A análise prospectiva das contas externas exige rigor

O governo vê com muita satisfação a evolução das contas externas. E se hoje elas podem realmente descartar preocupações, é necessário analisá-las com redobrada atenção para ver se de fato não apresentam fragilidades que, no futuro, poderiam se transformar em problemas.

O Estado de S.Paulo

26 de julho de 2012 | 03h10

Ao analisar a conjuntura econômica do Brasil, o Fundo Monetário Internacional (FMI) insiste num ponto que parece negligenciado pelas nossas autoridades monetárias: por evidente excesso de consumo, o País depende demais da poupança externa para financiar seu desenvolvimento. A insuficiência de poupança interna para garantir um crescimento razoável é, certamente, um dos pontos mais frágeis da nossa economia.

O governo se regozija com o fluxo de Investimentos Estrangeiros Diretos (IED) elevado que, em termos líquidos, atingiu US$ 29,720 bilhões no primeiro semestre deste ano, apenas ligeiramente abaixo do valor registrado no mesmo período de 2011(US$32,502 bilhões), apesar da crise internacional. Nada autoriza a pensar, porém, que isso continuará, pois depende da evolução da demanda no Brasil e também da disponibilidade de capitais no exterior. Existe um fator que não é muito levado em conta. É que a desvalorização do real permite que o investidor estrangeiro disponha de mais recursos em moeda nacional para seus investimentos. Só que a dependência da poupança externa reduz a liberdade de ação do País, que pagará juros e dividendos.

A exportação, que é essencial para a formação da poupança nacional, representava 30,6% do PIB, em 2004, mas sua participação já caiu para 26%, em 2011. E cabe lembrar que ela se sustenta essencialmente com as vendas de commodities, cujos preços subiram, mas cujo valor acrescido é baixo.

A evolução das cotações na Bolsa de Valores mostra que não se pode contar com as operações nesse mercado como receitas firmes.

Verificamos que o saldo da conta financeira, que no 1.º semestre de 2011 era 163,7%, superior ao déficit das transações correntes, neste ano representou apenas 59% daquele déficit.

Os empréstimos externos captados pelo Brasil estão se mantendo quase ao mesmo nível do ano passado, mas têm um custo maior, o que aumenta o serviço da dívida.

Mas, certamente, o dado mais importante, por não ser apenas contábil, é o resultado do câmbio contratado, cujo saldo de US$ 39,8 bilhões, no 1.º semestre de 2011, caiu para US$ 22,9 bilhões, neste ano.

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