A ameaça Trump

Tensão comercial pode pôr em xeque trajetória do aperto monetário do Fed este ano

Fábio Alves, O Estado de S.Paulo

06 Junho 2018 | 04h00

É consenso entre os investidores que o Federal Reserve (Fed) vai elevar os juros básicos americanos na próxima reunião do seu Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, em inglês), marcada para os dias 12 e 13 deste mês, o que seria a segunda alta neste ano.

Mas a trajetória do aperto monetário pelo Fed ao longo deste ano e do próximo poderá ser colocada em xeque caso a escalada da tensão entre os Estados Unidos e os seus principais parceiros comerciais caminhe para uma guerra total no comércio mundial, com consequências para o crescimento da economia global.

Essa dúvida, contudo, deixará o mercado em suspense até o anúncio da decisão do Fomc, na semana que vem, pois desde o último sábado começou o período de silêncio durante o qual não há declarações, discursos ou comunicados pelos dirigentes do Fed.

Até a semana passada, a crise política na Itália, onde os dois partidos que formam a nova coalizão de governo mantinham até há pouco tempo uma ameaça de abandono do euro, causou um estresse agudo nos mercados globais, o que provocou também uma dúvida se a piora nas condições financeiras nos mercados globais poderia limitar o aperto monetário pelo Fed. Agora, o protecionismo é a nova fonte de preocupação.

Na reunião do Fomc em março, a mediana das estimativas dos 15 diretores do Fed apontava para um total de três altas de juros em 2018, mas por apenas uma projeção de um dos dirigentes, essa mediana não foi alterada para quatro elevações.

A expectativa era de que na reunião da próxima semana essa projeção oficial finalmente migrasse para quatro altas de juros em 2018, especialmente porque os recentes indicadores de inflação e de atividade econômica corroborariam esse movimento.

Em maio, por exemplo, os EUA criaram 223 mil empregos, bem acima da expectativa dos analistas, que previam a geração de 190 mil vagas. A taxa de desemprego nos EUA recuou para 3,8%, igualando o nível de abril de 2000, que foi o mais baixo desde 1969.

O salário médio por hora subiu 0,3%, levando a um ganho anualizado de 2,7% em maio. Esse indicador é monitorado de perto pelo mercado, uma vez que os ganhos salariais afetam a inflação.

Após a divulgação desses dados, apontando para uma recuperação mais robusta da economia americana, os investidores ficaram mais confiantes de que o Fed passaria a sinalizar um total de quatro altas de juros em 2018 na próxima semana.

Se, de um lado, a tensão na Itália diminuiu um pouco após a coalizão de governo formada pelos partidos Liga e Movimento 5 Estrelas (M5S) ter moderado o discurso de abandonar o euro, de outro, aumentou a ameaça de uma desabrida guerra comercial entre EUA e seus principais parceiros.

No domingo passado, o secretário de Comércio americano, Wilbur Ross, concluiu sua viagem à China sem chegar a um acordo, reforçando a perspectiva de que os Estados Unidos passem a impor uma tarifa de 25% sobre US$ 50 bilhões de produtos chineses a partir do próximo dia 15. Caso isso aconteça, o governo chinês ameaçou que vai retaliar os americanos.

Ontem, o diretor do Conselho Nacional Econômico dos EUA, Larry Kudlow, declarou que o presidente Donald Trump poderá abandonar de vez o Nafta – o tratado de livre-comércio com México e Canadá – e procurar negociar separadamente com os dois países.

Isso após Trump ter anunciado que vai impor tarifas à importação de aço e alumínio do México e do Canadá, os quais anunciaram medidas retaliatórias. Essas tarifas de importação de aço e alumínio também desagradaram a União Europeia, cujos países anunciaram retaliação contra os Estados Unidos.

Essa escalada da tensão comercial, além de vir a afetar o crescimento econômico global, está tendo um impacto imediato sobre os investidores e os preços dos ativos. Além disso, a crise política italiana não ficou totalmente para trás.

Como o Fed poderá sinalizar um maior número de altas de juros com tamanha tempestade ganhando fôlego e ameaçando a economia e os mercados globais? A resposta virá apenas na semana que vem, quando ficar claro se o BC americano focará no bom desempenho da sua economia ou nos riscos aos mercados globais.

COLUNISTA DO BROADCAST

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.