A Alemanha ameaçada

Perigo para locomotiva europeia é se as menores economias da zona do euro sucumbirem à crise

GILLES, LAPOUGE, gilles.lapouge@wanadoo.fr, O Estado de S.Paulo

25 de julho de 2012 | 03h05

Artigo

Só faltava essa! A Alemanha, a Alemanha possante, virtuosa, frugal e dinâmica, a Alemanha da sra. Angela Merkel, a locomotiva da Europa, foi ameaçada pela agência de classificação Moody's de perder seu triplo A!

As pessoas esfregam os olhos. A Alemanha repreendida! A Alemanha tratada como uma pobre coitada Grécia, como um Portugal! "É grave, doutor?" Sim, é grave. Mas é bom saber como.

A Alemanha não se tornou do dia para a noite um desses países miseráveis, preguiçosos, irresponsáveis do sul que Berlim chama, com desprezo, de "países do clube Med". A economia alemã está com boa saúde. Ela exporta. Ela recolhe lingotes de ouro. Seu balanço de pagamentos é sadio. Ela toma emprestado a taxas próximas de zero, às vezes, até negativas.

Se, apesar de tudo, a Alemanha foi ameaçada pela Moody's é por um efeito de ricochete. Eis uma imagem: alpinistas avançam pela encosta de uma montanha. Todos os alpinistas estão ligados uns aos outros. Eles formam uma cordada. A cordada sustenta os mais fracos, retém os que caem. Mas, se vários infelizes despencarem, o fortão que se segurava para impedir que a cordada toda despencasse no abismo acaba escorregando. A zona do euro é essa cordada. Os pequenos se soltaram, e o fortão, a Alemanha, os sustenta. Mas até quando?

Foi a zona do euro, portanto, fragilizada, visada no parecer da Moody's. A agência dos EUA adere a uma opinião cada vez mais presente: a probabilidade de uma saída da Grécia da zona do euro não para de crescer. Porém, se a Grécia tombar, outros países fracos da zona ficarão na primeira linha, a Espanha, a Itália.

Trata-se de um processo que se traduz, em geral, por duas imagens: as peças de dominó, ou o contágio. Por que canais poderia ocorrer esse contágio? Por exemplo, pelos bancos. Os bancos alemães estão muito expostos às economias vacilantes da zona do euro, a Espanha, a Itália, talvez até França.

Essa ameaça à Alemanha prova que a zona do euro está em perigo. Alguns dizem até que não existe mais. É um paradoxo. Apesar de tudo, todos os países da região dispõem hoje da mesma moeda e como o euro não pode ser desvalorizado, a unidade da zona do euro é, apesar dos furacões e erupções, bem real. Mas a esse argumento, espíritos paradoxais replicam: "Se a Alemanha quiser tomar emprestado nos mercados, ela pode encontrar dinheiro a taxas muito baixas, quase próximas do zero. A Espanha,porém, precisou captar nos mercados e teve de aceitar taxas de 7,56%.

Fica a pergunta: o euro alemão e o euro espanhol são equivalentes? / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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