Christie's Auction House/AFP
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Guy Perelmuter
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A arte do 'copiar e colar'

O estranho mundo dos NFTs, que funcionam como certificados de autenticidade no mundo digital

Guy Perelmuter*, O Estado de S.Paulo

03 de fevereiro de 2022 | 04h00

Em nossa última coluna, falamos do metaverso, um dos termos que juntamente com os non-fungible tokens (NFTs, ou tokens não-fungíveis) e a web3 passaram a dominar a narrativa dos rumos da Internet. O entendimento destes três conceitos é importante para tentar separar o que pode realmente adquirir relevância econômica e estratégica versus aquilo que pode ser apenas uma onda passageira.

A ideia principal dos NFTs — sua incapacidade de se misturarem, ou de serem trocados por um elemento equivalente, tornando-se assim peças únicas — naturalmente estabeleceu o mundo das artes e dos colecionadores como seu principal (embora não único) nicho de aplicação, conforme veremos em breve. Para ilustrar melhor a ideia de fungibilidade, imagine que você tenha algumas moedas de R$1 no bolso. Cada uma dessas moedas é idêntica às outras no que diz respeito à sua forma de utilização e ao seu valor. São, na prática, entidades fungíveis, isto é, que podem ser misturadas ou que podem ser trocadas entre si sem nenhum impacto. NFTs são o oposto disso, e são utilizados em associação com ativos digitais que representam vídeos, imagens ou sons.

Assim como as criptomoedas, os NFTs também utilizam o blockchain, um registro descentralizado, público e compartilhado pelos computadores participantes. Mas ao contrário dos NFTs, as criptomoedas são fungíveis — ou seja, não interessa qual bitcoin você esteja comprando ou vendendo, pois são todos iguais e de mesmo valor. Conforme já discutimos aqui, uma das possibilidades mais interessantes que o uso de blockchains viabiliza é a utilização dos chamados contratos inteligentes, e neste segmento a criptomoeda com maior popularidade é o ethereum, que introduziu seu uso. 

Resumidamente, os smart contracts estabelecem uma série de regras que precisam ser cumpridas para que determinada ação seja executada, exatamente como um contrato tradicional. Estas condições podem ser de diversos tipos: a localização fornecida por um GPS indicando que certa mercadoria foi entregue, o recebimento das assinaturas eletrônicas de todos os envolvidos em uma negociação, o aumento de preço acima de um certo limite para determinado ativo do mercado financeiro ou ainda a confirmação do recebimento de ordens de compra. Desde que um computador seja capaz de interpretar o dado, a execução do contrato irá ocorrer da forma como ele foi programado. 

Foi justamente essa flexibilidade de implementação que permitiu que o primeiro blockchain capaz de suportar NFTs fosse o ethereum — seguido por diversos outros, como bitcoin cash, flow e solana. 

A ideia central de um NFT é funcionar como um certificado de autenticidade de um objeto — e é justamente por isso que muitos acreditam que eles funcionam como a evolução do universo dos colecionadores, da efetiva digitalização de um nicho até então praticamente intocado pela tecnologia. Vale notar que NFTs não são a obra de arte em si, mas apenas uma espécie de contrato que estipula que o detentor do NFT é o proprietário legítimo de determinada obra digital. 

Como NFTs são armazenados no blockchain, eles se beneficiam da segurança e da enorme dificuldade encontrada por pessoas que queiram falsificar ou manipular estes registros: eles podem ser usados como ingressos digitais, títulos de posse, ou registros de vendas. Ao contrário das criptomoedas, NFTs não podem ser trocados entre si (pois, como já vimos, eles não são fungíveis) — algo particularmente importante no mundo das artes. Uma importante distinção: possuir um NFT não equivale a possuir os direitos autorais da obra. 

A arte digital, impulsionada pelos NFTs — ou talvez os NFTs, impulsionados pela arte digital — rendeu manchetes em março de 2021, com o leilão na Christie’s (que está no mercado de artes há mais de 250 anos) de um NFT da obra de Mike “Beeple” Winkelmann por US$ 69 milhões. Alguns acreditam que o custo não se justifica, por se tratar de arte digital, na qual a imagem “original” é absolutamente idêntica a milhares de outras imagens que podem ser geradas por qualquer pessoa que tenha um computador e que saiba fazer uma operação de “copiar e colar”. Para outros, no entanto, trata-se exatamente da mesma situação vivenciada por uma pessoa que possua um quadro pintado por Van Gogh na sua parede e alguém que tenha uma cópia fiel deste mesmo quadro: o valor econômico (em euros, dólares ou em criptomoedas) está claramente no primeiro, e não no segundo.

De forma simplificada, podemos dizer que o metaverso é o “ambiente” onde as transações ocorrem, que o blockchain é responsável pela segurança e integridade dos dados, que as criptomoedas são a "moeda" de compra e venda (podendo ser convertida para moedas tradicionais) e os NFTs certificam a posse e a originalidade de um ativo digital. Agora, chegou a vez de falarmos da web3 — nosso assunto para a próxima coluna. Até lá.

*FUNDADOR DA GRIDS CAPITAL E AUTOR DO LIVRO "FUTURO PRESENTE - O MUNDO MOVIDO À TECNOLOGIA", VENCEDOR DO PRÊMIO JABUTI 2020 NA CATEGORIA CIÊNCIAS. É ENGENHEIRO DE COMPUTAÇÃO E MESTRE EM INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

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