com outros, foram fãs apaixonados. Quando visitou Trump nos EUA, Bolsonaro até exclamou: "Eu te amo”. Nunca tinha havido nenhum outro país tão favorecido. Ambos os presidentes acreditavam que era a primeira vez que os países estavam tão próximos. Ambos falharam em recordar ocasiões anteriores. Depois do golpe militar de 1964, os dois países estabeleceram uma aliança próxima. Ao longo do tempo, mas não imediatamente, essa proximidade começou a se enfraquecer, conforme ocorreu em períodos anteriores de interesses presumivelmente coincidentes.

De fato, é de se acreditar que a contínua resposta inadequada do Brasil à crise da covid-19 está relacionada ao desdém similar de Trump a respeito da questão.  Poucos líderes nacionais assumiram posições tão fortes a favor do uso de tratamentos ineficazes, como o remédio de malária hidroxicloroquina. Poucos foram tão imprudentes, sem limitar o contato pessoal próximo nem usar máscaras. E poucos foram tão incapazes de lidar com a velocidade sem precedentes do desenvolvimento de vacinas e torná-las disponíveis nacionalmente em grandes quantidades. Há boas razões para acreditar que a magnitude da acentuada elevação de casos e mortes nos últimos meses em razão da pandemia tenha origem na total falta de interesse pela ciência e capacidade analítica dos dois presidentes.

O aquecimento global é outro terrível ponto em comum. Este ano mais recente foi o pior, historicamente, em relação a elevação de temperatura desde que a ampla coleta de dados se iniciou, no fim do século 19. Isso tem acelerado desde 1981, com o ritmo de elevação tendo mais que dobrado até 2019. Apesar dos efeitos negativos da atividade industrial durante a pandemia, isso não deteve o problema. Trump acabou de retirar os Estados Unidos do Tratado de Paris, que determinou um esforço internacional de cooperação mobilizado nos anos mais recentes em busca de soluções.

Bolsonaro defende constantemente a política brasileira em relação à Amazônia, onde a destruição florestal aumentou nos últimos dois anos. Esse assunto domina a atenção de Biden e será levantado bastante durante seu governo.

Esforços dos brasileiros.

No campo econômico, Trump conseguiu acompanhar uma economia internacional conturbada.

A vitória de Bolsonaro na eleição de 2018 foi até certo ponto uma surpresa. Ajudado por uma economia em recessão e uma população que culpava o PT graças à Lava Jato e uma crescente dívida nacional, a plataforma dele foi definida pela aplicação de limites fiscais estabelecidos pelo predecessor governo Temer. Com Sergio Moro como ministro da Justiça, ele garantiria uma maior honestidade na governança. Com Paulo Guedes como ministro da Economia, ele libertaria a economia do excesso de governo e reativaria uma economia em passo de espera. Bolsonaro, por sua vez, agiria como um administrador político, fiando-se em um enxuto gabinete, com um grande componente militar e insistindo em regras sociais bastante conservadoras. Uma grande presença da família dele estava no centro do poder.  

O crescimento não foi recuperado automaticamente. O controle político foi difícil, até que uma nova coalizão de centro-direita foi formada. A Justiça foi prejudicada por novas regras permitindo a culpados uma margem de benefício. Ministros e secretários renunciaram regularmente ou foram demitidos. Intervenções maiores foram vistas por muitos como solução, mesmo com a presença militar se ampliando na Amazônia e outros lugares.

Nenhum outro país estrangeiro foi mais importante para Bolsonaro do que os EUA. Recebido por Trump na Casa Branca oficialmente uma vez e depois em Mar-a-Lago, na Flórida, ele não podia estar mais feliz. Isso era uma reprodução das relações bilaterais de 1964. Mas, dessa vez, a experiência poderia durar mais e ser mais importante. Bolsonaro ficou entre os últimos a reconhecer a vitória de Biden, e entre os primeiros a concordar com as alegações de fraude de Trump.

Ironicamente, o Brasil recebeu poucos benefícios concretos. Nenhuma brecha especial para as exportações foi obtida, ou qualquer outra vantagem. De fato, o país já procurava outros caminhos para o futuro. Os países do Mercosul concluíram um acordo com a UE no ano passado. Esse pacto ainda não foi assinado por causa da oposição política de alguns líderes europeus ao desmatamento na Amazônia. Um grande investimento americano da Boeing na compra da produção comercial da Embraer foi cancelado depois de um acordo preliminar. As exportações de petróleo e etanol eram irrelevantes quando seus preços caíram, com o domínio da técnica americana da fragmentação hidráulica.

Os brasileiros terão na memória sua defesa de ineficazes medicamentos voltados para o tratamento da malária, como fez Trump, para lidar com uma perigosa pandemia que já matou oficialmente mais de 200 mil habitantes, com um número real de vítimas certamente maior.

Somente agora as vacinas começam a ser distribuídas, muito depois de outros países. Algumas são menos poderosas do que as vacinas da Pfizer e da Moderna. Os hospitais estão sobrecarregados com o número recorde de casos, e os doentes não param de chegar.

A atividade econômica está em baixa, graças à estratégia deliberada de tentar garantir a expansão antes de sanar os problemas de saúde. Repetidas tentativas dos governadores de limitar o contato pessoal e promover o uso de máscaras individuais avançaram pouco, principalmente no verão. A falta de crescimento significou um endividamento maior, mais desemprego e pioras no ensino. Internamente, a violência aumentou em vez de diminuir, e questões sociais, de raça e de gênero exigem atenção.

Haverá outra eleição presidencial em 2022. Bolsonaro já está fazendo campanha. Também ele é líder de uma minoria. No próximo mês será a eleição dos líderes da Câmara e do Senado. Tais resultados servirão como importante indício do futuro. / Tradução de Augusto Calil

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