A 'Betty, a Feia' das companhias aéreas

Durante décadas líder do setor nos EUA, American Airlines cai para 3ª posição

Jad Mouawad, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2010 | 00h00

NEW YORK TIMES

Durante décadas líder da indústria aérea, a American Airlines parece estar sem saída. Primeiro, a fusão entre a Delta Air Lines e a Northwest Airlines, dois anos atrás, derrubou a American para o segundo lugar. Agora, a proposta de fusão entre United e Continental deve empurrar a companhia para a terceira posição.

A situação deixa a American com alguns dos custos mais altos da indústria, além de um relacionamento ruim com seus funcionários e uma rede de rotas reduzida. Alguns analistas acreditam que restam poucas opções à empresa além de uma fusão com a US Airways, que foi deixada de lado quando a United decidiu procurar a Continental. Outros enxergam a American como a "Betty, a Feia" da indústria, uma companhia aérea passando por dificuldades na busca de uma parceira adequada.

"A American está acostumada a viajar muito à frente das demais, mas agora dois concorrentes muito bem capitalizados, com redes muito mais extensas, a ultrapassaram subitamente", diz o analista de indústria aérea da firma Stifel Nicolaus, Hunter K. Keay. "A grande pergunta é se não teria chegado a hora de a American acelerar."

Medidas precipitadas. Os executivos da companhia afirmam que não se deixarão pressionar, evitando medidas precipitadas, e nem seguirão cegamente a tendência das fusões, atualmente dominante na indústria. Em vez disso, eles argumentam que as proporções comparativamente reduzidas da empresa vão conferir a ela uma maior agilidade. "Não pretendemos conceder nada a ninguém, mas estamos tentando construir algo que, de acordo com o que acreditamos, será lucrativo", afirma o presidente e diretor-executivo da empresa, Gerard J. Arpey.

Em vez de tentar concorrer com todos em toda parte, a American tenta se concentrar em cinco das principais cidades dos Estados Unidos - Dallas, Chicago, Los Angeles, Miami e Nova York. O raciocínio é o de que é mais importante marcar presença nas grandes cidades que respondem por uma fatia significativa das viagens aéreas no país do que diluir excessivamente os esforços da empresa.

No exterior, a American aposta em sua aliança internacional, a Oneworld, para expandir o alcance na Europa e na Ásia, em decorrência das parcerias com British Airways e Japan Airlines. Espera, ainda, reproduzir a estratégia de foco nas principais cidades americanas concentrando-se em um punhado de grandes hubs mundiais - entre eles Hong Kong, Londres e Tóquio. "Nossa estratégia não é movida pela posição no ranking, e sim pela certeza de que dispomos de uma rede e de um grupo de parceiros mundiais que farão da American uma concorrente igualmente forte - ainda que não seja igualmente grande", diz Arpey.

Mais de 40 países. Apesar da situação atual, a American ainda é uma grande empresa aérea, qualquer que seja o critério de avaliação adotado. A companhia transporta em média 220 mil pessoas todos os dias, conta com 78 mil funcionários e, em conjunto com a parceira regional American Eagle, opera cerca de 3.400 voos diários para 250 cidades em 40 países.

Na última reunião de acionistas, a American disse esperar que a aliança Oneworld represente um montante de US$ 500 milhões. A empresa também tem um histórico impressionante, sendo a pioneira nos voos costa-a-costa nos anos 50, inaugurando as reservas eletrônicas na década de 60 e oferecendo o primeiro programa de fidelização e acúmulo de milhas nos anos 80.

Mas a última década foi brutal para a American e para o restante da indústria. As empresas aéreas sofreram com os ataques terroristas, as pandemias globais e as recessões que afastaram as pessoas das viagens de avião. O preço do petróleo subiu muito. Para cada dólar acrescido ao preço do barril de petróleo, o gasto anual da American com combustível aumentou US$ 70 milhões. Enquanto isso, o preço das passagens foi mantido sob controle por causa da pressão exercida pelos concorrentes de custos mais baixos. Como resultado, a American só obteve lucro em três dos últimos dez anos. Ao longo deste período, a empresa acumulou perdas da ordem de US$ 10 bilhões.

Críticos em Wall Street e entre os sindicatos da empresa dizem duvidar da capacidade da companhia de reverter seu destino. Eles dizem que a administração da American é tímida demais e não se dispõe a cortar rotas pouco lucrativas, mostrando também incapacidade para controlar os custos da empresa, que figuram entre os mais altos da indústria. O acordo United-Continental é o mais recente golpe nesta série de infortúnios.

Lloyd Hill, presidente do sindicato de pilotos da American, a Associação de Pilotos Aliados, afirma que a empresa sofria de um "vácuo de liderança".

/ TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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