'A briga agora é pelas companhias aéreas'

Economista prevê uma disputa acirrada entre aeroportos privatizados para garantir movimento para os terminais

Entrevista com

IRANY TEREZA, ANTONIO PITA / RIO, O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2013 | 02h14

Com a privatização do Galeão e de Confins, as operadoras de aeroportos vão iniciar no País, a partir da segunda metade do ano que vem, uma disputa acirrada para atrair companhias aéreas. Devem disputar empresas oferecendo vantagens para concentrar voos e elevar a movimentação em seus terminais. "A briga agora não é por passageiro, mas pela companhia aérea", diz o economista Armando Castelar, coordenador da Área de Economia Aplicada do Ibre/FGV.

Em entrevista ao Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado, Castelar disse que o papel mais importante caberá à agência reguladora. "Se deixar tudo solto, a qualidade do serviço não vai ser boa", disse ele, comentando que a oferta do consórcio vencedor do Galeão, liderado pela Odebrecht, sofreu a "maldição do vencedor". "Se tivessem oferecido R$ 3 bilhões a menos, teriam levado, de qualquer jeito."

A seguir, os principais trechos da entrevista:

A diferença entre as ofertas pelo Galeão surpreendeu?

Há uma coisa em economia que se chama de maldição do vencedor. Ocorreu neste caso, em que o consórcio vencedor pagou muito mais do que o segundo lugar. Se tivessem oferecido R$ 3 bilhões a menos, teriam levado do mesmo jeito. Isso já aconteceu algumas vezes. Por exemplo, quando o Santander comprou o Banespa. Obviamente não precisavam ter gasto tanto dinheiro para levar, mas esse é um resultado recorrente em economia. E o governo fez desse jeito para ter mais resultado. A oferta, obviamente, influi na rentabilidade. Mas esse é um problema para o consórcio vencedor. Eles conhecem o negócio e devem ter feito o mínimo dever de casa.

Pela disputa, podemos considerar o Galeão um negócio melhor do que Guarulhos?

A grande vantagem do Galeão é que ele opera com dois terços da capacidade, enquanto Guarulhos, pelo menos antes da privatização, operava 30% acima de sua capacidade. Lá, os administradores terão de investir muito antes de querer aumentar o fluxo de uma maneira que atenda os indicadores de qualidade. No Galeão, não: já podem imediatamente tentar atrair voos de outros lugares e usar a capacidade ociosa. Esse é o principal atrativo. A utilização ideal de um aeroporto, na média do ano, é 80%, e Guarulhos estava com 130%.

Para os consumidores, o que pode representar a entrada no Galeão de operadores de Cingapura, que tem o melhor aeroporto do mundo?

O potencial é muito bom. Acredito que a competição vai surgir entre aeroportos. Para viabilizar esse investimento todo será necessário "roubar" passageiros e voos de outros aeroportos. Do ponto de vista do consumidor, isso é muito positivo. Significa maior disponibilidade e oferta de voos. Temos grupos diferentes em Viracopos, Guarulhos, Galeão, Brasília, Confins. Temos grandes grupos com potencial de investimento que, para rentabilizar o negócio, dependem de dar atratividade, principalmente às companhias, que na verdade é por quem eles vão competir. Agora, para o consumidor ter um bom serviço, vai depender muito da agência reguladora, porque a briga (do operador) não é pelo passageiro, é pela companhia aérea. A tendência, se deixar tudo solto, é a qualidade do serviço não ser boa.

O retorno para o usuário vem em que prazo?

Demora um pouco, porque a passagem da operação do aeroporto da Infraero para o novo operador demora uns seis meses. Tem todo um processo de transição, como ocorreu nos outros aeroportos. No início ainda vai ser pior para o passageiro, devido ao período de obras. Acho que melhora para o passageiro a partir de 2015.

Como Confins pode desafogar São Paulo e Rio?

A lógica agora é que o concessionário quer o máximo de gente passando pelo aeroporto. Houve uma mudança recente importante na regulação. Há até pouco tempo, o passageiro que fazia conexão não pagava nada ao aeroporto pelo qual passava. Isso está mudando. Então, a conexão passa a ser importante para o concessionário. Acho que Confins vai entrar numa briga interessante, semelhante à do Galeão. Respeitando as proporções, a lógica será a mesma. E a experiência que temos com privatizações é que a agência passa a cobrar com mais rigor. Porque é muito difícil cobrar de uma estatal. Punir uma estatal é muito mais complicado.

A Infraero pode ser um peso para os investidores?

Acho que não. É minoritária. As decisões devem ser tomadas pelo investidor privado. A Infraero terá de se redefinir, terá uma equação financeira diferente da que vinha operando. Isso já começou com a privatização de Guarulhos. Agora, com Galeão e Confins, ela deve receber aporte do Tesouro.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.