A arte da guerra

É hora de o Brasil explorar setor a setor quais podem vir a perder ou a ganhar com o "guerra" entre China e EUA

Monica De Bolle*, O Estado de S.Paulo

04 Abril 2018 | 05h00

“Pareça fraco quando está forte, e forte quando está fraco”, recomenda Sun Tzu. Trump esbraveja e tuíta, seu exército de Brancaleone comandado por Peter Navarro, o assessor da presidência para assuntos comerciais, ameaça e esperneia. Enquanto isso, a China, com alguma discrição, anuncia singela retaliação às sobretaxas para o aço e para o alumínio. Os 128 produtos da lista divulgada nesta semana pelo governo chinês equivalem a modestos US$ 3 bilhões em valor exportado da China para os EUA, a maior parte corresponde à venda de produtos agrícolas. Carne suína, macadâmias, gengibre, amêndoas, frutas secas, por aí vai. Cada um desses produtos, a carne suína inclusive, terá aumento das alíquotas tarifárias com impacto relativamente mensurado sobre a inflação na China. Contudo, foram escolhidos a dedo pelos chineses pois podem provocar estragos nada desprezíveis em regiões que votaram maciçamente em Trump.

Sobretaxas na carne suína afetam produtores de Iowa; no gengibre, produtores em distritos específicos de Wisconsin; nas amêndoas e nas frutas secas, produtores de regiões da Califórnia onde Trump ganhou de Hillary em 2016. Por enquanto, a China decidiu não tocar na soja, ou nos aviões da Boeing, dois dos principais produtos que compra dos Estados Unidos. Em 2017, a China comprou mais soja do Brasil do que dos EUA – cerca de 51 milhões de toneladas de produtores brasileiros contra 33 milhões de toneladas de produtores norte-americanos. Brasil e Estados Unidos são os maiores produtores mundiais de soja, a China o principal país consumidor do produto, que lá é usado para preparar óleo de cozinha e ração para animais. A soja brasileira vem ganhando espaço no mercado chinês desde 2012 devido ao maior conteúdo de proteína do que a soja americana. A soja brasileira salvou o PIB em 2017.

Nos EUA, a soja é produzida em Iowa, Nebraska, Indiana, Ohio, Estados onde Trump bateu a candidata democrata com facilidade. Partes e componentes das aeronaves da Boeing são produzidos praticamente em todos os Estados americanos. Em janeiro desse ano, quando Trump anunciou tarifas salgadas sobre painéis solares – a China é o país que mais vende painéis para os EUA – o governo chinês ameaçou sobretaxar a soja e os aviões da Boeing. Por enquanto, ficou só na ameaça. Contudo, logo após o anúncio das sobretaxas no aço e no alumínio, a cruzada trumpista contra a China não parou. O Departamento de Comércio anunciou que irá propor sobretaxas para diversos produtos chineses no valor de US$ 60 bilhões como resultado das investigações recém-concluídas a respeito de práticas comerciais desfavoráveis promovidas pela China. Tais investigações estão previstas da seção 301 do Trade Act de 1974. A lista de produtos, recém-divulgada, inclui armas de fogo, carrinhos de golfe, e aço. Evidentemente, a China não deve resistir à tentação de lançar a munição mais pesada – a soja e os aviões da Boeing – nessa próxima batalha. “Se conhece o inimigo e a si mesmo, não é necessário temer o resultado de cem batalhas.” Claramente, a China conhece bem tanto a si mesma, quanto os instintos e pontos fracos de trumpland em ano de eleições legislativas para lá de complicadas.

Como poderia o Brasil ser afetado pela estratégia olho por olho que ora parece se delinear entre as duas principais economias do mundo, e os dois principais parceiros comerciais do País? De um lado, a incerteza associada ao aumento das tensões entre a China e os EUA começa a estremecer mercados e a tensionar os cenários mais otimistas que caracterizavam as perspectivas para a economia mundial até recentemente. Qualquer descarrilamento da economia mundial repercutiria negativamente sobre a insípida recuperação brasileira. Por outro lado, há produtos como a soja que poderiam se beneficiar enormemente caso a guerra comercial se intensifique nas próximas semanas. Embora o Brasil tenha de manter certa neutralidade suíça em relação à China e aos EUA para o seu próprio bem, sobretudo enquanto negocia isenções permanentes para as sobretaxas de aço, é hora de seguir as recomendações de Sun Tzu: “Aquele que é prudente e espreita um inimigo que não o é será vitorioso”.

Ou seja, é hora de o Brasil explorar setor a setor quais podem vir a perder ou a ganhar com o fogo cruzado, além de traçar a estratégia para o maior engajamento global com outros possíveis parceiros comerciais. O momento é oportuno para abrir a economia. Não vamos desperdiçá-lo.

*ECONOMISTA, PESQUISADORADO PETERSON INSTITUTE FOR INTERNATIONAL ECONOMICS E PROFESSORA DA SAIS/JOHNS HOPKINS UNIVERSITY

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