REUTERS/ Miguel Lo Bianco
REUTERS/ Miguel Lo Bianco
Imagem Celso Ming
Colunista
Celso Ming
Conteúdo Exclusivo para Assinante

A Argentina em erupção

O governo de Mauricio Macri abandonou o gradualismo e decidiu atacar a crise nas principais frentes

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

18 Agosto 2018 | 17h00

Há apenas dois meses à frente do Ministério da Produção do governo da Argentina, o economista Dante Sica está sentado sobre a cratera de um vulcão em erupção.

Quando assumiu, em meados de junho, Sica foi aplaudido pelos empresários argentinos que nele viam um conhecedor dos problemas do setor produtivo. Mas agora, em plena turbulência produzida pelo corte de devoluções tributárias, se perguntam uns aos outros: “¿Qué pasó con Dante?”.

O vulcão expele números fumegantes: o rombo fiscal que terminou 2017 em 3,9% do PIB não vem sendo reduzido o suficiente para cumprir as metas deste ano. O rombo externo (déficit em conta corrente), que era de 4,9% do PIB em 2017, vem sendo contido, mas ainda não passa firmeza. A inflação, que tinha meta de 15% neste ano, está saltando para algo entre 30% e 35%. O PIB mostrou queda de 2,6% ao ano no terceiro trimestre e, se tudo der certo, pode fechar o ano perto de -1,0%; o desemprego ficou em 9,1% no primeiro trimestre. Em oito meses, as cotações da moeda estrangeira saltaram 60,57% para a altura dos 29,86 pesos por dólar; e há toda a síndrome de contágio proveniente das crises da Turquia e do Brasil.

O novo ministro se inspira no livro do Êxodo para descrever esse estado de coisas: “Estamos em plena travessia do deserto”. Mas aposta em que, logo após a virada do ano, o povo argentino chegará, se não à terra prometida, pelo menos ao fim de uma travessia adversa.

O governo de Mauricio Macri abandonou o gradualismo e decidiu atacar a crise nas principais frentes. Um tarifaço, que cortou os subsídios à energia elétrica, ao gás e aos transportes públicos, deverá reduzir as despesas. Dia 14, o governo baixou decretos a fim de poupar 12,5 bilhões de pesos em 2018 e outros 53,0 bilhões em 2019. Um deles, eliminou as transferências a províncias e municípios de 30% da arrecadação de retenções (Imposto de Exportação) sobre soja. Outro zerou a devolução (reintegro) de impostos sobre exportações de industrializados. “Foi um sinal de que as metas serão cumpridas.”

O déficit externo está sendo controlado, garante o ministro Sica, com o fim do atraso do câmbio que, por sua vez, reduziu substancialmente o déficit da conta de turismo, que chegara aos US$ 12 bilhões em 2017. A alta do dólar derrubou em 45% os pedidos de importação. Em agosto o rombo comercial (exportações menos importações) desapareceu e as exportações de produtos industriais cresceram 17%.

O tarifaço, que corrigiu os preços administrados, mais a atualização do câmbio produziram a escalada da inflação. É, em grande parte, um ajuste do tipo “once for all” e não se repetirá. Mas há pressões dos sindicatos por reajustes salariais e corrida adicional ao dólar, que promovem novas esticadas de preços.

O principal fator que derrubou o PIB argentino deste ano foi a forte seca que cortou em 0,8 ponto porcentual a renda do setor agrário e outro 0,35, na área de transportes e de alimentos. A perda de exportações foi, na avaliação da consultoria Abeceb, de US$ 5 bilhões.

Outra parte do desempenho negativo do PIB, observa Sica, tem a ver com a frustração do crescimento do Brasil, uma vez que cada ponto porcentual de avanço do PIB do Brasil produz crescimento de 0,25% no PIB da Argentina.

A estratégia do governo Macri é concentrar as maldades do ajuste até o final de 2018 para que, a partir de janeiro, estejam criadas as condições macroeconômicas para a recuperação consistente. O objetivo é chegar às eleições de 2019 com a economia engrenada.

O principal risco deste plano é o de não chegar politicamente inteiro ao fim da travessia do deserto. O custo social do ajuste pode unir os sindicatos e os peronistas contra o governo Macri e, ao mesmo tempo, retirar o apoio dos conservadores. A recuperação da credibilidade, em boa parte, avalizada pela intervenção do Fundo Monetário Internacional, pode ser sabotada com erros de política econômica. O banco central, por exemplo, mostrou vacilação no combate à especulação cambial que se seguiu à deflagração da crise da Turquia e derrubou os juros na hora errada, quando a inflação disparava.

Enfim, ao abandonar o acerto gradual, Macri pode ter esticado demais a corda. É o que se vai conferir em breve.

Mais conteúdo sobre:
Celso Ming Argentina [América do Sul]

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.