Capítulo 26

A Amazônia queima e o agronegócio treme

Propostas de bloqueio a produtos brasileiros começam a aparecer, em meio à discussão sobre o aumento do desmatamento na região amazônica

Alexandre Calais, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2019 | 12h52

Caro leitor,

Nos últimos anos, quando a economia brasileira entrou numa espiral recessiva da qual ainda se esforça muito para tentar sair, o agronegócio sempre foi o contraponto.  Em 2017, quando o PIB voltou a ser positivo (1%), depois de anos de crise, foi muito por causa do agronegócio, que cresceu 13%.

Mas o agronegócio agora está bem preocupado. Depois de anos tentando construir uma imagem positiva, de ser um setor moderno, produtivo, adepto das novas tecnologias, cheio de startups, e tudo isso amarrado à preocupação com as questões ambientais, o enfoque dado pelo governo de Jair Bolsonaro ao meio ambiente ameaça jogar tudo por água abaixo.

A visão de Bolsonaro sobre o meio ambiente e a agricultura provoca polêmicas desde antes de sua posse. Seu projeto inicial era juntar as duas áreas num só ministério, capitaneado por gente ligada à agricultura.  Ideia que nem mesmo os grandes agricultores, em geral dependentes da exportação, gostavam muito. Para amenizar as críticas, o presidente manteve as duas pastas separadas. Mas, em todas as suas declarações posteriores, sempre deixou claro que essa coisa de proteção à Amazônia era coisa de esquerdistas, ou  de governos estrangeiros tentando impedir que o Brasil tirasse proveito das riquezas da região.

Nesta semana, tudo degringolou. Notícias sobre o aumento dos focos de queimada na região amazônica ganharam o mundo, e Bolsonaro teve reações destemperadas, acusando, sem provas, ONGs de estarem por trás dos incêndios. O presidente francês, Emmanuel Macron, disse que o tema deveria ser debatido no encontro do G-20, que será realizado neste fim de semana na França, e também recebeu uma resposta dura do presidente brasileiro. Segundo a nossa colunista Eliane Cantanhêde, Bolsonaro conseguiu atrair a ira do mundo para o Brasil.

A verdade é que a economia brasileira tem muito a perder com esse imbróglio. Nesta sexta-feira, 23, os governos da França e da Irlanda já disseram que podem bloquear o acordo entre o Mercosul e a União Europeia se o Brasil descumprir seus compromissos ambientais – como o de reduzir o desmatamento na Amazônia. A Finlândia sugeriu ainda que a União Europeia suspenda as compras de carne brasileira por causa da devastação provocada por incêndio na floresta.

Ou seja, a conta pode já estar chegando. E o agronegócio está temeroso.  Esse é um setor  em que há muito protecionismo no mundo todo. O acordo entre Mercosul e UE demorou décadas para sair do papel em boa parte por causa dos agricultores europeus, que temem perder mercado. E as queimadas na floresta de repente se tornaram um excelente argumento para mais protecionismo. "Agora que o Brasil, depois de anos, conseguiu conquistar o mundo e o mercado externo, a situação é de apreensão”, nos disse o especialista Alcides Torres, da Scot Consultoria.

Até os ex-ministros da Agricultura Blairo Maggi e Kátia Abreu, por anos tratados como inimigos das questões ambientais, demonstram preocupação com os rumos que esse embate vai tomando. “Há muitos anos fazemos um trabalho com nossos clientes na Europa e Ásia, para mostrar nossa responsabilidade ambiental e transparência com os produtos que vendemos. Com essas confusões do governo, nossos importadores estão desconfiados”, disse Blairo.

Outro ex-ministro, nosso colunista Roberto Rodrigues, diz não acreditar em boicote ao produto brasileiro no médio prazo, mas afirma que isso precisa estar no radar, já que existem alternativas no mundo ao que o País produz. “Temos de evitar que (o boicote) aconteça.”

Para o economista Rogério Furquim Werneck, sobram razões para que o agronegócio esteja alarmado. “Mundo afora, os lobbies do protecionismo agrícola nos países importadores de commodities agropecuárias brasileiras festejam a cada dia os desatinos da área ambiental do governo”, escreveu, em sua coluna aqui no Estadão. A questão ambiental precisa ser tratada com mais seriedade, e também com mais serenidade. O Brasil é quem tem mais a perder nessa queda de braço.

 

Alexandre Calais

Alexandre Calais

Jornalista

Está no Estadão desde 2004

Bolsonaro e a Economia

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