A arquitetura do caos

O Rio potencializou a corrupção em níveis nunca vistos de Cabral (o descobridor) a Cabral

Josef Barat, O Estado de S.Paulo

27 Março 2018 | 05h00

A situação a que chegou o Brasil foi meticulosamente construída. Houve método nessa insanidade. O preço que está sendo pago pela imensa maioria da população tornou-se insuportavelmente alto. A maior e mais prolongada recessão da nossa história foi acompanhada pelo desemprego, inflação e perda brutal de renda. Como não poderia faltar a uma narrativa apocalíptica, esse cortejo funesto foi acompanhado de descontrole das contas do governo e aumento continuado da dívida pública. Tivemos uma redução do Produto Interno Bruno (PIB) da ordem de 7% em três anos (2014-16), após uma década de crescimento irregular e, em geral, medíocre. A taxa média de desemprego anual no Brasil chegou aos 13%, em 2016. A inflação ultrapassou os dois dígitos em 2015 e aproximou-se de 12% anual, provocando sérias apreensões quanto ao futuro. 

Nunca antes na história deste país ocorreu uma conjunção tão perversa de fatores que conduziram a sociedade à desesperança. À degradação dos indicadores econômicos juntaram-se ciclópicos níveis de corrupção, um grau alarmante de violência urbana e insegurança no cotidiano da população. Há de convir que chegar a uma situação de descalabro como essa exige muito empenho e dedicação das autoridades. Foi preciso muito esforço, alianças e compromissos para que os Três Poderes da República e os três níveis de governo se unissem em um pacto macabro para levar o País ao caos. E, claro, parafraseando Aristides Lobo, seria preciso também um povo que assistisse bestializado à progressão do caos. E que, por artes e manhas do ilusionismo político, este povo ainda se considerasse grato beneficiário das “bolsas”, “benefícios”, reduções de tarifas, manipulação de dados e informações.

Se hoje o Brasil paga essa irresponsabilidade generalizada com sangue, suor e lágrimas, o caos do Rio de Janeiro foi de uma construção exemplar. 

Vitrine do Brasil para o bem e para o mal, o Rio potencializou a corrupção em níveis nunca vistos de Cabral (o descobridor) a Cabral (o presidiário), a calamidade administrativa e financeira no governo, na gestão da segurança pública e na falência dos serviços públicos. A redução de atividades da Petrobrás (15% da receita estadual), o declínio da construção naval e civil, as reduções de vendas no comércio, entre outros fatores, fizeram a taxa de desocupação no Estado bater um recorde, atingindo quase 16% da população em 2017. Entre 2015 e 2017 o Rio de Janeiro teve uma redução de 7% no PIB e diminuiu sua participação no total do País. Forte queda no PIB, redução da renda das famílias e desemprego elevado formam uma excelente conjunção de fatores para aumentar a pobreza. E como uma das poucas atividades econômicas que prosperaram foi o tráfico de drogas e de armas, foi inevitável o crescimento da violência e da criminalidade.

Mas, como disse Millôr Fernandes, no Brasil não existe crime organizado, o que existe é polícia desorganizada. Inevitável, portanto, que na meticulosa construção do caos a segurança pública passasse a ser vista como um “reality show” de governos corruptos, e não voltada para fatores de ordem social, econômica e humana da maior gravidade. Na verdade, houve uma inacreditável recusa de ver a dimensão de uma crise há muito anunciada. Crise que acabaria por trazer o Rio de Janeiro do sonho irresponsável de rico emirado petrolífero, para a sua real condição de desigualdade, pobreza e fragilidade econômica.

Celeiro de talentos para gerar criatividade, conhecimento e inovação, o Rio de Janeiro degradou e desmantelou suas universidades e centros de pesquisa e de alta tecnologia. Com potencial turístico excepcional, afugentou visitantes com ondas de violência próximas de uma guerra civil. Com amenidades que oferece, deixou sedes de grandes empresas mudarem para São Paulo. A essa altura, que pelo menos haja tolerância para permitir a ajuda de deuses diversos...

* ECONOMISTA, CONSULTOR DE ENTIDADES PÚBLICAS E PRIVADAS E COORDENADOR DO NÚCLEO DE ESTUDOS URBANOS DA ASSOCIAÇÃO COMERCIAL DE SÃO PAULO

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