A baixa do dólar e o que esperar daí
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A baixa do dólar e o que esperar daí

Para entender melhor os movimentos das cotações é preciso examinar dois fatores: as causas que antes dessa baixa puxaram as cotações até o topo; e os que agora estão derrubando as cotações

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

07 de maio de 2021 | 19h25

Nesta sexta-feira, a cotação do dólar fechou a R$ 5,2286, uma queda de 9,81% em relação ao pico alcançado em 9 de março e de 10,48% em 12 meses. Mas chegou a ser negociado também na sexta-feira a R$ 5,2048. (Veja gráfico.)

 

Até onde vai essa valorização do real? É a pergunta que se fazem hoje os operadores de negócios com o exterior e qualquer investidor.

Resposta clara e confiável não existe, porque câmbio é um mercado sensível, sujeito a muitas variáveis. Mas para entender melhor os movimentos das cotações é preciso examinar duas coisas: os fatores que antes dessa baixa puxaram as cotações até o topo; e os principais fatores que agora estão derrubando as cotações.

O diagnóstico mais repetido por quem acompanha o mercado de câmbio é o de que a principal razão da alta da moeda estrangeira que levou ao pico em março foram os juros baixos demais no Brasil. Desde julho de 2015, os juros básicos (Selic) vinham numa trajetória de cortes. Ao longo de sete meses até março deste ano, a Selic se manteve nos 2% ao ano, menor nível da história. A baixa remuneração das aplicações em renda fixa teria então levado os investidores a pular para o dólar ou, então, propiciado o fim das arbitragens com juros.

Explicando melhor essa operação de arbitragem: juros altos como os de há alguns anos no Brasil vinham levando investidores a trazer moeda estrangeira de onde os juros eram baixos demais para trocá-los por reais e aplicar o resultado no mercado financeiro do Brasil onde rendiam mais.

Essa operação não foi feita apenas por investidores. Os exportadores, por exemplo, podiam antecipar a entrada de receitas para ganhar no mole um adicional com juros. Quando os juros despencaram por aqui, essa operação de arbitragem deixou de valer a pena. Menos dólares desembarcaram no Brasil e, com isso, pelo efeito oferta e procura, a cotação foi lá para cima.

Há razões para acreditar em que esse efeito pode até ter acontecido, mas não em escala relevante para explicar a alta do câmbio de meses atrás.

A maior procura por dólares aconteceu por aumento das incertezas sobre o comportamento da economia, principalmente depois que ficou clara a escalada do rombo nas contas públicas (déficit fiscal), a expansão excessiva da dívida e as lambanças do governo Bolsonaro no trato à pandemia. Um grande especialista em câmbio, o ex-presidente do Banco Central do Brasil Affonso Celso Pastore é dessa opinião, a de que a alta refletiu o aumento das incertezas.

Mas por que, a partir de março, o câmbio passou a escorregar, se a questão fiscal e a política sanitária continuam no mesmo descalabro?

Certos comentaristas têm afirmado que a baixa do dólar está diretamente ligada à retomada da alta dos juros. Como lá fora continuam em torno de zero por cento ao ano e os daqui já estão a 3,5% ao ano; e como, pelos comunicados do Banco Central, devem seguir até pelo menos 5%, as operações de arbitragem voltaram a ficar interessantes. Mais dólares estão chegando e, nessas condições, pelas explicações desses analistas, as cotações devem continuar escorregando.

Outra vez, isso pode estar acontecendo em alguma proporção, mas ainda não há razão relevante para explicar a valorização do real diante do dólar que se viu a partir de abril. Fator mais importante é a forte valorização das commodities (sojamilho, café, minérios), cujas exportações vêm proporcionando recordes seguidos de superávit comercial no Brasil.

Trata-se, portanto, de forte entrada de moeda estrangeira que, por sua vez, vem obrigando detentores de dólares a trazerem suas reservas para o País para aproveitar as boas cotações antes que caiam mais.

Ninguém sabe onde ficará o novo equilíbrio de mercado, até porque as incertezas continuam todas aí e uma delas começará a tomar corpo a partir do segundo semestre, quando se intensificarão os movimentos políticos destinados a preparar as eleições de 2022.

Mas, se forem confirmados os prognósticos de que o Banco Central deverá puxar a Selic, hoje nos 3,5% ao ano, para 5,50% ao ano neste ano e para 6,25% ao ano em 2022, a brecha entre os juros daqui e de fora deverá crescer e, aí sim, intensificar as operações de arbitragem com juros.

*CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA

 

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