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Tiago Queiroz/Estadão
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Laura Karpuska
Economista
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A boa parceria entre público e privado avança mais quando há uma noção de coletivo

Imaginem se o mundo dependesse de algum autocrata negacionista para iniciar pesquisas e testes para o desenvolvimento de uma vacina

Laura Karpuska, O Estado de S.Paulo

16 de julho de 2021 | 04h00

Esta semana, eu tomei a primeira dose da vacina contra a covid-19. Fui ao posto da Faculdade de Medicina da USP, na Dr. Arnaldo, em São Paulo. A experiência foi um suco de Brasil. O prédio contava com tintura branca descamando, revelando que as paredes já foram verdes. O cadastro foi feito numa sala que contava até com aparelho de som anos 90, um filtro de água quebrado, uma estrutura de lanchonete aproveitada para guardar materiais de vacinação, teias de aranha em um teto parcialmente desfeito e um mouse que não funcionava direito e, por isso, atrasava o trabalho da enfermeira no cadastro das pessoas que seriam imunizadas. 

Tudo isso quase passava despercebido diante de tanta animação das servidoras. Lá, enfermeiras sorridentes e cansadas mostravam fotos dos filhos, das roupas que costuravam para seus cachorros nas horas vagas e contavam histórias de vacinação. Entretinham a si mesmas e aos futuros imunizados, que aguardavam ansiosos na fila. 

Durante meu cadastro, uma jovem mulher se aproximou e perguntou às enfermeiras qual vacina estavam “servindo hoje”. Quando responderam qual era o prato do dia, a jovem puxou o papel que tinha entregado à enfermeira e foi embora, deixando seu rastro de violência pelo caminho. As enfermeiras, bem-humoradas, riram, contando mais “causos” de sommeliers de vacina que chegam todos os dias. Primeiro, alguns não queria tomar “a vacina da China”, depois não queriam a “vacina que grávida não pode” e agora, contam as enfermeiras, querem a vacina da dose única. 

Diante de tudo isso, foi impossível não pensar em duas coisas que caminham lado a lado na história do mundo na pandemia. A primeira diz respeito à importância da complementaridade entre o público e o privado (ou decisões centralizadas e descentralizadas). A segunda é relacionada ao comportamento das pessoas, como cidadãos dentro de um coletivo. 

Imaginem se o mundo dependesse da vontade de algum autocrata negacionista para iniciar pesquisas e testes para o desenvolvimento de uma vacina. Provavelmente, não teríamos uma. Vale lembrar do show de negacionismo que presenciamos ao longo do último ano e até durante a CPI. Osmar Terra, deputado federal e suposto líder do “gabinete paralelo” formado durante a pandemia, insiste erroneamente que o vírus é um melhor imunizante do que a vacina, pois “vírus vivo provoca mais anticorpos que o vírus morto”. 

Já havia feito meu cadastro e esperava minha vacina ser colocada dentro da seringa. Pensava no esforço e dedicação que foram colocadas, ao longo de 2020, por tantos cientistas para desenvolverem aquela vacina que ia ser injetada no meu braço. Pensei na Dame Sarah Gilbert, professora da Universidade de Oxford e especialista em virologia, que liderou o time que desenvolveu a vacina AstraZeneca, sendo ovacionada em Wimbledon. Ela ficou como um símbolo, para mim, de tantas pessoas desconhecidas que, inseridas em um ambiente saudável de pesquisa, estão ajudando a salvar milhões de vidas. Pesquisa, testes, fabricação. Tudo isso em tempo recorde e que só foi possível pela atuação do setor privado e de centros de pesquisa independentes na criação de tecnologia que nos faz viver mais, viver melhor e nos livra de pragas, literalmente. A descentralização na tomada de decisões de pesquisa se mostrou fundamental para que tivéssemos uma oferta rápida e variada de imunizantes. 

Mas tomar a vacina ali, na faculdade de Medicina da universidade onde estudei Economia, também me fez pensar na importância do bom serviço público e do dever dos governos em, potencialmente, coordenar, suavizar transações e financiar pesquisa. A pandemia escancarou como uma boa gestão é importante. Os governos dividiram risco com as empresas que desenvolveram as vacinas: muitos pagaram antecipamente para fomentar o desenvolvimento da vacina. Governos, que não possuíam estrutura e penetração para poder vacinar a população, mostraram com que rapidez isso pode ser construído, como no caso dos EUA e de Israel

Chego agora ao segundo ponto, o sentimento de coletivo. É um argumento mais abstrato. Parece-me que a boa parceria entre o público e o privado é mais facilmente estimulada em ambientes onde as pessoas têm uma boa noção de coletivo. O pensar no outro, ou o respeitar o outro, é respeitar também que a ciência avance mesmo que você não entenda exatamente o que está sendo feito, já que você não é um especialista. É respeitar a enfermeira que aplica a vacina no seu braço. É confiar que a terra não é plana e que as vacinas foram devidamente testadas, porque os especialistas trabalharam duro para isso. A terra é um elipsoide, as vacinas funcionam e a ciência avança. 

*É ECONOMISTA

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