A batalha pela supremacia digital

Hegemonia tecnológica dominada pelos EUA está sob ameaça chinesa e Trump pode impor tarifas mais altas à China por roubo de propriedade intelectual

The Economist, The Economist

18 Março 2018 | 05h00

“Projetado pela Apple na Califórnia. Montado na China.” Na última década, a frase gravada atrás dos iPhones servia de versão abreviada do intercâmbio tecnológico entre as duas maiores economias do mundo. Os EUA forneciam o cérebro e a China, os braços.

Não é mais assim. Hoje as companhias chinesas de nível mundial Alibaba e Tencent têm valor de mercado em torno de US$ 500 bilhões, rivalizando com Facebook. A China tem o maior mercado de pagamentos online. Seus equipamentos são exportados para o mundo inteiro. O país possui o supercomputador mais rápido do globo. E ainda está construindo o mais suntuoso centro de pesquisas de computação quântica. Seu futuro sistema de navegação por satélite competirá com o GPS americano em 2020.

Os EUA estão inquietos. Está em curso uma investigação que deve concluir que o roubo de propriedade intelectual pela China custou US$ 1 trilhão às empresas americanas, e tarifas mais altas podem ser decretadas. No início do ano, o Congresso aprovou projeto de lei determinando que o governo não mais realize negócios com duas empresas de telecomunicações chinesas, Huawei e ZTE. Eric Schmidt, ex-chairman da Alphabet, matriz do Google, alertou que em 2025 a China ultrapassará os EUA no campo da inteligência artificial.

Esta semana, o presidente Donald Trump abruptamente bloqueou uma oferta hostil da Qualcomm, fabricante de chips americana, pela Broadcom, sua rival com sede em Cingapura, citando preocupações de segurança nacional com possível liderança chinesa no campo da tecnologia sem fio de 5.ª Geração (5G). 

A placa-mãe de todas as guerras. É muito natural no caso de um país do tamanho de um continente, cuja economia cresce velozmente e com uma cultura de investigação científica, desfrutar de um renascimento tecnológico. A China já é um dos maiores centros de cientistas envolvidos com a inteligência artificial (IA). Tem mais de 800 milhões de usuários de internet, mais do que qualquer outro país. Se os EUA pretendem frear a China apenas para preservar seu lugar na hierarquia, digamos, fragmentando ainda mais a internet, isso só levará a um mundo mais pobre e possivelmente mais propício a guerras.

Uma coisa é um país dominar a área de TVs e brinquedos e outra as tecnologias de informação que constituem a base da manufatura e do poder destrutivo de sistemas de armamentos avançados. De modo geral, essas tecnologias estão sujeitas aos efeitos extremos das redes onde um vencedor estabelece uma posição inexpugnável em cada mercado. 

O problema é como responder. A parte mais importante da resposta é relembrar as razões do sucesso dos EUA nos anos 50 e 60. Programas de governo com o fim de ultrapassar a União Soviética no campo espacial e de armamentos estimularam investimentos na educação, na pesquisa, na engenharia e num amplo conjunto de tecnologias que resultou num Vale do Silício imbuído de um espírito de investigação sem entraves. E tudo isso foi auxiliado ainda mais por um sistema de imigração que acolheu mentes promissoras de todos os cantos do planeta. Sessenta anos depois do Sputnik, e os EUA necessitam dessa mesma combinação de investimento público e empreendimento privado na busca de um projeto nacional.

A outra parte da resposta é modernizar as salvaguardas de segurança nacional frente à realidade das potenciais ameaças digitais da China. As atribuições do Committee on Foreign Investment, entidade encarregada de analisar acordos que afetam a segurança nacional, deveriam ser expandidas de modo que investimentos em IA possam ser analisados, como também aquisições nesse campo. As preocupações com um fornecedor de componentes considerados cruciais não têm de resultar necessariamente em proibições. 

Trump, por seu lado, decepciona sob todos os aspectos. A decisão sobre a Broadcom sugere que uma suspeita válida da tecnologia chinesa vem encobrindo um protecionismo. A Broadcom nem é chinesa. A justificativa para bloquear o acordo foi de que provavelmente ela investirá menos em Pesquisa & Desenvolvimento do que a Qualcomm, o que permitiria à China liderar na definição de normas.

O enfoque de Trump é definido apenas pelo que ele pode fazer para reprimir a China, não pelo que pode levar a cabo para melhorar as perspectivas americanas. Os EUA estão certos em se preocupar com a tecnologia chinesa. Mas dar as costas para tudo que tornou esse país grande não é a resposta. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

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