A arrecadação reage
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A arrecadação reage

A avaliação se repete quando se conferem alguns subitens da arrecadação; o significativo crescimento das receitas com o IOF, por exemplo, sugere que a expansão do crédito ao consumidor também vai se firmando

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

20 Setembro 2017 | 21h00

Contra bom número de expectativas em contrário, a arrecadação do governo federal teve um excelente desempenho em agosto (veja o Confira).

Hoje, em Nova York, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, já não repetiu o pedido de orações pela economia, como fez no último sábado em vídeo destinado a pastores evangélicos, mas festejou previamente o avanço anualizado de 3% do PIB no último trimestre deste ano, projeção que considera suficientemente segura.

As primeiras estimativas, com base nos primeiros dados avaliados pelo chefe do Centro de Estudos Tributários e Aduaneiros da Receita Federal, Claudemir Malaquias, são de que a arrecadação continuará apresentando resultados positivos em setembro.

Enfim, este é mais um indicador que aponta para a recuperação do setor produtivo depois de três anos de dura recessão. A avaliação se repete quando se conferem alguns subitens da arrecadação. O significativo crescimento das receitas com o IOF, por exemplo, sugere que a expansão do crédito ao consumidor também vai se firmando. Isso, por sua vez, tem a ver tanto com o aumento da renda do consumidor, graças ao tombo da inflação, quanto com a redução do seu endividamento familiar. Outro elemento positivo é o de que a arrecadação foi puxada pelo Imposto de Renda das Pessoas Jurídicas, Contribuição Social sobre o Lucro Liquido e pelo o PIS/Cofins. É sinal de que os lucros voltaram às empresas.

Há certo punhado de razões para argumentar que ainda não há garantia de que essa recuperação seja sustentável. A crise política, por exemplo, é profunda; não há clareza sobre quem governará o Brasil a partir de 2019; e o estado geral das contas públicas é a lástima que todos conhecem.

Mas a recuperação da confiança é inegável. Ela se manifesta não apenas naquilo que os comentaristas passaram a identificar como “descolamento” da economia do resto da crise ou no aumento da procura de ações de empresas brasileiras na Bolsa de Valores. Ela ultrapassa as fronteiras e pode ser medida pelo comportamento do CDS (Credit Default Swap) de 5 anos do Brasil, contrato que funciona como seguro contra calote. Quanto maior o número de pontos-base do CDS, maior o risco de calote. E, como mostra o gráfico acima, apesar das denúncias, da grave crise política e do aumento do rombo fiscal, a qualidade dos títulos de dívida do Brasil inspira cada vez menos preocupação no exterior, a despeito do rebaixamento promovido pelas agências de classificação de risco.



Por trás dessa demonstração de aumento da confiança há uma aposta: a de que, apesar dos pesares, o Brasil resolverá seus problemas e chegará a 2019 com um governo com grande capital político. Não passa pela cabeça de ninguém que a política econômica do próximo governo do País, seja ele qual for, repita as irresponsabilidades do primeiro governo Dilma.

Como todas as apostas, esta também pode dar errado. Nesse caso, cessará tudo quanto essa musa canta e a desolação estará de volta, com consequências imagináveis. Mas, hoje, ninguém conta com isso.

CONFIRA

Embora tenha caído 5,4% em relação a julho (em consequência de fatores sazonais), a arrecadação do governo federal teve um desempenho acima do esperado, o melhor para meses de agosto em três anos. Correspondeu a um avanço de 10,8% em relação a agosto do ano passado e, na acumulada deste ano (até agosto), a um crescimento de 1,7% em relação a igual período de 2016. Esses números estão deflacionados, portanto apontam para crescimento real. Esse é um sinal que confirma o fim da recessão e a recuperação da economia.


 

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