A boiada, o gás metano e o clima
Imagem Celso Ming
Colunista
Celso Ming
Conteúdo Exclusivo para Assinante

A boiada, o gás metano e o clima

O Brasil assumiu compromisso na COP-26 de diminuir em 30% até 2030 as emissões de metano na atmosfera; Agropecuária será um dos setores mais desafiados para cumprimento do acordo

Celso Ming*, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2021 | 08h00

Não deixa de ser grande ironia. O mesmo governo que há alguns meses recomendava que fosse aproveitada a confusão da pandemia para "passar a boiada" agora se compromete na Cúpula do Clima da ONU (COP-26), com mais de cem países, a reduzir em até 30%, até 2030, a emissão de gás metano.

 O metano é tão nocivo quanto o gás carbônico. Pode ser emitido em aterros sanitários e lixões (onde pode ser queimado e aproveitado para produção de energia elétrica), nos vazamentos nas infraestruturas de petróleo gás natural, as chamadas "emissões fugitivas", por fermentação entérica, o "arroto do boi", no manejo de dejetos animais e pela queima de combustíveis fósseis para produção de energia.

Em 2020, o Brasil gerou 20,2 milhões de toneladas de metano, ou 26% do que foi lançado na atmosfera. O País é um dos cinco maiores emissores de metano no mundo, atrás somente de China, Rússia e Índia, que estão fora do acordo, e dos Estados Unidos, um dos líderes da iniciativa.

Como apontam as estatísticas do Sistema de Estimativa de Emissões de Gases do Efeito Estufa (SEEG), ligado ao Observatório do Clima, a agropecuária brasileira foi responsável por 71,9% dessas emissões, ou por 14,5 milhões de toneladas. Outros 15,6% das emissões foram de resíduos e 8,6% de mudança de uso da terra. 

 

Dependendo ainda de quanto será observado por aqui, o acordo terá forte impacto sobre a pecuária brasileira. O rebanho bovino foi de 218 milhões de cabeças em 2020, uma para cada brasileiro. O chefe-geral da Embrapa Pecuária Sudeste, Alexandre Berndt, garante que o setor tem condições de reduzir as emissões sem recorrer a novas tecnologias. Bastará a aplicação das já conhecidas, por meio do melhoramento genético, nutrição animal e manejo de pastagem, mas desde que sejam aplicadas em grande escala.

Essas técnicas reduzem o tempo de abate dos animais que, ainda hoje, permanecem até quatro anos a fermentar na pastagem. A queda das emissões de metano também se obtém com o controle da dieta por meio de aditivos alimentares, alguns deles já estudados pela Embrapa. Esses recursos têm lá seus custos, que, no entanto, tendem a ser compensados pela melhora da qualidade da carne e do leite e maior faturamento nas vendas.

Berndt ainda observa que é possível capturar carbono da atmosfera pela adoção de sistemas que integram produção de grãos, carnes e madeira simultaneamente no mesmo local. “Essa estratégia, conhecida como integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF), é mais resiliente às mudanças climáticas e quando essas árvores crescem conseguem capturar carbono nos seus troncos e raízes, o que compensa completamente todas as emissões dos animais produzidos naquela área. Esse é o conceito de carne de carbono neutro”, explica.

Essa transição não se faz espontaneamente. Será preciso conscientização. Quem pode e deve fazer isso? Claro, é tarefa do Ministério da Agricultura e dos incentivos que deverão ser criados, como pede Muni Lourenço, vice-presidente da Confederação Nacional da Agricultura (CNA) e chefe da delegação da CNA na COP-26. Mas, até por interesse próprio, cooperativas, empresas de laticínios, frigoríficos e grandes exportadores devem se apresentar para o jogo. Esse esforço pode ajudar a atrair o apoio financeiro dos países avançados agora mais empenhados em atacar o efeito estufa.

“Esperamos que esse esforço adicional do Brasil com o acordo possa vir a facilitar o apoio financeiro dos países desenvolvidos para que o País consiga dar celeridade ao aumento de eficiência da agropecuária e colocar o setor em linha com os padrões de sustentabilidade", afirma.

Nas outras duas frentes(resíduos e uso da terra), o coordenador técnico do Observatório do Clima, Tasso Azevedo, explica que o País consegue reduzir as emissões acabando com o desmatamento e fortalecendo a Política Nacional de Resíduos Sólidos, que visa à melhor gestão e destinação dos resíduos em aterros sanitários e estações de tratamento.

Nessas instalações é possível queimar o metano para gerar energia elétrica, solucionando o problema das emissões do gás na atmosfera e criando mais ecossistema de fontes de energia limpa, pois a queima de matéria orgânica captura carbono. /COM PABLO SANTANA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.