Thierry Roge/Reuters
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A briga dos cartuchos

Com atualização de software, HP tentou impedir que suas impressoras funcionassem com cartuchos de rivais

The Economist, O Estado de S.Paulo

04 de outubro de 2016 | 05h00

Levou algum tempo para as pessoas entenderem. Na manhã de 13 de setembro, proprietários de diversos modelos de impressora Office Jet, linha da HP voltada a usuários domésticos e pequenas empresas, tiveram uma surpresa. Quando acionaram suas máquinas, verificaram que elas haviam sofrido uma transformação durante a noite. Se na véspera funcionavam com qualquer cartucho de tinta, agora só imprimiam se estivessem abastecidas com originais HP. A mudança decorreu de uma atualização do driver da impressora, que passou a bloquear cartuchos de outros fabricantes.

A HP tem motivos para agir desta forma. Embora a empresa continue a lucrar com impressoras, seu faturamento caiu 14% em julho, na comparação com 2015. Isso reflete principalmente a redução de impressão de documentos. No entanto, a concorrência acirrada no segmento de cartuchos estreita as margens: 26% dos cartuchos vendidos na Europa, Oriente Médio e África, assim como 16% na América do Norte, não são originais.

Nos últimos dez anos, cartuchos “piratas”, em sua maioria da China, inundaram o mercado. A atualização da HP impede o uso dessas falsificações, que desrespeitam a legislação de propriedade intelectual. Mas empresas que agem dentro da lei também foram atingidas, diz Tim Parsons, da Promax Imaging, companhia britânica que compra cartuchos usados, mas supostamente “originais” (a companhia recarrega-os com tinta e os revende). E as empresas que desmontam os cartuchos da HP e desenvolvem novas versões, compatíveis com as impressoras da fabricante, também agem em conformidade com a lei. Esses cartuchos de “marcas alternativas” em geral têm a mesma qualidade que os originais e chegam a ser vendidos por um quarto do preço.

Não é de hoje que grandes fabricantes, como a HP, para as quais os cartuchos de tinta são produtos altamente lucrativos, tentam eliminar a concorrência. Desde o início dos anos 2000, elas utilizam chips inteligentes que dificultam as recargas e as cópias piratas. Em 2002, a Lexmark, fabricante americana de impressoras, processou a Static Control, que encontrou uma maneira de neutralizar esses chips. Mas a Lexmark perdeu a ação. A Justiça decidiu que a Static Control tinha o direito de produzir peças que “interagiam” com produtos de outra fabricante.

As atualizações de softwares são outra estratégia comum a que as empresas recorrem para eliminar concorrentes. Mas a promovida pela HP se destaca, diz Cory Doctorow, da Electronic Frontier Foundation, por produzir uma modificação radical nas impressoras que os consumidores têm em suas casas ou empresas.

Será que podemos nos considerar donos dos produtos que compramos, se seu fabricante exerce controle perpétuo sobre parte dele?, indaga Doctorow. O receio é que, com outras fabricantes adotando softwares similares ao da HP, a Justiça acabe ampliando o alcance do direito de propriedade intelectual. A GM, por exemplo, agora afirma ser proprietária de partes de seus automóveis mesmo após eles saírem do pátio da montadora.

Por ora, parece que a concorrência seguirá ativa: a holandesa 123inkt diz que, apesar da atualização, seus cartuchos ainda funcionam em impressoras HP. Os chips da Static Control, usados por várias marcas alternativas, não foram bloqueados pela HP. Mas com a compra, por US$ 1,1 bilhão, do negócio de impressoras da Samsung, a HP pode tornar as coisas mais complicadas. Laura Heywood, da Kleen Strike, especializada em recargas, diz que as fabricantes alternativas terão bem mais trabalho para neutralizar chips da Samsung, considerados “mais complicados que a máquina de criptografia alemã enigma”.

© 2016 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

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