A aventura da Wizard na China

ENVIADA ESPECIAL TIANJIN

Cláudia Trevisan, O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2011 | 00h00

Quando tiveram de escolher uma escola de inglês para treinar seus executivos, os diretores da Tianjin Airlines optaram pela brasileira Wizard, que no ano passado decidiu conquistar uma fatia do mercado que reúne a maior população do mundo dedicada ao estudo da língua de Shakespeare. São pelo menos 300 milhões de pessoas - número de habitantes do Estados Unidos - para as quais o inglês é uma ferramenta cada vez mais importante no mercado de trabalho.

Não há brasileiros nem bandeiras verdes e amarelas na sede da Wizard em Tianjin (cidade a 120 km de Pequim) - as que aparecem são as dos Estados Unidos e as da China. Os professores são norte-americanos e a administração do negócio está a cargo dos chineses.

Como o próprio país, o potencial da indústria é gigantesco. Dados citados pelo jornal oficial China Daily indicam que o mercado de ensino privado de inglês deverá movimentar US$ 4,6 bilhões em 2011, o dobro da cifra registrada há dois anos, e a perspectiva é que o atual ritmo de expansão se mantenha nos próximos anos.

A English First é a principal concorrente estrangeira da Wizard e está presente em cerca de 50 cidades, mas o mercado é dominado por grandes nomes locais. A maior escola privada de inglês é a New Oriental, que em 2010 tinha 1,8 milhão de alunos.

"Nós escutamos falar do 1,3 bilhão de habitantes da China, mas só quando começamos a lidar com as pessoas é que percebemos quantas elas são", diz Steven Tam, gerente-geral da Wizard na Ásia, onde a empresa possui 7 franquias no Japão e planeja entrar no mercado de Taiwan.

Na China, a escola brasileira tem uma unidade em Tianjin e assinou no início deste ano seu primeiro contrato de franquia no país, que envolve um projeto de cinco anos para o treinamento dos professores da rede municipal de ensino de Xangai.

As atividades começarão no próximo mês e, no primeiro ano, 2.000 professores farão cursos intensivos de uma semana, diz Tam, que nasceu em Hong Kong e emigrou com a família para os EUA quando tinha 15 anos. Segundo ele, a meta da Wizard é ter 100 unidades na China até 2015, que seriam criadas por contratos de franquias.

Pirataria. Mas antes disso, a empresa terá que aprimorar seu modelo de negócios para operar na China. Jennifer Liang, gerente-geral do grupo em Tianjin, observa que o sistema utilizado no Brasil não pode ser reproduzido sem alterações já que a empresa precisa se proteger de um dos principais problemas da China: a pirataria.

Segundo ela, o ponto forte do método Wizard são os livros didáticos, que formam a base do modelo de franquias no Brasil. Na China, essa vantagem comparativa é ameaçada pelo risco de que os livros sejam copiados e utilizados por um potencial concorrente. "Não é seguro ter os livros como a base das franquias na China. O governo não tem como nos proteger", disse Liang ao Estado. Diante desse cenário, a escola decidiu reduzir o ritmo de concessão de franquias, até que desenhe um modelo que garanta lucratividade no mercado chinês, o que a rede de ensino espera concluir antes do fim do ano.

Entre os elementos da Wizard com "características chinesas" está a criação de um exército de estudantes universitários para atuar como marqueteiros da escola e ganhar comissão por cada novo aluno que conseguirem. O sistema já está em operação, com um grupo de 20 pessoas.

Outra frente é a realização de acordo com jardins de infância para o ensino de inglês dentro das escolas com método e professores da Wizard e a exibição da marca da empresa nesses locais.

O mercado chinês exigiu outras adaptações da empresa brasileira. No país, a Wizard tem o governo como sócio (a participação do Estado nas escolas é obrigatória). "Todo material didático é supervisionado pelo Estado e assuntos como religião, sexo e política são proibidos", diz Carlos Wizard Martins, fundador do grupo Multi, que além da Wizard, é dono de marcas como Yázigi e Microlins. Um exemplo: em uma das lições foi preciso eliminar a frase "In God We Trust", impressa nas notas de dólar.

A operação chinesa também obrigou a Wizard a rever o pagamento de mensalidades. "Lá o aluno paga adiantado - e em dinheiro - todo o tempo que pretende cursar", afirma Martins.

Os pais chineses são obcecados pela performance educacional de seus filhos. O ensino de inglês é obrigatório nas escolas primária e secundária, mas as famílias que podem pagam para os filhos terem aulas particulares.

Há duas semanas, as meninas Ren Xin De, 8, e Liu Mei Cheng, 9, alunas da Wizard, liam "Cinderela" em inglês com a ajuda do professor norte-americano Joseph Hopkin. As duas têm nomes ocidentais - Sofia e Tammy - e conversaram em inglês com a reportagem do Estado na unidade de Tianjin. Na sala ao lado, Alice, 10, tinha aula particular com Zoie Bard. No caso das crianças, o domínio do inglês é importante para a obtenção de vagas nas melhores escolas secundárias. O bom resultado em testes de inglês pode decidir a seleção de um aluno que acaba de concluir o ensino fundamental.

As aulas de inglês também são obrigatórias para os estudantes universitários, que só recebem o diploma depois de serem aprovados em um teste de proficiência, independentemente do curso que tenham realizado./COLABOROU CÁTIA LUZ

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