A América: um país contra o comércio?

Se medidas contrárias à abertura dos EUA forem adiante, a liderança americana terá um futuro duvidoso pela frente

Kenneth Rogoff*, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2016 | 05h00

A ascensão do populismo contrário à abertura comercial dos EUA na campanha eleitoral americana de 2016 faz pressagiar um perigoso retrocesso do nosso país nos assuntos da atualidade. Alegando atuar com a finalidade de reduzir a desigualdade americana, os candidatos presidenciais de ambos os partidos asfixiariam as aspirações de centenas de milhões de pessoas desesperadamente pobres em todo o mundo em desenvolvimento a fazer parte da classe média.

Se o apelo político de medidas contrárias à abertura dos EUA no que se refere ao comércio se revelar duradouro, assinalará uma guinada histórica nos assuntos econômicos globais, o que prenuncia um duvidoso futuro para a liderança americana. O candidato presidencial republicano Donald Trump propôs a adoção de um imposto de 45% sobre as importações chinesas nos EUA, projeto que atrai muitos americanos convencidos de que a China está enriquecendo por suas práticas comerciais desonestas.

Entretanto, apesar do extraordinário sucesso alcançado nas últimas décadas, a China continua um país em desenvolvimento em que uma parcela considerável da população vive num grau de pobreza inimaginável de acordo com os padrões ocidentais. O seu novo plano quinquenal, que visa tirar 55 milhões de pessoas da linha da pobreza até 2020, patamar definido como uma renda anual de 2.300 yuans, ou US$ 354. Em comparação, a linha de pobreza nos EUA é de US$ 12 mil para uma pessoa.

Diferenças. Sem dúvida, são consideráveis as diferenças entre os dois países em termos do custo de vida, o que torna as comparações diretas duvidosas, e, de fato, a pobreza não é apenas um problema social, como também econômico, pelo menos nas economias avançadas; mas a questão geral de que a desigualdade entre os países agrava a desigualdade existente no interior de cada país influi de maneira preponderante. Por outro lado, o problema da pobreza da China não é o mais grave do mundo. Índia e África têm populações mal comparáveis à de 1,4 bilhão de pessoas da China, que somente numa proporção consideravelmente menor conseguiram ascender à classe média.

O candidato presidencial democrata Bernie Sanders é um indivíduo muito mais atraente do que “O Donald”, mas sua retórica contrária aos acordos de livre comércio é quase tão perigosa quanto a deste. Baseando-se em destacados economistas de tendência esquerdista, Sanders desanca a nova proposta de Parceria Trans-Pacífico (TPP na sigla em inglês), embora ela pudesse ser muito mais benéfica para o mundo em desenvolvimento – por exemplo, abrindo o mercado do Japão às importações latino-americanas.

Sanders critica duramente inclusive Hillary Clinton, do seu partido, por ter apoiado pactos comerciais anteriores, como o Acordo de Livre Comércio para a América do Norte (NAFTA), de 1992. Entretanto, este pacto obrigou o México a baixar suas tarifas sobre produtos americanos muito mais do que forçou os EUA a reduzirem as sua, já baixas, sobre produtos mexicanos. Infelizmente, o sucesso esmagador da retórica contrária aos acordos comerciais, tanto de Sanders quanto de Trump, provocou o deslocamento de Hillary de sua posição mais centrista, e poderá ter o mesmo efeito sobre muitos membros da Câmara e do Senado.

É a receita para o desastre. O TPP tem suas falhas, particularmente por exagerar a proteção dos direitos de propriedade intelectual. Mas a ideia de que constitua uma terrível ameaça para os empregos nos EUA é bastante discutível; além do mais, alguma coisa terá de ser feita para tornar mais fácil a venda de produtos de alta tecnologia ao mundo em desenvolvimento, inclusive à China, sem medo de que tais produtos sejam instantaneamente clonados. A não ratificação do TPP quase certamente condenaria centenas de milhões de pessoas no mundo em desenvolvimento a permanecer na pobreza.

Medidas. O remédio certo para a redução da desigualdade nos EUA não é abandonar o livre comércio, mas introduzir um sistema tributário melhor formulado, mais simples e progressivo. Teoricamente, seria implementada uma mudança da taxação da renda optando-se por um imposto progressivo sobre o consumo (o exemplo mais simples é um imposto único com uma isenção muito elevada). Por outro lado, os EUA precisam desesperadamente de uma profunda reforma estrutural do seu sistema educacional, eliminando os obstáculos à introdução da tecnologia e da concorrência. Em realidade, as novas tecnologias oferecem a perspectiva de tornar muito mais fácil a requalificação e a realocação dos trabalhadores de todas as idades.

Os que defendem a redistribuição incorrendo em maiores déficit orçamentários do governo demonstram ter uma visão míope. Considerando a adversa composição da população humana no mundo avançado, a desaceleração da produtividade e a elevação das obrigações de pagamento de aposentadorias e pensões, é muito difícil saber onde seria o fim deste exorbitante endividamento. Acaso os progressistas favoráveis ao déficit se darão conta de que o ônus de futuras crises da dívida (ou de medidas de repressão financeira) provavelmente recairá de maneira desproporcional sobre os cidadãos pobres e de renda média, como aconteceu no passado?

A simples redistribuição da tenda mediante impostos e transferências é muito mais direta e seu efeito é muito mais forte, e certamente serviria para expandir a demanda agregada. Todos os que acreditam que os EUA estão perdendo por causa da atual situação da economia global, precisam colocar a questão em perspectiva. Não tenho dúvidas de que, daqui a um século, o estilo de vida dos americanos voltado exclusivamente para o consumo não será mais visto como algo a ser invejado, e que o fato de o país não implementar um imposto sobre o carbono será considerado um fracasso.

Com menos de 5% da população mundial, os EUA contribuem com uma parcela tremendamente desproporcional das emissões do dióxido de carbono e de outros poluentes, sendo que a maior parte da responsabilidade disso recai sobre a classe média americana. Entretanto, a ideia de que o comércio alimenta a desigualdade é uma visão muito limitada e os protecionistas que alardeiam um discurso moralista sobre a desigualdade são profundamente hipócritas. No que diz respeito ao comércio, a atual campanha presidencial dos EUA está sendo um enorme constrangimento. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

*Ex-chefe da equipe de economistas do FMI, é professor de Economia e Política Pública em Harvard

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