Infográfico Estadão
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A briga pelos juros

Há quem defenda que, para calibrar os juros, se olhe para a inflação e para o nível de emprego. O problema é que muito raramente eles são conciliáveis.

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

21 Julho 2016 | 21h00

Houve um tempo em que a assessoria da presidência da Fiesp mantinha pré-redigidas três notas de protesto contra os juros altos, das quais uma deveria ser divulgada logo depois de conhecido o resultado da reunião do Copom.

Se a decisão tivesse sido de aumentar os juros, a nota divulgada dizia que se tratava de uma ação irresponsável do Banco Central, cujo único efeito era derrubar a atividade econômica e provocar desemprego. Se fosse manter os juros no mesmo nível, a nota o criticava por ter sido acanhado demais, pouco ousado e tal. E se fosse baixar os juros, a autoridade monetária também tinha sido tímida porque caberia derrubada mais forte.

Hoje, os jornais têm mais o que fazer do que acolher repercussões desse tipo. E, no entanto, a atitude de grande número de muitos dirigentes empresariais, e mesmo de analistas econômicos que se autodenominam desenvolvimentistas, é cobrar redução imediata dos juros, como se a função da política monetária não fosse empurrar a inflação para dentro da meta, mas garantir dinheiro farto e barato para aumento do consumo, não importando os efeitos, diretos e colaterais.

Mas há outro tipo de crítica tanto à política monetária do Banco Central como ao próprio sistema de metas de inflação. Há os que tentam argumentar que, se tem alguma influência sobre o comportamento da inflação, a regulagem do volume de moeda na economia (política monetária) produz efeito apenas marginal. Trata-se, portanto, de um instrumento de baixa eficácia ao qual não se deve dar importância. Nessas condições, pra que apertar os juros desse jeito?

Essa postura não deixa de ter certa justificativa, especialmente quando o principal detonador dos preços altos, como até agora vinha acontecendo, é a política fiscal frouxa demais.

A essa avaliação minimalista da política de juros pode-se contra-argumentar que, nas circunstâncias e, principalmente, quando a gastança se mantém à solta, a inflação seria ainda mais alta do que é, não fossem os apertos da política monetária.

De qualquer maneira, críticas desse tipo procuram derrubar vigas do edifício apenas porque ocupam muito espaço e parecem pesadas demais, sem levar em conta sua função estrutural. Não dá para trabalhar sistematicamente com juro no piso e câmbio no teto, como pede esse pessoal, sem antes tratar de garantir o equilíbrio de todo o sistema da economia.

Há quem defenda o duplo mandato do Banco Central. Isso significa que, na hora de calibrar os juros, não olhe apenas para a inflação, mas, também, para o nível de emprego. O problema é que muito raramente o controle da inflação e a criação de empregos são objetivos conciliáveis. Nem o Fed (o banco central dos Estados Unidos), que, por lei, tem esse duplo mandato, opera desse jeito.

Os juros têm, sim, de cair. Mas de nada adiantaria derrubá-los sem ter a inflação sob controle e sem fechar antes a principal chocadeira da inflação que é a desordem das contas públicas.

CONFIRA:

Aí está a evolução do IPCA-15, a inflação também medida em 30 dias, com a diferença de que o período vai do dia 15 de um mês ao dia 15 do mês seguinte.

Voltou

A expectativa era a de que a inflação de julho continuaria o período de baixa iniciado em junho, quando alcançou 0,40%. Mas o IPCA-15 mostrou alta surpreendente dos preços, de 0,54%. Esta é mais uma indicação de que os juros básicos (Selic) não cairão tão cedo; pelo menos não cairão em 30 de agosto, para quando está marcada a próxima reunião do Copom.

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