A arrogância é o grande risco

O governo Lula tem mostrado arrogância ímpar ao pretender enganar a sociedade por meio da manipulação dos resultados fiscais. Em sua arrogância, o governo parte do princípio de que ninguém vai se dar conta da perda consistente de qualidade da gestão das finanças públicas, todos se deixando enganar pelos "maravilhosos" resultados divulgados pelo governo.

GUSTAVO LOYOLA, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2010 | 00h00

São várias as evidências do processo de gradual e lenta destruição do edifício de responsabilidade fiscal construído ao longo dos últimos anos. Como exemplos, vale mencionar as exceções à legislação fiscal e, principalmente, o uso e abuso da contabilidade criativa na apuração dos principais indicadores de acompanhamento das finanças públicas.

A recém-editada Medida Provisória (MP) n.º 500 ilustra bem o absurdo a que chegou a gestão das finanças públicas no Brasil. Ao autorizar que a União vendesse receitas futuras da Eletrobrás para o BNDES, a citada MP criou artificialmente receitas primárias para o Tesouro, para auxiliar no fechamento das contas em agosto. O mais grave é que o dinheiro utilizado pelo BNDES para fazer tal aquisição veio dos cofres do próprio Tesouro, que desde o ano passado vem fazendo generosos aportes ao banco sob a forma de capital e de empréstimos, com recursos oriundos de emissão de dívida pública. Além disso, o mesmo instrumento legal embute outro mecanismo de criação artificial de resultados, caso o Tesouro não utilize integralmente os recursos da cessão onerosa à Petrobrás dos direitos de exploração das reservas do pré-sal na subscrição de ações da empresa.

Como se observa, a referida MP formaliza a criação de um verdadeiro motoperpétuo de geração de resultados fiscais primários, a partir do aumento do endividamento, o que torna as contas públicas ainda mais opacas. Vale ressaltar que a transparência dos resultados fiscais já se encontrava bastante prejudicada pelo uso de abatimentos contábeis dos gastos do PAC e pela expansão da dívida bruta para suprimento de recursos ao BNDES.

Com isso o governo se julga capaz de seguir expandindo seus gastos, sem se preocupar com a repercussão da divulgação de resultados fiscais ruins. Ocorre que tudo isso são artificialismos contábeis que não têm o condão de alterar a natureza real do processo de piora da qualidade das contas públicas no Brasil. O que é certo é que o real superávit fiscal tem minguado nos últimos anos, por força da expansão desmedida da despesa pública.

Outro recente atentado à responsabilidade fiscal foi a brecha aberta pelo governo na legislação vigente para permitir a contração, pelas cidades-sede de jogos da Copa do Mundo de 2014, de financiamentos vinculados às obras necessárias à realização do torneio. O afrouxamento dos limites de endividamento é um preocupante precedente que abre o caminho para novas exceções, todas elas justificáveis com "bons argumentos", como o utilizado no caso da Copa.

Agrava esse quadro a crescente tendência de expansão da participação do Estado na economia, com a criação ou ressurreição de empresas estatais em variados setores da atividade empresarial. Não apenas tais projetos estatizantes são equivocados sob o ponto de vista da eficiência econômica, como também ensejam riscos fiscais elevados, como ensina nossa experiência histórica. Afinal de contas, grande parte dos esqueletos fiscais no Brasil foi gerada pela atuação equivocada de empresas estatais em projetos mirabolantes de baixo retorno econômico.

Esse quadro de deterioração fiscal, se não revertido a tempo, trará prejuízos macroeconômicos sérios, em que pese o emprego de expedientes variados para mascarar o aumento do gasto. Em algum momento os agentes econômicos vão perceber que o rei está nu e o ambiente hoje favorável se reverterá para um de crescente desconfiança quanto à manutenção da estabilidade da economia no futuro. Com isso as perspectivas de crescimento da economia ficarão comprometidas.

SÓCIO DIRETOR DA TENDÊNCIAS CONSULTORIA, FOI PRESIDENTE DO BANCO CENTRAL

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