A bagunça é relativa...

Enquanto o 'Armagedom' não chega, o dinheiro vai ficando por aqui

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

16 Agosto 2017 | 05h00

Diante de um desempenho fiscal tão caótico e de uma perspectiva de descontrole da relação dívida/Produto Interno Bruto (PIB), um indicador tão sensível para os investidores estrangeiros, os preços dos ativos brasileiros estão em níveis muito além do que os fundamentos endossariam.

Seria, portanto, o Brasil o mais vulnerável hoje a uma forte correção na Bolsa, no câmbio e nos prêmios de risco dos juros entre os mercados emergentes?

“Sim, o Brasil é o mais vulnerável hoje a uma forte correção”, diz Simon Quijano-Evans, estrategista de mercados emergentes do fundo Legal & General Investment Management, em Londres.

Para ele, os fundamentos fiscais do Brasil preocupam muito, especialmente porque não há uma perspectiva concreta de aprovação da reforma da Previdência.

Os investidores internacionais estão fechando os olhos para isso em razão, segundo Quijano-Evans, da liquidez nos mercados globais, a sinalização de que as taxas de juros nos Estados Unidos vão seguir baixas por um período prolongado, taxas de juros reais elevadas e ainda atrativas no Brasil e um dólar mais fraco frente às principais moedas mundiais.

“Mas qualquer mudança no cenário externo – quer seja na direção dos juros pagos pelos títulos do Tesouro americano ou no dólar, quer seja numa desaceleração maior do que o esperado para a economia da China – pode deflagrar uma rápida piora para os ativos brasileiros”, argumenta Quijano-Evans.

Outros gestores de fundos de investimentos estrangeiros também concordam com a avaliação sobre a deterioração rápida das contas públicas no Brasil e a perspectiva mais pessimista em relação à trajetória na relação dívida/PIB. A Instituição Fiscal Independente (IFI), ligada ao Senado, estima que a dívida pública bruta vai atingir 76,2% do PIB no fim deste ano e bater em 92,4% em 2023.

Todavia, um gestor de um grande fundo europeu com exposição à dívida pública brasileira observa que, em termos de alocação de recursos das carteiras dos investidores, é preciso fazer uma avaliação relativa entre os diversos países emergentes.

“Seria o Brasil o único país entre os emergentes onde há uma bagunça política ou econômica neste momento?”, indagou esse gestor europeu, que pediu para não ser identificado. “Basta olhar para África do Sul e Turquia, que são normalmente os maiores pares do Brasil nos diversos índices de referência (‘benchmark’) para dívida e ações.”

Na África do Sul, o presidente Jacob Zuma, há tempos encurralado por acusações de corrupção, sobreviveu a mais uma moção de desconfiança no Parlamento na semana passada. A perspectiva de Zuma ser obrigado a renunciar levou a uma valorização da moeda sul-africana, uma vez que sua gestão levou o país à recessão e ao caos político.

Na Turquia, após um polêmico referendo em abril passado, o presidente Recep Tayyip Erdogan conseguiu mudar a constituição para lhe dar mais poderes, distanciando o país da democracia. No mês passado, o ministro das Finanças da Alemanha, Wolfgang Schaeuble, sugeriu que as empresas alemãs que operam na Turquia poderiam aparecer em listas negras como defensoras do terrorismo.

E até na Coreia do Sul, que há anos está no limiar entre mercado emergente e desenvolvido, mergulhou em instabilidade política após o impeachment da presidente Park Geun-hye por acusação de corrupção.

Nesse contexto, se a situação do Brasil assusta os investidores mais cautelosos, qual a opção segura para colocar o dinheiro nos mercados emergentes?

Se for para tirar o dinheiro do Brasil, os investidores vão basear essa decisão no âmbito de uma fuga generalizada dos mercados emergentes. Para isso, é preciso uma virada nas condições globais: aperto monetário maior do que previsto nos Estados Unidos, além de derrapagem mais forte no crescimento econômico da China.

Se um presidente brasileiro corre novamente o risco de perder seu cargo por algum malfeito, qual a novidade para os investidores estrangeiros?

Se o descontrole das contas públicas brasileiras ameaça a trajetória da dívida/PIB, quantas vezes no passado o mercado não passou por isso?

A bagunça econômica e política no Brasil não é uma situação nova para os investidores tampouco há opções no mundo em termos de refúgio contra turbulência sem que se abra mão de qualquer retorno para as aplicações. Enquanto o “Armagedom” não chega, o dinheiro vai ficando por aqui.

* COLUNISTA DO BROADCAST

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