A bonança de agora
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A bonança de agora

Há alguns trilhões de dólares zanzando pelos mercados à procura de oportunidades, mas o Brasil não tem aproveitado

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2016 | 21h00

São recorrentes as queixas de que o governo do PT não tirou proveito dos tempos de bonança, especialmente a dos altos preços das commodities que prevaleceram de 2005 até 2013, para arrumar de uma vez a economia. Em vez disso, em vez de aproveitar os ventos a favor, descuidou das reformas, do ajuste fiscal, descuidou da definição de regras confiáveis para projetos de desenvolvimento. Enfim, é dessas oportunidades históricas perdidas, digamos, para sempre.

Em vez de semear e colher riquezas, os governos do PT deixaram rolar a corrupção e o assalto à Petrobrás, às empresas do sistema Eletrobrás. A indústria foi submetida a grave esvaziamento. Em vez de proporcionar benefícios duradouros para resgate da pobreza, como educação, treinamento profissional, saúde básica e transporte público, preferiram patrocinar vendas de veículos e de TVs de tela plana... Tudo isso é verdade, mas seguir repetindo essas coisas e nada mais acrescentar deixa a impressão de que os bons tempos acabaram para sempre e de que só resta vida dura e a espera interminável, até que a história complete seu giro e novas oportunidades voltem a acontecer.

Mas não é assim. Os preços das commodities mergulharam, o petróleo extraído do pré-sal chega agora por metade dos preços que prevaleceram há apenas dois anos e está difícil a recuperação da indústria. No entanto, há hoje outros campos de fartura e de bonança que não estão sendo aproveitados.

Há alguns trilhões de dólares zanzando pelos mercados à procura de oportunidades e o Brasil seria importante candidato a recebê-los. E, no entanto, não os vem aproveitando porque a área de concessões de serviços públicos e de projetos de investimento em infraestrutura é uma bagunça.

A maior parte dos leilões de concessão apresentou projetos toscos, com índices de retorno irreais e com estruturas de custos cujo único objetivo parece ter sido abrir espaço para rombos orçamentários, desvio de recursos e criação de fatos consumados destinados a desembocar na suplementação de novas verbas e de novos desvios.

As agências reguladoras, das quais se esperava condução firme dos processos, regras claras de jogo e previsibilidade, foram esvaziadas para que passassem a operar como instrumentos de aparelhamento do Estado por corruptos de todas as escalas.

Muita gente pensa, equivocadamente, que as restrições ideológicas do PT e das esquerdas infantis à privatização e ao aumento das concessões públicas baseavam-se em princípios respeitáveis. Mas, depois de tudo o que já se sabe, ficou claro que fizeram parte do mesmo aparato destinado a garantir a apropriação de recursos públicos, o alastramento da cultura patrimonialista e a perpetuação do poder.

Enfim, volumes nunca vistos de recursos estão à disposição para formação de parcerias com os governos (e não apenas com o federal) à espera de regras confiáveis de jogo e de projetos bem formulados de desenvolvimento.

Para tirar proveito deles é preciso colocar a casa em ordem e ter clareza sobre o que o Brasil realmente quer: se quer crescimento econômico, aumento de renda e emprego para mais gente; ou se quer deixar tudo como está, mais para retrocesso do que para progresso.

 CONFIRA:

No gráfico a evolução da cotação do dólar no câmbio interno.

Deslizando...

A queda acumulada do dólar em reais em 2016 (até esta sexta-feira) foi  de 19,96%. Nos cinco primeiros dias úteis de agosto, o dólar ficou 2,24% mais barato. A tendência é de que a queda continuará se a presidente Dilma for definitivamente afastada com a aprovação do impeachment pelo Senado. A última Pesquisa Focus apontou projeção de R$ 3,30 para a cotação do dólar ao final de 2016. É um preço 4% mais alto do que o do fechamento da última sexta-feira.

 

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