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A aventura brasileira de comprar na China

Número de importadores de produtos chineses explode, e empresários criam pequenos impérios de bugigangas

Raquel Landim, O Estadao de S.Paulo

21 de março de 2010 | 00h00

Victor Hekier nasceu em Buenos Aires, mas construiu seu negócio no Brasil, trazendo bugigangas da China. Quando chegou ao País, em 1996, tinha um armazém de 500 m² na Vila Maria, zona Norte de São Paulo, com quatro funcionários. "Nós desembarcávamos o contêiner na rua. Os vizinhos e até a polícia reclamavam", recorda. Hoje, ele é um dos maiores importadores de produtos populares do Brasil. Para armazenar os mais de 3 mil itens diferentes que traz do outro lado do mundo, precisa de 20 mil m² e conta com 50 funcionários. Hekier compra de 200 fornecedores na China.

A Soft Representações e Assessoria, que pertence ao empresário argentino, é uma das companhias que ajudaram a tornar a China o principal parceiro comercial do Brasil. Mais de 16,8 mil empresas compram produtos no gigante asiático. Em 2001, eram 4,4 mil. O comércio com a China explodiu. As importações de produtos chineses saíram de US$ 1,3 bilhão em 2001 para US$ 20 bilhões em 2008. No ano passado, foram US$ 15,9 bilhões.

Os brasileiros tiveram o primeiro contato com os produtos "made in China" na Rua 25 de Março, centro do comércio popular de São Paulo, e nas lojas de R$ 1,99 em todo o País. O conceito veio com os argentinos, que copiaram a "dólar store" americana. Eles trabalhavam com isso na Argentina, que havia adotado antes do Brasil a paridade cambial com o dólar.

Naquela época, os importadores compravam os produtos chineses em um centro atacadista de Los Angeles. Voltada para o Oceano Pacífico, a cidade era uma janela para a China. O sucesso das lojas de R$ 1,99 foi enorme no Brasil. "No início, as pessoas perguntavam: quando acaba a promoção?", conta Hekier.

Demorou um tempo para que os importadores viajassem até a China, um país de idioma incompreensível e pessoas com hábitos muito diferentes. Dois fatores empurraram os empresários: custo e demanda. Em 1999, veio a desvalorização do real e foi preciso buscar direto na fonte. Ao mesmo tempo, o sucesso do mercado popular exigia mais escala.

Na primeira vez que pisou em solo chinês, Aparecido Oliveira se sentiu um surdo-mudo. "Eu não falava nem inglês. E só andava com um chinês, que me ajudava a fazer negócio." Ele passou por todas as fases da importação - dos sacoleiros do Paraguai aos atacadistas de Los Angeles. Hoje, o ex-camelô é dono da importadora Miniprice e viaja para a China quatro vezes por ano.

A China que os pioneiros conheceram no início dos anos 2000 era bem diferente. "Pareciam cidadezinhas do interior. Yiwu era um camelódromo. Nem banheiro tinha", conta Heiker, referindo-se ao maior centro de R$ 1,99 do país asiático. Só uma coisa não mudou: os preços baixos. Um produto chinês chega até 15 vezes mais caro no Brasil e, ainda assim, tira o sono da concorrência. Um prato de louça sai da China por R$ 0,70, mas chega ao consumidor brasileiro a R$ 10.

As importações de produtos chineses se sofisticaram com o tempo. Os importadores brasileiros descobriram ferramentas, tecidos, confecções, sapatos, eletrônicos e até máquinas. Reginaldo Gil, diretor da Regil Representações Têxteis, de Belo Horizonte (MG), começou a importar tecidos da Coreia do Sul em 1999. "A partir de 2001, tudo passou a ser feito na China. Foi como se tivessem virado uma chave", lembra.

Na primeira vez em que foi à China, Gil conta que ficou 45 dias "fuçando", de cidade em cidade, de fábrica em fábrica, comunicando-se em inglês, sem tradutor. Hoje, ele tem seis fornecedores fixos na China, três deles de nacionalidade indiana. "O comércio de tecidos na China está nas mãos dos indianos."

Maratona. Comprar produtos na China está longe de ser uma tarefa fácil. As viagens são maratonas. Em sua última ida ao país asiático, o presidente da Câmara Brasil-China, Tang Wei, visitou sete cidades em 13 dias. Ele recomenda muito cuidado na hora de escolher o fornecedor. "São milhares para cada produto, e muitos não são qualificados."

Outra prática comum na China, que assusta os brasileiros, são as comissões. Francisco Teixeira de Goeye, executivo da Sertrading, conta que um de seus funcionários chineses foi demitido após ter pedido propina a um fornecedor. Goeye é um exemplo do novo profissional que começa a atuar na importação de produtos chineses. Em 2006, mudou-se para Shenzhen, capital da eletrônica na China, para comandar o escritório de uma das tradings mais conhecidas do Brasil.

Para iniciar o negócio, contratou uma funcionária chinesa com experiência no mercado de eletrônicos - ramo que hoje concentra a maior parte das importações vindas da China. "No início, a rede de relações dela foi fundamental."

Aos poucos, Goeye assumiu a operação. Ele ficou dois anos no País e lembra que visitou mais de 200 fábricas só em 2007. "São muitos pequenos e médios fornecedores." Hoje, o executivo se sente à vontade para negociar com os chineses, apesar da diferença cultural. Com suas aulas de mandarim, consegue até resolver alguns pequenos problemas.

A Sertrading hoje importa máquinas pesadas para a construção civil. Goeye voltou ao Brasil em abril do ano passado, mas a trading continua com o escritório no gigante asiático, e ele viaja várias vezes ao ano. Na última vez, foram nove cidades em 12 dias. "Para mim, a China não é longe. Quando chego a Xangai, sei onde vou e tenho amigos para encontrar."

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