A bonança do emprego deve ficar para trás

ANÁLISE: Rodrigo Leandro de Moura

O Estado de S.Paulo

30 de janeiro de 2015 | 02h07

O mercado de trabalho brasileiro em 2014 apresentou o menor nível histórico da taxa de desemprego para as principais regiões metropolitanas desde o início da série. No entanto, esse resultado não é motivo de comemorações quando o analisamos mais de perto. A redução da taxa de desemprego em 2014 em relação a 2013 se deveu exclusivamente à redução da População Economicamente Ativa (PEA) e não à geração de novos postos de trabalho - inclusive houve retração da população ocupada. Essa retração da PEA se deve principalmente a fatores estruturais, como o menor crescimento populacional e jovens alongando o ciclo de estudos ou ficando "ociosos".

Para o ano de 2015, nossa previsão para a taxa de desemprego é de 5,6%, visto que o fraco desempenho da economia deve permanecer neste ano, o que deve aprofundar as demissões e, consequentemente, elevar o desemprego. O passo seguinte será uma menor pressão sobre os salários. Com a piora da renda das famílias, aqueles membros que não estavam participando do mercado de trabalho - como os jovens acima mencionados - voltam a procurar emprego, elevando a PEA e, consequentemente, levando a um novo aumento do desemprego.

A resolução do imbróglio entre governo e sindicatos acerca da mudança nas regras que retardam o acesso ao seguro desemprego - o que afetaria principalmente os mais jovens que são a maioria entre aqueles que solicitam pela primeira e segunda vez o benefício - pode ser um fator adicional de pressão sobre a PEA. Caso as alterações sejam validadas, uma boa parcela dos demitidos ficaria inelegível ao benefício e, portanto, isso os estimularia a buscarem emprego mais rapidamente, gerando também desemprego.

De qualquer maneira, o efeito da estagnação econômica, aliado aos ajustes necessários a serem feitos pelo governo para tentar conter a inflação e "arrumar" as contas públicas, será a deterioração do emprego em 2015, derrubando, assim, o último pilar do modelo econômico adotado nos últimos anos.

*Rodrigo Leandro de Moura é pesquisador da área de mercado de trabalho do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV)

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