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À beira do precipício

O juízo final parece próximo, mas tudo ainda pode acontecer nesta crise da Grécia

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2015 | 21h00

O juízo final parece próximo, mas tudo ainda pode acontecer nesta crise da Grécia.

A decisão do primeiro-ministro Alexis Tsipras de convocar um plebiscito para decidir entre a aceitação (sim) ou a rejeição (não) do plano dos credores com sua dose de socorro não é um tudo ou nada. É mais um recurso que empurra a negociação ao paroxismo, mas não determina ainda o destino final do país e o tamanho da crise do euro.

Se a decisão do referendo for pela rejeição do atual programa, os credores ainda poderão apresentar um novo, com algumas concessões. Se for pela aceitação das exigências, ainda assim, as condições poderão ser mais bem delineadas.

O que não se pode dizer é que o plano atual, que os gregos insistem em apontar como uma condenação à morte por asfixia, seja uma imposição da Alemanha e dos seus implacáveis prussianos viciados em ortodoxia. Todos os governos da área do euro estão do mesmo lado, menos a Grécia.

A convocação do plebiscito não pode ser vista apenas como estratagema destinado a compartilhar uma opção difícil entre o governo de Atenas com todo o povo grego. Ela é isso, mas é mais do que isso. É jogada de altíssimo risco do atual governo Tsipras.

Se a escolha for rejeitar o plano dos credores, fica difícil de evitar o calote. O calote, por sua vez, pode inviabilizar definitivamente a permanência da Grécia na área do euro. Com isso, seu governo ganharia o tempo que quisesse para a renegociação da dívida e poderia determinar se e quando honraria os desembolsos contratuais. Mas a Grécia se transformaria em pária do sistema financeiro global, pior que a Argentina, porque esta ainda é grande produtora de commodities.

A Grécia tem pouco a oferecer. A nova moeda (dracma) viria com uma desvalorização em relação ao euro próxima dos 50% e isso implicaria desvalorização de todos os ativos gregos: imóveis, depósitos bancári’os, aplicações financeiras, salários, aposentadorias. Seriam inevitáveis tanto o controle do fluxo de capitais para dentro e para fora do país quanto novas restrições a retiradas nos bancos (corralito). Difícil de imaginar que, numa situação de caos como essa, o atual governo consiga sobreviver.

Se o resultado do referendo for pela aceitação do plano dos credores, também seria inevitável uma temporada de enormes sacrifícios. Nessa hipótese, também parece difícil de garantir a continuidade do atual governo, não só porque teria de administrar a dureza já prevista, mas também porque, nesse caso, teria de agir contra seu próprio discurso.

Nesta terça-feira, vence mais uma parcela de 1,55 bilhão de euros da dívida da Grécia com o Fundo Monetário Internacional (FMI). A decisão a ser tomada pode ser vista como prenúncio do que virá. Se o pagamento não for realizado, a radicalização seguirá seu curso. Caso seja feito, ficará entendido que as negociações podem voltar a ser retomadas.

Tão angustiante quanto a visão do precipício é a falta de tempo para a realização do plebiscito. Não há na história recente exemplo de prazo tão curto para discussão, avaliação e realização de uma consulta popular sobre questão tão complicada e tão vital.

CONFIRA:

O fator Grécia

O aumento da probabilidade tanto do calote da Grécia quanto de sua saída da área do euro mais a falta de clareza dos desdobramentos da crise empurraram o mercado financeiro internacional para a defensiva e para a aversão ao risco. As bolsas, o euro e as commodities mergulharam (veja o gráfico acima). O risco maior é o de contágio; é de que bancos importantes quebrem. O empenho do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, de que os chefes de Estado da área do euro aliviem o peso da dívida da Grécia levou em conta o perigo de novo mergulho na crise global.

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