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A batalha dos extremos

De uma forma simplista, parte do mercado joga sua esperança em Bolsonaro

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

26 Setembro 2018 | 04h00

Um eventual segundo turno na eleição presidencial entre os extremos ideológicos representados por Jair Bolsonaro (PSL), à direita, e Fernando Haddad (PT), à esquerda, será um grande risco à aprovação de reformas necessárias para a recuperação da economia brasileira.

Esse alerta não foi feito por apoiadores das candidaturas de centro, ainda distante dos líderes Bolsonaro e Haddad nas mais recentes pesquisas de intenção de voto, mas pelo banco americano JP Morgan em relatório enviado a seus clientes.

“Esses resultados das pesquisas confirmaram nossa visão de que esta eleição será uma batalha dos extremos à esquerda e à direita, o que reduz as chances de que o candidato vencedor adotará reformas favoráveis ao mercado (‘market friendly’)”, escrevem os analistas do banco ao comentarem em relatório as pesquisas Ibope e Datafolha da semana passada.

Os analistas do JP Morgan ressaltam que Haddad tem enviado sinais de uma possível moderação da retórica de esquerda de seu partido para a economia, com o intuito de provavelmente aumentar o seu apoio político num eventual segundo turno.

“Contudo, ainda é preciso ver se os candidatos terão não apenas a disposição de adotar as reformas, mas também conseguirão convencer o mercado da sua capacidade política de fazer isso”, afirmam os analistas do banco americano.

Ou seja, o risco está nos extremos, independentemente de à esquerda ou à direita.

O interessante do alerta feito pelo JP Morgan é que uma grande parcela de investidores e analistas do mercado financeiro brasileiro escolheu apoiar Jair Bolsonaro na esperança de que o candidato do PSL vá adotar as reformas, em especial da Previdência, e de que ele consiga evitar o pior – na visão do mercado –, que seria a vitória do PT e o seu retorno ao poder.

De uma forma simplista, essa parcela do mercado financeiro joga sua esperança em Bolsonaro com base apenas no nome de Paulo Guedes, seu coordenador do programa econômico e especulado futuro superministro de uma gestão bolsonarista. Tido como economista liberal, Guedes é sócio da Bozano Investimentos e PhD pela Universidade de Chicago, além de ter sido um dos fundadores do banco Pactual. Um currículo de encher os olhos de seus pares.

Aos ouvidos dos investidores, as propostas veiculadas por Guedes de reformas, de privatização e de redução imediata do déficit primário brasileiro soaram como música e se tornaram a panaceia para a “ameaça petista”.

Mas a visão de alguns analistas no exterior, além daquela do JP Morgan, embute um ceticismo crescente quanto à “batalha dos extremos” no segundo turno, envolvendo à esquerda e à direita, em termos do impacto negativo para o avanço de uma agenda econômica reformista diante da agressiva polarização na eleição presidencial brasileira.

“A chance de reformas serem aprovadas decai à medida que a eleição tem mais pancada de um lado para o outro”, diz um renomado economista de uma grande instituição financeira em Nova York. “A unificação pós-eleição será muito difícil, com a polarização crescendo acima daquela vista em 2014, já que agora não é PT versus PSDB e sim com versões mais extremas entre PT e Bolsonaro.”

Para o economista acima, pode haver “muita fratura exposta” durante a campanha eleitoral que poderá dificultar um acerto depois. Todavia, no pós-eleição, independentemente de quem seja o vencedor, o posicionamento em votações do Congresso do Centrão – um grupo de partidos cujo apoio pouco tem a ver com visão ideológica ou programática – e também de grandes partidos, como o PSDB e o MDB, seguirá sendo decisivo.

Já um experiente economista paulista diz acreditar que o discurso daqui em diante desses dois extremos, já mirando o segundo turno, é rumo ao centro, por razões óbvias, afinal, por serem extremos, o que lhes falta para ganhar é exatamente o voto centrista.

“A questão é se tal convergência será um movimento baseado em convicção ou meramente fruto da conveniência eleitoral”, observa ele.

E deveria estar o investidor mais cauteloso em relação às perspectivas para o Brasil em 2019 (crescimento do PIB, por exemplo) caso haja a vitória de um candidato dos extremos, à esquerda ou à direita?

“Definitivamente”, diz o economista paulista. “A chance de ficarmos aquém do ajuste necessário é muito grande, o que vai manter a percepção de risco em alta, gerar potencialmente novo choque negativo de expectativas e, consequentemente, pouca tração econômica.”

*COLUNISTA DO BROADCAST

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