'A avaliação do Brasil no exterior está melhorando'

Para economista, ainda há preocupação com o País, mas notícias recentes começam aanimar investidores

Entrevista com

David Beker, economista-chefe do Bank of America Merrill Lynch

RICARDO LEOPOLDO, O Estado de S.Paulo

26 de março de 2015 | 02h05

A mudança da política macroeconômica, com ênfase no ajuste fiscal de longo prazo, está levando investidores estrangeiros em mercados emergentes a voltar a ver o Brasil como um destino importante para a alocação de seus portfólios, disse David Beker, economista-chefe do Bank of America Merrill Lynch, em entrevista ao Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado.

Beker esteve na semana passada em Londres, Frankfurt e Paris e observou que os gestores de fundos, apesar de verem a economia do País com dúvidas, começam a avaliar que é relevante terem mais ativos do País em suas carteiras, sobretudo com ações e títulos públicos de longo prazo.

Segundo Beker, a decisão da agência de classificação de risco Standar & Poor's (S&P) de manter a nota de crédito e a perspectiva soberana afasta o risco de o País perder o grau de investimento. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Como o sr. analisa a decisão da S&P de manter o rating e a perspectiva do Brasil?

Para o mercado, é um alívio. Havia o risco de o País perder o grau de investimento pela Standard & Poor's. Como a agência não fez nenhuma modificação, o Brasil ganhou tempo, o que pode ser um ano. Acredito que a Moody's e a Fitch manterão a nota soberana e a perspectiva do Brasil neste ano, porque também darão um voto de confiança à nova política macroeconômica.

O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, e o governo terão de superar grandes obstáculos para viabilizar o ajuste fiscal?

Sim. Com a decisão da S&P, o ministro ganhou o primeiro desafio e terá mais condições para continuar negociando com o Congresso uma parte do ajuste fiscal, próximo a 20% dele, a fim de conquistar a meta de 1,2% do PIB de superávit primário para este ano. Mas os desafios são imensos. O esforço fiscal em 2015 é grande e será ainda maior em 2016, pois a meta é de 2% do PIB. Há agora uma questão importante, que é como fica a estratégia de política econômica de médio e longo prazos. O PIB potencial do Brasil é baixo, perto de 2%. E, para aumentá-lo, é fundamental adotar algumas medidas estruturais, entre elas reformas tributária e trabalhista. É relevante também desburocratizar a abertura e o fechamento de empresas. No limite, o objetivo é reduzir o chamado Custo Brasil.

Quando o sr. avalia que o programa de concessões de infraestrutura voltará a acelerar?

Acredito que entre o terceiro e quarto trimestres devemos ter notícias melhores, em áreas como rodovias, terminais de aeroportos, portos e ferrovias. O governo está mais flexível para negociar maiores taxas de rentabilidade e atrair capital, inclusive estrangeiros. O câmbio mais depreciado ajuda.

O governo conseguirá entregar a meta de superávit primário?

Sim, será até um pouco mais, pois estimo um primário de 1,3% do PIB. E, além da colaboração do Congresso com a aprovação das medidas que mudam benefícios sociais e desonerações tributárias, o governo também fará um corte vigoroso do Orçamento, que deverá chegar a R$ 44 bilhões.

O sr. esteve na semana passada em Londres, Frankfurt e Paris. Qual a avaliação de investidores em mercados emergentes sobre o Brasil?

Os investidores ainda estão preocupados. A economia neste ano apresenta inflação alta e queda do PIB. A foto é muito ruim. Mas, ao projetar o filme, vemos mudanças, como o realinhamento das políticas fiscal e monetária. A avaliação do Brasil está melhorando. A decisão da S&P afasta o risco de o País perder o grau de investimento. O ministro Levy conseguiu negociar a nova tabela de correção do Imposto de Renda. O Orçamento foi aprovado pelo Congresso. As notícias nas últimas semanas corroboraram a ideia de que o ajuste fiscal está em curso e investidores estrangeiros pensam em comprar novamente ativos do Brasil. Muitos deles passam a observar os valores e ponderam que estão ficando mais atrativos, principalmente em bolsa de valores.

Os investidores fazem alguma queixa em relação ao Brasil?

Eles falam da volatilidade do câmbio, que gera incertezas. Perguntam o que pode ser feito para que o câmbio apresente sinais de estabilização. Um desses fatores é um cenário menos conturbado na área política. Outro elemento é a perspectiva de redução do déficit de transações correntes. Os próximos dois a três meses serão fundamentais no processo de alocação de capitais pelos investidores estrangeiros para o Brasil. Há o balanço da Petrobrás, que precisa ser publicado até o final de abril, a tramitação das MPs relativas à parte do ajuste fiscal no Congresso, e os resultados das contas públicas, com o anúncio do cortes do Orçamento em breve.

Na próxima semana, o sr. estará reunido com investidores nos EUA, muitos deles dedicados à América Latina. Qual deverá ser a expectativa deles em relação ao Brasil, após decisão da S&P?

Os investidores nos Estados Unidos devem mostrar mais receptividade do que na Europa. Um foco da discussão será o câmbio, que está volátil e causa incertezas. Contudo, conforme as notícias vão aparecendo, os investidores vão avançando a compra de ativos do Brasil. A decisão da Standard & Poor's vai ajudar.

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