A Alemanha vai destruir a Europa

Escrevo este artigo com a economista Renata Machado. Todos acompanham a deterioração da situação europeia há mais de dois anos. Nada mais ilustra este fato do que a evolução da Grécia. O PIB grego não só vem caindo desde 2008, como a taxa de decréscimo tem acelerado rapidamente. Se a expectativa do FMI de redução de "apenas" 4,7% do PIB em 2012 se confirmar, este terá caído 17,3% no período de 2008 a 2012. A alta na taxa de desemprego do país também é impressionante, passando de 8,8% em 2006 para mais de 22% hoje. Não dá para dizer que os gregos não estão fazendo sacrifícios. O problema é que esses esforços são insuficientes.

JOSÉ ROBERTO MENDONÇA DE BARROS, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2012 | 03h10

A despeito do corte de mais de 50% no montante devido pelos gregos a seus credores privados, a redução do PIB não tem permitido um alívio na relação dívida/PIB do país, que deverá atingir 136,8% em 2017 (último ano das projeções) saindo de 110% em 2008, segundo estimativas do FMI. Com esses resultados, não tem como não concluir que, se permanecer na rota atual, a Grécia vai explodir.

Ao mesmo tempo, observou-se uma piora gradativa dos grandes países da Zona do Euro, especialmente de Espanha, Itália e, em menor magnitude, da própria França. A piora deve-se em grande medida à percepção de que esses países (em especial os dois primeiros) já entraram em uma situação de armadilha fiscal ("debt trap"). Isso ocorre quando a taxa de crescimento do PIB passa a ser inferior à taxa de juros de mercado cobrada para financiar sua dívida, o que faz com que a relação dívida/PIB do país entre em trajetória de aceleração, a menos que o governo seja capaz de gerar um superávit primário enorme, coisa que está longe de acontecer, apesar de todos os esforços. Não é de surpreender, portanto, que as taxas de juros dos papéis de 10 anos desses países não param de subir (no caso da Espanha, chegou a ultrapassar os 7% ao longo da semana passada e o da Itália está ao redor de 6%). Não existe coalização política e social que resista a tal desgaste.

Olhando esse cenário, fica a dúvida se uma ação mais firme dois anos atrás não poderia ter revertido esta tendência. Hoje, no entanto, nos parece que uma solução efetiva à crise teria um custo elevado demais até mesmo para a Alemanha.

Assim, à medida que o tempo passa, o resultado inequívoco da atual estratégia das autoridades europeias (em especial da alemã Angela Merkel) é uma deterioração rápida da situação econômica de seus países, em um círculo vicioso, no qual, a cada rodada, agravam-se ainda mais as consequências e, portanto, os custos, de uma ruptura. A estratégia de ajuste fracassou redondamente: a Alemanha não vai germanizar a Europa, dadas as gigantescas diferenças na história e na formação das diversas regiões.

Sem dúvida, os países devedores devem fazer ajustes fiscais. Entretanto, é evidente para 100% dos analistas que apenas ajuste fiscal é um caminho para o desastre e não uma solução sustentável para os problemas da região. Este ajuste deveria ser obtido em um prazo mais longo (com um peso maior, em um primeiro momento, de reformas) combinado a ações que minimizassem os efeitos negativos dos ajustes fiscais sobre o PIB e o emprego, de forma a manter a capacidade de pagamento do país.

A Alemanha, entretanto, segue dizendo não a qualquer solução que não seja sua visão de ajuste. Esta visão é doutrinária, quase religiosa. Se os países emprestaram, têm de pagar, independentemente dos custos. Só depois de expurgado o pecado é que algum tipo de solução pode ser pensada. Sem querer esgotar o número de vezes que a mesma disse não, lembremos alguns:

A Alemanha votou contra o programa do Banco Central Europeu (BCE) de compra de papel soberano (basta lembrar que dois de seus representantes no BCE, Axel Weber e Jürgen Stark, pediram demissão por discordar do plano). Hoje é evidente que se o BCE não tivesse feito as compras e os dois leilões de financiamento de três anos (LTRO) o sistema teria quebrado já no ano passado.

O mesmo vale para os projetos do bônus europeu e da união bancária (incluindo um regulador único e um sistema de seguro de depósitos).

A Alemanha se recusa até mesmo a considerar sugestões alemãs como a do Council of Economic Experts (A European Redemption Pact), que prevê a criação de um fundo que acolheria o excesso de dívida acima de 60% do PIB de todos os países da zona do euro e os refinanciaria conjuntamente. Este fundo teria a mesma estrutura do bem sucedido refinanciamento das dívidas estaduais que o governo brasileiro realizou em 1996/97.

Com isso, a Europa só se move à beira do abismo, sempre muito tarde e aquém do necessário. Soluções paralelas, porém limitadas, já começam aparecer. Chipre está negociando um empréstimo com a Rússia, visando a reforçar seu sistema bancário. A Inglaterra, numa revisão de seu ajuste à la Merkel adotado há algum tempo, já emprestou recursos para a Irlanda e anunciou que vai fornecer garantias do Tesouro para investimentos privados em projetos de infraestrutura e habitação no país. O Banco Central Inglês (BOE) anunciou há poucos dias a reativação de uma linha especial de empréstimo a custos baixos (ECTR) de forma a estimular empréstimos. Nesta semana foi liberada a primeira parcela da linha.

Não há dúvida de que uma situação limite ocorrerá em pouco tempo: o euro como se conhece hoje provavelmente não existirá até o fim do ano. Além da possível saída da Grécia, há outras sugestões, como a saída voluntária da Alemanha, seguida de uma valorização do marco e posterior re-atrelamento ao euro, ou até mesmo a "expulsão" da Alemanha, induzida pela aprovação no BCE de medidas de expansão monetária que o país é irrevogavelmente contra. A meu ver, todas as soluções são ruins e com efeitos negativos difíceis de estimar.

Se a Grécia sair, os custos no curto prazo para o país serão enormes. Sem falar no risco de contaminação e saída de outros países, cujos efeitos para a própria região e para a economia mundial seriam bastante negativos. Se a Alemanha sair, perdem os bancos e a economia alemã, que verá sua moeda valorizar fortemente ante o euro. Mesmo neste caso, em que os custos no curto prazo parecem ser menores, há incertezas enormes quanto à capacidade de sobrevivência de uma nova união, uma vez rompido o acordo inicial.

Enfim, o remédio alemão para curar a doença fiscal acaba por agravá-la. Já se disse que a Alemanha após duas guerras fracassadas conseguiu com o euro dominar a Europa sem dar um tiro. Entretanto, este domínio pode acabar mais uma vez mal. Joschka Fisher, ex-ministro do Exterior da Alemanha fez, em artigo recente, a mais aguda crítica que conheço à posição de seu país, que reproduzimos abaixo.

"A Alemanha destruiu-se - e à ordem europeia - duas vezes no século 20, e depois convenceu o Ocidente que tinha chegado às conclusões certas. Só desta maneira - refletida vivamente no seu apoio ao projeto europeu - conseguiu a Alemanha consentimento para sua reunificação. Seria simultaneamente trágico e irônico se uma Alemanha restaurada por meios pacíficos e com a melhor das intenções trouxesse a ruína da ordem europeia por uma terceira vez."

E tudo isto em apenas cem anos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.