Gene J. Puskar/AP
Gene J. Puskar/AP

A aquisição da SABMiller pela AB InBev

Será que a gigante de bebidas, comandada por brasileiros, ainda vai acabar comprando a Coca-Cola?

O Estado de S. Paulo

15 de outubro de 2015 | 08h01

A batalha se estendeu por um mês, com muitas idas e vindas. Em setembro, a SABMiller, segunda maior cervejaria do mundo, anunciou que estava sendo alvo de uma investida por parte de sua maior concorrente, a AB InBev. Seguiram-se uma saraivada de ofertas, escaramuças na imprensa e conversas tensas a portas fechadas: entre os maiores acionistas da empresa estão uma gigante do tabaco, o elegante herdeiro da família mais rica da Colômbia e três bilionários brasileiros, para não falar no fundo público de investimentos da África do Sul. Na terça-feira, um dia antes de expirar o prazo estabelecido pela legislação de aquisições corporativas da Grã-Bretanha (a SABMiller está listada na bolsa de Londres), as duas empresas anunciaram um acordo preliminar.

Se concretizada, a fusão de US$ 106 bilhões será a terceira maior da história. Juntas, as duas cervejarias concentrarão metade dos lucros do setor, venderão duas em cada três garrafas de cerveja consumidas no mundo inteiro e terão faturamento aproximadamente 50% superior ao da Coca-Cola. Acertar o valor do negócio até que foi fácil. Tirar a fusão do papel - e, mais ainda, administrar o recém-formado titã - será mais difícil.

Não chega a ser surpresa que a AB Inbev tenha obtido um acordo. Trata-se de uma das empresas de estratégia aquisitiva mais agressiva do mundo. Em 1989, os três criadores do fundo de private equity 3G compraram uma cervejaria brasileira de porte médio. Essa empresa então se pôs a absorver concorrentes maiores em três continentes, até tornar-se a maior cervejaria do mundo.

Além disso, os últimos tempos não têm sido fáceis para a AB Inbev. Em diversos mercados importantes, os consumidores vêm trocando a cerveja por outras bebidas. E quando optam pela cerveja, cada vez mais pedem marcas artesanais. No ano passado, o consumo de cerveja permaneceu estável, mas as cervejarias artesanais conseguiram crescer 18%. E, segundo a empresa de pesquisas Euromonitor, nos últimos cinco anos a fatia da AB InBev no mercado americano caiu de 50 para 45%. A desaceleração da economia brasileira também provocou queda nas vendas.

Levedura. A aquisição da SABMiller é uma forma de alcançar rapidamente novos mercados. Exemplo: a companhia gera 29% de seus lucros na África, onde a AB InBev não tem grande penetração. É também uma oportunidade para que a AB InBev submeta mais uma empresa a suas práticas de redução de custos.

No entanto, muitas etapas ainda precisam ser percorridas antes que o negócio possa ser considerado fechado. Pela proposta preliminar, os maiores acionistas da SABMiller - a Altria, do setor de tabaco, e a família Santo Domingo - receberão uma parte em ações e outra em dinheiro, para que não tenham de pagar impostos excessivamente elevados Outros investidores receberão 44 libras (cerca de US$ 68) por ação, valor 50% superior à cotação de um mês atrás. Agora a AB InBev tem até 28 de outubro para examinar a contabilidade da SABMiller e finalizar a oferta.

A aprovação dos órgãos reguladores levará mais tempo para sair. Por conta de preocupações antitruste, a AB InBev talvez seja obrigada a vender a participação da SABMiller na americana MillerCoors e na maior cervejaria da China, a CR Snow. E as complicações devem se estender por outras sócias da SABMiller. Algumas delas talvez tenham o direito de dissolver as parcerias se a SABMiller for comprada. A cervejaria é importante engarrafadora da Coca-Cola na África. E a gigante dos refrigerantes dificilmente vai querer manter a sociedade com uma empresa controlada pela AB InBev, que é engarrafadora da PepsiCo na América Latina.

Se e quando o negócio for fechado, a AB InBev terá pela frente a missão de fazer com que a aquisição gere benefícios. Tornar-se uma empresa maior não é algo que resolverá de imediato seus problemas - não vai barrar o crescimento das cervejarias artesanais nem convencer os enólogos a trocar o vinho pela cerveja. O inegável talento que a AB InBev tem para reduzir custos talvez não seja muito útil desta vez. A SABMiller já é uma empresa enxuta. Além disso, suas operações são bastante espalhadas geograficamente, o que significa que será mais difícil encontrar redundâncias em instalações fabris e mão de obra.

Enfim, é mais uma vez hora de a AB InBev arregaçar as mangas e pôr mãos à obra. Mas Trevor Stirling, da empresa de pesquisas Sanford C. Bernstein, figura entre aqueles que conjecturam se o maior negócio da empresa ainda não estaria por vir. Antes do anúncio da aquisição, corriam rumores de que a 3G ou a AB InBev poderiam tentar comprar a Coca-Cola, uma empresa onde há muita gordura para cortar. Os refrigerantes correspondem a cerca de 20% da produção da SABMiller. A aquisição da Coca-Cola levaria à formação de um verdadeiro leviatã, com extraordinária infraestrutura mundial de engarrafadoras e outros ativos produtivos. O marketing poderia permanecer separado, caso fosse necessário. À primeira vista, a ideia é tão ousada que parece absurda. Mas se os negócios fechados nas últimas décadas no segmento de cervejas servem de indicação, não é impossível.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

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