A Argentina sob ataque

Quando a Argentina passou o calote de US$ 80 bilhões em 2005, alguns economistas brasileiros aplaudiram e recomendaram que países endividados, especialmente o Brasil, fizessem o mesmo. Os banqueiros - perguntavam - não cobram juros escorchantes na dívida externa, a título de seguro contra a suspensão de pagamentos? Então, o calote já estava no preço. Trouxa de quem pagasse...

CELSO MING, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2012 | 03h09

Depois do período que muitos viram como de show de crescimento, a economia argentina afunda, semana após semana. Entre outras razões, porque perdeu o crédito e vive fase de forte escassez de moeda estrangeira.

Agora se vê que, se não foi grave erro, o calote foi ao menos um péssimo negócio. A Argentina perdeu muito mais dólares e deve perder ainda mais do que os que deixou de pagar com a operação.

Investimentos estrangeiros e nacionais estão parados há anos e a fuga de capitais, só em 2011, foi de US$ 23 bilhões. Exportadores e importadores têm dado jeito de subfaturar ou superfaturar negócios, para que parte dos recursos seja paga por fora.

Alguém poderia objetar: "Tudo isso acontece agora por causa das distorções da política econômica adotada posteriormente ao calote, não por causa do calote".

Não dá para separar uma coisa da outra. Com o estancamento do crédito, a Argentina teve de viver da mão para a boca, só com suas receitas. Essa grave restrição formatou as políticas desestabilizadoras que se seguiram.

A política artificial de crescimento econômico, baseada em consumo interno turbinado por generosos reajustes de salários e de aposentadorias, provocou a disparada da inflação. Para evitar a escalada dos reajustes pela inflação passada, o governo passou a falsificar descaradamente as estatísticas de inflação, já há quatro anos à altura dos 24% anuais, enquanto os números oficiais a mantem nos 9%. A revista The Economist deixou de publicar estatísticas de inflação da Argentina com a observação de que "o número oficial não é confiável". E consultorias independentes que vêm publicando levantamentos próprios enfrentam pesadas multas do governo.

As despesas públicas dispararam. Em 2001, ano da quebra do País, estavam em 22% do PIB. No ano passado, saltaram para níveis recordes de 38,2% do PIB, como informa a Consultoria Abeceb, dirigida pelo economista Dante Sica (veja o gráfico no Confira).

Como as empresas do setor produtivo não podem reajustar os preços dos seus produtos acima da evolução da inflação patrocinada pelo governo, os investimentos estancaram. Nenhum empresário quer despejar dinheiro novo em negócio que dá prejuízo. Esse é um dos motivos pelos quais as importações anuais saltaram, em seis anos, para perto de 45%.

Para manter a farsa estatística, o governo Cristina Kirchner se viu na obrigação de segurar o reajuste cambial ao ritmo da inflação oficial. A "brecha" entre o câmbio oficial e o negro é hoje de 48%. O dólar artificialmente barato provocou fuga de capitais. A política de rígidas restrições às importações e às compras de moeda estrangeira não deu o resultado esperado e certos setores são obrigados a baixar a produção, porque não contam com fornecimento regular de peças e insumos importados.

Desarrumações dessas proporções não ficam restritas ao campo econômico; tendem a se espalhar também para o jogo político.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.