''A agricultura está melhor hoje que há 10 meses''

André Dias: presidente da Monsanto Brasil; executivo diz que desempenho positivo do último ano pôs a filial em 2º lugar no grupo, atrás apenas da matriz

Entrevista com

Marianna Aragão, O Estadao de S.Paulo

08 de setembro de 2009 | 00h00

Prestes a completar 60 anos, a filial brasileira da multinacional de agricultura e biotecnologia Monsanto vive dias de otimismo. Nas últimas semanas, a apuração dos resultados do último ano fiscal da companhia (julho/2008 a julho/2009) mostrou que a operação nacional cresceu 25%. O desempenho tornou a subsidiária brasileira a segunda maior operação do grupo, atrás apenas da matriz. Uma crise global menos grave do que se anunciava - pelo menos no Brasil - e a expansão na adesão dos agricultores a tecnologias recém-lançadas, como a de milho transgênico, estão na base da conquista inédita.

A nova posição também serviu para dar fôlego ao projeto de expansão que a subsidiária brasileira tem em mãos. A maior produtora de sementes de alimentos geneticamente modificados quer dobrar o tamanho de sua operação no Brasil em cinco anos. Para isso, deposita parte de suas fichas na pesquisa em cana-de-açúcar, setor que entrou no ano passado com a aquisição, por US$ 300 milhões, de duas empresas de biotecnologia de Campinas (SP). "A cana será nossa quarta plataforma nas culturas de larga extensão", aposta André Dias, presidente da Monsanto Brasil. Após uma experiência de três anos na Ásia e no Pacífico, o executivo chegou ao País há um ano para comandar essa nova etapa na história da companhia.

Aos 42 anos, 28 deles na multinacional, Dias acredita que o caminho para a expansão já começou a ser trilhado. A melhora na regulamentação das leis de biotecnologia e de propriedade intelectual é o principal motivo do otimismo. Abaixo trechos da entrevista:

A que se deve o destaque do Brasil na operação global da empresa? A crise aqui foi menos aguda do que vocês esperavam?

De forma geral, o Brasil reagiu muito bem a essa crise global. A agricultura foi ainda melhor. Houve dificuldades, mas menores que as previstas inicialmente. Ficamos acima da média em relação a Monsanto global porque temos obtido bons resultados no Brasil com a introdução de novas tecnologias. Neste ano, produzimos biotecnologia em milho, e isso contribuiu para nossos resultados. Além disso, como obviamente todas as empresas, passamos por um esforço de contenção de custos. Isso nos ajudou a ter um desempenho positivo.

Que impacto vocês sentiram no agronegócio?

Houve uma queda de preço muito acentuado em curto espaço de tempo, o que obviamente causou muita preocupação aos produtores. Logo em seguida, houve também o temor de que a falta de liquidez impactasse o acesso dos produtores ao crédito no Brasil, que é fundamental para eles financiarem a safra. Esses dois fatores pegaram muito forte no início da crise. Havia perspectiva de queda muito grande na área plantada, o que não ocorreu. Houve redução, mas não tão dramática quanto se esperava. O impacto foi mais por razões climáticas. Mas, fundamentalmente, a agricultura está numa situação muito melhor que dez meses atrás.

Um dos motivos do bom desempenho da empresa foi a introdução de novas tecnologias, especialmente no milho. Como a entrada do milho transgênico mudou a operação da empresa?

O milho é só um dos eventos. O progresso que o Brasil fez ao longo dos últimos cinco anos no ambiente regulatório, no que tange à biotecnologia na área agrícola, permite que não somente a Monsanto, mas outras empresas, também tragam essa tecnologia, que pode contribuir para a aceleração da produtividade da agricultura no País. No nosso caso, a introdução do milho com resistência a insetos, é apenas o primeiro de uma série de produtos que serão introduzidos ao longo dos próximos cinco anos. Então, estamos investindo pesadamente, e trazendo novas tecnologias, à frente desta, que vão transformar a agricultura brasileira.

Que tipo de avanços vocês buscam? Novas culturas?

Nós vamos sair de uma planta de milho que foi produzida agora, que tem uma característica de resistência a insetos, para uma planta que vai ter oito características introduzidas nela. Vamos pular algumas gerações. Para te dar um paralelo: o produto que nós lançamos na última safra no Brasil foi lançado nos Estados Unidos há 12 anos. Nós pretendemos, daqui a cinco anos, fechar esse intervalo. Vamos fazer em biotecnologia na agricultura no Brasil, em cinco anos, o que os EUA fizeram em 15 anos.

A empresa deve aumentar então seu nível de investimentos?

Já o fizemos. Anunciamos no ano passado um investimento de US$ 60 milhões na expansão da produção de sementes de milho. Também investimentos US$ 300 milhões na aquisição da Canavialis e Allelyx, em novembro. Investimos mais uma quantia na aquisição dos 49% restantes da empresa de sementes de algodão, MDM. Estamos falando em quase US$ 500 milhões, em um espaço de um ano e meio.

Vocês enfrentaram alguns obstáculos regulatórios para por os primeiros produtos geneticamente modificados no mercado. Como será daqui pra frente?

Eu, pessoalmente, posso atestar, porque estive fora nos últimos quatro anos. Quando comparo o que temos hoje com o que tínhamos quando eu saí, vejo um progresso muito grande. Não só no ambiente regulatório específico em biotecnologia, mas também no que tange a propriedade intelectual. Existe uma lei de biossegurança no País, existe uma comissão técnica em funcionamento. Não há necessidade de mudança de legislação. Os processos têm sido aprovado da forma prevista em lei. A manutenção do ambiente atual é suficiente.

Mudou o ritmo das análises dos pedidos de registro na CNTBio?

A nossa percepção é que a CTNBio tem feito um grande trabalho e os processos têm andado. Tanto é que nós aprovamos a primeira geração de milho, e há outros processos para aprovar as gerações sucessivas. A gente acredita que ela tem operado muito bem. Há um ritmo que permite com que você tenha a introdução de novas tecnologias. Um ambiente regulatório previsível.

A aquisição em novembro das Canavialis e Allelyx permitiu que vocês entrassem na área de cana em definitivo. Vocês continuam apostando nela como a quarta cultura da Monsanto?

Claro que continuamos acreditando. Pode-se falar que o setor neste momento está passando por grandes dificuldades, as usinas estão passando por problemas. Mas nós não compramos a Canavialis e a Allelyx pelo resultado deste ano. Nosso primeiro produto de biotecnologia em cana de açúcar só será lançado no final da próxima década. Todos os projetos de biotecnologia são investimentos de longo prazo. A flutuação do preço e a situação momentânea nos interessam porque queremos que nossos clientes, agricultores e usinas, estejam bem, mas não muda nosso compromisso de investimento no longo prazo. Continuamos acreditando nesse investimento - tanto em cana, quanto em soja, milho e algodão - porque somos seis bilhões de pessoas hoje e vamos ser nove bilhões em 2040. Esses 3 bilhões de pessoas a mais vão exigir o dobro de comida e de energia para viver.

E o preconceito da população em relação a produtos modificados?

Há progressos sendo feitos. Existe ainda grande desconhecimento da população em geral sobre biotecnologia. Cabe a nós, a indústria, e também a outros membros da sociedade, cientistas, manter um papel ativo na discussão sobre fatos e dados a respeito desse produto. Isso vêm com o esforço das empresas, com o tempo, com a contínua aprovação desses produtos por organismos respeitados internacionalmente.

Isso explica porque o milho transgênico avançou de forma tão mais rápida no Brasil do que a soja?

Cerca de 60% da área plantada de soja do Brasil é plantada com soja derivada de biotecnologia. Isso ocorreu dentro de quatro a cinco anos. No caso do milho, a próxima safra terá cerca da metade da área plantada com produtos de biotecnologia. É um avanço muito mais rápido do que a soja.

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