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A armadilha e a educação

Sem retomar desenvolvimento não há solução para problemas sociais

Fernando Dantas, O Estado de S.Paulo

23 Setembro 2016 | 05h00

De 1980 a 2015, de acordos com dados do FMI, os PIBs dos dois maiores e mais industrializados países latino-americanos, Brasil e México, cresceram à mesma média anual em torno de 2,5%. Este ritmo é próximo daquele no qual os países mais avançados crescem. Os Estados Unidos, por exemplo, cresceram em média 3,2% ao ano de 1980 a 2015. Em outras palavras, há quase 40 anos as duas maiores economias latino-americanas não convergem em direção ao padrão de renda dos países ricos.

Esse fenômeno assustador é conhecido nos meios acadêmicos como “armadilha da renda média”. Há muitas discussões sobre as suas causas, mas resumidamente pode-se dizer que é muito mais fácil para um país sair da pobreza para a renda média, estágio de Brasil, México e vários outros da América Latina, do que completar a parte final do circuito e ingressar no mundo avançado.

A América Latina está atolada na armadilha da renda média. Há na região trajetórias de crescimento ao longo das últimas décadas melhores do que as de Brasil e México, mas em boa parte dos casos elas incluem pedaços do trecho naturalmente mais veloz que vai da pobreza à renda média. Em alguns casos, como o do Chile, a convergência para o padrão dos ricos parece não ter se interrompido totalmente, mas procede à baixa velocidade. Nada comparável com as espetaculares arrancadas de países asiáticos como a Coreia, que deu a partida nos anos 60 e já chegou ao fim da estrada, ou a China, que até agora sustenta sua impressionante decolagem.

Muito se tem falado sobre a excessiva importância conferida ao conceito de PIB, que não capta todas as nuances do bem-estar humano. Essa é uma conversa que faz sentido para países avançados, que já resolveram os problemas sociais mais dramáticos. Num país como o Brasil, não dá para nutrir ilusões. Sem retomar o desenvolvimento e a convergência, não há solução de médio e longo prazo para a pobreza, a desigualdade, a violência, a degradação dos ambientes social e natural e a maioria dos males que afligem o grosso da população e fazem mal à consciência dos demais.

Desafio. A grande questão, evidentemente, é por que caímos na armadilha da renda média. Tomando-se a América Latina como um todo, é possível mapear diversas abordagens do desafio do desenvolvimento, que se refletem em intermináveis discussões sobre câmbio, juros, indústria, grau de proteção e papel do Estado.

Mas há um tema específico, fundamental para o crescimento econômico, em que há quase uniformidade na América Latina: a má qualidade da educação. Consultando os últimos dados do exame internacional Pisa, que afere o nível de aprendizado de alunos de 15 anos em diversos países do mundo, as nações participantes da América Latina, como Brasil, México, Argentina, Chile, Colômbia e Peru, estão todas na parte mais baixa do ranking.

É verdade que aproximadamente metade dos 65 países do Pisa são ricos, com outros tantos emergentes, e que o mundo pobre está praticamente de fora. Ainda assim é duro constatar que no topo da lista do último ranking, de 2012, está Xangai, na China, e que o Vietnã, mais pobre que o Brasil, estava na décima sétima posição em matemática, enquanto o nosso lugar no ranking era o 58º.

Sem massificar a educação de qualidade, a América Latina não vai superar a armadilha da renda média. Nós brasileiros nos angustiamos o tempo todo com os sintomas econômicos do PIB, da inflação, dos juros e do desemprego, ou com os sintomas sociais da injustiça, da violência e da carência de bens básicos, ou com os sintomas políticos da corrupção e do clientelismo. Na verdade, porém, é para a cura, isto é, para os indicadores educacionais e as políticas públicas voltadas ao Ensino Básico, que deveríamos canalizar a maior parte da nossa atenção e energia cívica. Não há solução fora da educação.

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