?A Alca é a renúncia à soberania nacional?, diz Celso Furtado

Privilegiar a exportação é uma forma de favorecer os capitais estrangeiros. A Alca é a renúncia à soberania nacional. O governo Lula deve partir da mobilização das forças sociais, da identificação dos problemas que afligem a população. Essas opiniões são do economista e ex-ministro Celso Furtado, 82 anos de idade, 32 livros publicados, em entrevista à revista Caros Amigos que chega às bancas amanhã. Criador da Sudene, a Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste, que foi extinta no governo Fernando Henrique Cardoso e que Luiz Inácio Lula da Silva se comprometeu a recriar, Celso Furtado concedeu a entrevista em seu apartamento em Copacabana, no Rio, a um jornalista, José Arbex Jr., da Caros Amigos, e a dois economistas: Plínio Sampaio Jr. e João Pedro Stedili, o coordenador do Movimento dos Sem Terra, o MST.?O maior problema brasileiro?, diz ele, ?não é econômico. Se fosse, bastaria ficar amarrado ao Banco Central para resolvê-lo. Resolveríamos a partir do Banco Central. O problema é social, e o governo deve partir da mobilização das forças sociais, da identificação dos problemas que afligem a população. Em primeiro lugar, o sofrimento enorme dos milhões de brasileiros que passam fome. Esse, sim, é o maior drama da nossa sociedade.? Alguns momentos da entrevista: Plínio Sampaio Jr. - Uma de suas grandes lições é como aproveitar o progresso técnico para o desenvolvimento nacional. O senhor costuma dizer também que precisamos ser diferentes, fazer nosso caminho, introduzir o progresso técnico em função das nossas necessidades, das nossas possibilidades. É possível ser diferente na ordem global? Celso Furtado ? Não se trata de ser diferente, trata-se de ser racional. A ordem global é uma coisa, a ordem de cada país é outra. Queiramos ou não, haverá uma ordem para cada país. Agora, essa ordem será administrada como? Internamente ou virá tudo programado de fora? O pessoal fica dizendo: ?O Brasil não pode ser diferente dos outros?. Ora, todos os países são diferentes. Não há país que não seja diferente. Começa pelos Estados Unidos. Veja o cuidado que eles têm em proteger suas indústrias. Ou, então, um país da Europa, hoje em dia integrado num grande mercado comum: todos eles têm muito cuidado antes de tomar qualquer medida. Se agora estão muito preocupados com as medidas tomadas no passado, é justamente porque as conseqüências sociais em cada país são diferentes. Portanto, não se pode dizer, no caso da ALCA, que todos os países serão iguais. O Brasil tem, como os outros, características próprias. É um país com uma grande massa de subemprego, um enorme potencial de recursos naturais não utilizados, um Estado com certa tradição de exercer o poder, portanto é necessariamente diferente de outros da América Latina. Dadas essas circunstâncias, esses fatos concretos, cabe-nos definir um rumo para o nosso país. João Pedro Stedile - Tem muita gente dizendo que a solução para o Brasil é exportar. Qual é a sua opinião?Celso Furtado ? Isso é outra piada boa. Na verdade, o que eles querem dizer é que essa é uma forma de criar emprego. É o lado positivo da afirmação. Agora, privilegiar a exportação é uma forma também de favorecer os capitais estrangeiros. Por exemplo, o forte aumento das exportações brasileiras beneficiou, e muito, o capital estrangeiro que está no país, o que levou a uma espécie de alívio da situação cambial. É preciso reconhecer que o país tem também uma grande dívida interna, o que faz com que cada empresa credora interfira na administração dessa dívida. O pessoal do Banco Central, por certo, tem consciência disso e faz um bom trabalho. Mas é outra coisa imaginar que pode haver fórmulas simples para resolver esses problemas. Não creio.João Pedro Stedile - O senhor recomendaria ao Lula reabrir a Sudene?Celso Furtado ? Ah, sim. Já recomendei. João Pedro Stedile - E qual seria o papel da Sudene num governo Lula? Celso Furtado ? Primeiramente, ela teria de voltar a ser o que era originalmente, e não essa caricatura em que se transformou. A Sudene era um órgão que permitia uma articulação melhor, de outro estilo, entre a administração federal e as estaduais. Por exemplo, o superintendente da Sudene tinha nível de ministro. Em segundo lugar, as decisões do conselho deliberativo eram de uma transparência total, não havia mistério lá. Dele participavam os nove governadores dos Estados do Nordeste. Esse órgão coletivo exercia o poder através dos governadores, que tomavam decisões conjuntamente com o governo federal, representado pelo superintendente. Tomavam uma decisão e o governo federal tinha de aceitar porque senão ficava em conflito com a Sudene e, portanto, havia a necessidade de uma cooperação fina, delicada, mas muito eficaz dos Estados com o governo federal, na qual se evitavam conflitos de jurisdições. Os Estados pequenos do Nordeste não têm expressão política, não pesam no Congresso Nacional, vivem barganhando pequenas coisas. E a Sudene representou no Nordeste a criação de um poder capaz de competir com o dos grandes Estados, como Minas Gerais ou São Paulo. Nos seis anos que passei na Sudene, nunca houve suspeita de desonestidade no uso de tantos recursos, tanto dinheiro que a Sudene usou, naquela época, e era muito mais do que hoje.Plínio Sampaio Jr. - No livro O Brasil, uma Sociedade Interrompida, o senhor termina um capítulo dizendo que é a hora e a vez do Brasil, que estamos num momento de decisões fundamentais. Como essa afirmação se traduz em mudanças concretas para o povo? Celso Furtado ? A primeira questão que eu privilegiaria é a criação de emprego, bem como a eliminação da fome endêmica pela integração ao sistema produtivo dessa população que hoje é marginal. Há muitos passos a dar que são fundamentais. Se você considerar que o Nordeste tem hoje em dia uma capacidade de exportação bastante grande, você pode dizer que a política de exportação do Nordeste pode beneficiar todo o Brasil. É preciso ter uma compensação em troca disso? É uma questão a ser debatida. E assim por diante, há mil coisas a fazer. A luz que tem de iluminar tudo é a idéia de que queremos uma sociedade nova, e que o homem tenha trabalho e tenha possibilidade de abrir o seu caminho por conta própria, tenha independência e fé no futuro.

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