Marcello Casal Jr/Agência Brasil
Marcello Casal Jr/Agência Brasil

A árdua tarefa do Banco Central

É difícil fazer política monetária neste governo, especialmente ante a pandemia e o risco hídrico

Claudio Adilson Gonçalez*, O Estado de S.Paulo

20 de setembro de 2021 | 04h00

A economia brasileira está em plena estagflação, quer dizer, a inflação, tanto a corrente como a esperada, está bem acima das metas, e a atividade econômica encontra-se estagnada. Trata-se de situação extremamente desafiadora, dado que, para atingir seu objetivo principal de garantir a estabilidade de preços, o Banco Central (BC) pode ter que sacrificar, ainda mais, os já deprimidos níveis de emprego e renda. É bom lembrar que a própria Lei Complementar n.º 179/21, que estabelece a autonomia do BC, determina que a autoridade monetária, “sem prejuízo de seu objetivo fundamental, deve suavizar as flutuações do nível de atividade econômica e fomentar o pleno emprego”.

Alguns economistas atribuem ao BC grande parcela de culpa pela elevação da inflação. No entender desses analistas, o Comitê de Política Monetária (Copom) teria reduzido de forma exagerada a Selic, não só após a deflagração da pandemia, quando atingiu 2,0% ao ano, mas desde que iniciou o afrouxamento monetário, em agosto de 2019. Discordo dessas críticas.

Segundo simulações da MCM Consultores, o hiato negativo do PIB, ou seja, a insuficiência de demanda para absorver a capacidade de produção do País, encontrava-se, em meados de 2019, entre 4% e 6%. Outras medidas, como a taxa de desemprego e o Nível de Utilização da Capacidade Instalada da Indústria (Nuci), atingiam, respectivamente, 12% e 75%, confirmando que a economia registrava elevado grau de ociosidade. Ao mesmo tempo, as taxas observadas e esperadas de inflação estavam aquém das metas. Portanto, a redução da Selic, de 6,50% ao ano, em julho de 2019, para 4,25% ao ano, em fevereiro de 2020, foi responsável e fundamentada.

Quando o Brasil foi sacudido pela pandemia, as indicações eram de que essa ociosidade iria se acentuar enormemente, como de fato ocorreu. Várias estimativas, inclusive as minhas, constatam que o hiato negativo do PIB, no segundo trimestre de 2020, alcançou níveis inusitados, da ordem de 10% a 14%. Novamente, inflações correntes e esperadas encontravam-se abaixo das metas. Todos os sinais eram de que seria necessário estímulo monetário excepcional. Novamente, o BC agiu de forma responsável e fundamentada, ao derrubar, gradualmente, a Selic para 2% ao ano.

No entanto, no Brasil e alhures, já no final de 2020, constataram-se fenômenos de dimensões tão inusitadas quanto a própria severidade da pandemia. Os programas de sustentação de renda, os novos hábitos determinados pelo trabalho em home office e a rápida adaptação ao comércio eletrônico fizeram explodir a demanda por bens (embora não a de serviços), causaram escassez de estoques na indústria, explosão no preço de commodities e rupturas nas cadeias globais de suprimentos. Esses fenômenos foram agravados no Brasil pelas crises políticas gestadas no Palácio do Planalto e pela condução titubeante da agenda de reformas estruturais, o que deteriorou as expectativas, estagnou os investimentos, depreciou o real e colocou mais lenha na fogueira da inflação. 

Atento a esses fatos, o BC iniciou o aperto monetário em março último. Em quatro reuniões do Copom a Selic subiu 3,25 pontos porcentuais. Acredito em uma nova elevação de 1,0 ponto porcentual, na próxima quarta-feira. Além disso, o presidente da instituição, Roberto Campos, tem declarado, com firmeza, que a Selic será elevada o quanto for necessário para reconduzir a inflação às metas. O que não se pode exigir, como muitos começaram a fazer, é que o BC tome medidas açodadas, promova um choque de juros e que mude sua política cada vez que um novo dado é divulgado. Afinal, a ociosidade na economia ainda é elevada. Sair da estagnação para a recessão seria muito danoso.

É difícil fazer política monetária no governo Bolsonaro, ademais com uma pandemia devastadora e um choque hídrico de grandes proporções.

*ECONOMISTA E DIRETOR-PRESIDENTE DA MCM CONSULTORES, FOI CONSULTOR DO BANCO MUNDIAL, SUBSECRETÁRIO DO TESOURO NACIONAL E CHEFE DA ASSESSORIA ECONÔMICA DO MINISTÉRIO DA FAZENDA

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