O Estado de S.Paulo

04 Novembro 2016 | 05h00

No momento em que o País discute corte de gastos, a busca pela eficiência em todos os segmentos da economia entra fortemente no radar dos gestores de políticas públicas, com ênfase no sistema de saúde. Na terça-feira, médicos, especialistas e acadêmicos discutiram em São Paulo, em mais um evento da série Fóruns Estadão, a importância de coletar, estruturar e integrar dados médicos. 

“Nós queremos melhor prevenção, ter diagnósticos rápidos, equacionar custos. Todas essas questões precisam de informação”, disse Claudio Ferrari, secretário de Comunicação da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC).

Para Tracy Francis, diretora no Brasil da Consultoria McKinsey, a análise de dados pode melhorar muito a eficiência e a qualidade da estrutura de saúde. “O sistema pode ficar em média 35% mais eficiente se usarmos big data e análise de dados. Num mercado de milhões de dólares, o impacto é muito visível.”

Além de melhorar o atendimento individual, a integração de dados pode favorecer o desenvolvimento de pesquisas e a adoção de programas coletivos de prevenção e tratamento de doenças. Em Santos, por exemplo, o Instituto Tellus, dirigido por Germano Guimarães, criou um projeto que ajudou a prefeitura a reduzir a mortalidade infantil com base na coleta e análise de dados.

O País se depara com uma expectativa de vida maior, um sistema de saúde cheio de problemas e um sistema privado pressionado pelo aumento dos custos. Este caderno debate formas para melhorar esse cenário e apresenta iniciativas que têm dado bons resultados.

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Análise de dados melhora atendimento e pesquisa

Para melhorar a prevenção de doenças, ter diagnósticos rápidos e equacionamento de custos, o sistema de saúde brasileiro, público e privado, precisa investir na captação, estudo e integração de informações

Mariana LimaESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

04 Novembro 2016 | 05h00

O sistema de saúde precisa mudar o relacionamento com os pacientes e a forma como realiza pesquisas científicas para aumentar sua eficiência e produtividade. Essas foram as principais conclusões a que chegaram médicos, especialistas e acadêmicos durante o debate promovido pelo Estado, na terça-feira, em mais um evento da série Fóruns Estadão, desta vez, com o tema Gestão da Informação.

O secretário de Comunicação da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), Cláudio Ferrari, defendeu a reformulação do relacionamento atual entre instituições, médicos e pacientes. Ele destaca que sem a integração dos dados fornecidos por laboratórios e hospitais, a agilidade no diagnóstico e no tratamento fica reduzida. A falta de um sistema integrado “mostra o desdém com que os dados são tratados” e isso, na visão do especialista, é inadmissível para o sistema de saúde do século 21.

“A gestão dos dados de vida deixa a desejar. Os dados são isolados e inacessíveis ao próprio paciente e cada vez que ele procurar atendimento, terá de repetir as mesmas informações que já tinha fornecido antes. Além disso, os dados são geralmente incompletos e coletados de forma aleatória”, diz Ferrari. Isso, entre outras coisas, acaba gerando de alguma forma maior custo para o sistema, seja ele público ou privado (por exemplo, com a repetição de procedimentos já realizados) ou, levando-se ao extremo, pode ser determinante na manutenção da vida do paciente.

Segundo o secretário, discute-se muito a melhora na prevenção de doenças, diagnósticos rápidos, equacionamento de custos, mas nada disso é possível sem informação de qualidade. “Enquanto estamos nas mãos do pediatra, temos nossas informações organizadas. O problema começa quando passamos a ser os gestores dos próprios dados.”

Num modelo ideal, segundo Ferrari, os pacientes cuidariam de suas informações de saúde e o sistema as estruturaria de forma integrada numa base de dados. “Passaríamos a ter um perfil completo do paciente, que poderíamos usar para obter melhores resultados.”

Para que isso se torne realidade no Brasil, o representante da SBOC prevê uma série de etapas a serem cumpridas. A primeira delas, já discutida atualmente entre os integrantes da sociedade, é o uso de big data (análise de grandes bancos de dados). “Precisamos ainda participar de decisões sobre quais serão os parâmetros essenciais a serem usados para fazer comparações de dados, além de montar um consórcio para estabelecer cooperação entre as empresas de saúde e buscar um parceiro tecnológico que nos ajude a entrar nesse novo mundo”, afirmou Ferrari.

Para o diretor da Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia (Abrale), Fabio Fedozzi, existem muitos dados no sistema de saúde, mas “falta expertise para analisá-los”. Fedozzi lembra da dificuldade dos médicos em coletar informações do paciente. “É uma problemática o médico ter de ficar preenchendo dados, mas esses dados são necessários para que sejam transformados em conhecimento. Não sei se isso levará ao melhor tratamento. Mas há, sem dúvida, um ganho.”

Segundo Fedozzi, toda a discussão de integração de dados acaba batendo na questão econômica. “Muitos pacientes são abandonados pelo plano de saúde quando uma doença grave é diagnosticada. Mas dentro de um plano de saúde, uma vida acaba pagando pela outra.”

Pesquisas clínicas. O médico oncologista e pesquisador do A. C. Camargo Câncer Center, Heleno Freitas, lembra que, com uma melhor coleta de dados dos pacientes, será possível ainda ampliar a quantidade de pesquisas clínicas feitas no Brasil. “Hoje, usamos os resultados dos estudos clínicos disponíveis, guias que são consenso nas diversas sociedades, e acrescentamos experiências individuais e dos locais em que cada pesquisador trabalha. Num passado não muito distante, a medicina era baseada somente na experiência individual dos doutores, mas atualmente não há mais espaço para isso.”

Entre as dificuldades de se fazer pesquisa no Brasil, Freitas aponta a burocracia. Para fazer uma pesquisa no País, segundo o oncologista, é necessária autorização de três instâncias, sendo que cada uma leva meses para a liberação. “Diferentemente de outros países, precisamos de uma aprovação local ou regional e outra de um órgão em Brasília chamado Comissão Nacional de Ética em Pesquisa, além de necessitar da aprovação da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Nesse processo, a única instância ágil costuma ser a dos comitês de ética locais, que demoram em média um mês para conceder a autorização”, disse.

Freitas ainda levantou um ponto sensível sobre a gestão de dados que diz respeito à privacidade. Segundo ele, “o compartilhamento de dados no nível individual se torna um problema com relação à privacidade do paciente”. Ou seja, uma base integrada de informações, se por um lado torna o sistema de saúde mais eficiente, por outro acaba expondo dados individuais privados do paciente.

Efeito prático. Fedozzi, da Abrale, exemplificou como é importante a coleta de dados e de que forma a análise desses dados pode conduzir uma pesquisa, um tratamento ou uma campanha de saúde. “Traçamos os dados disponíveis e descobrimos, por exemplo, que, se nada for feito, o câncer será a principal causa de morte no País em 2029”, diz. “É claro que políticas públicas como a vacinação de HPV podem mudar essa projeção, mas informações assim ajudam a estipular programas e metas.”

A Abrale realizou 24 estudos com base em informações públicas de saúde nos últimos 12 meses de atuação. Atualmente, a principal fonte de dados públicos no Brasil é o Ministério da Saúde. A Abrale trabalha esses dados e publica estudos em seu site.

Como o mundo faz a integração das informações

Dinamarca. Cada região do país tem seu Prontuário Eletrônico de Paciente (PEP) que segue os padrões nacionais de compatibilidade. Atenção primária integrada com hospitais e farmácias também por região. Todos os cidadãos têm identificador único e acessam seus dados por portal online.

Israel. Os quatro planos de saúde financiados pelo governo que operam no país têm seus PEPs que são capazes de integrar dados da atenção primária, laboratórios e farmácias. Todos os cidadãos têm um identificador único e podem acessar parte de seus dados online. Apesar de todos os hospitais terem PEPs, estes ainda não estão integrados com o restante do sistema.

Espanha. Cartão único do cidadão, que carrega seu PEP. Através do portal online, os médicos acompanham as internações de seus pacientes. Integração de todos os níveis de atenção e entre os distritos de saúde permitindo que o recurso siga o paciente caso ele seja atendido em outro distrito. 

Reino Unido. 2018: meta de integrar todos os dados da atenção primária e serviços de urgência e dar acesso a esses dados em plataforma online incluindo funcionalidades como agendamentos. 2020: integrar todos os demais serviços e dar acesso a todos os dados ao paciente. As instituições perdem financiamento se não demonstrarem avanço para a meta.

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Mariana Lima, especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

04 Novembro 2016 | 05h00

Existem no Brasil exemplos práticos de como a análise de informações e a integração de bancos de dados podem ter um impacto positivo na qualidade dos serviços de saúde. Alguns deles foram apresentados no evento Fóruns Estadão Gestão da Informação.

O diretor do Instituto Tellus, Germano Guimarães, explicou como a coleta e a análise de dados ajudaram a prefeitura de Santos a reduzir a mortalidade infantil. O Instituto Tellus atua em 33 municípios de 12 Estados, elaborando projetos inovadores na área de saúde pública. “Com os dados em mãos, descobrimos que havia uma lacuna na formação das mães. Por isso, criamos a Escola das Mães, com o objetivo de aumentar a qualidade do pré-natal. Num ano, diminuímos a taxa de mortalidade infantil em 20%”, afirma. O projeto conta com uma equipe multidisciplinar de profissionais, que desenvolve conteúdos e tira dúvidas das mães.

Outro projeto do Tellus é o sistema Clique Saúde, que ajuda os pacientes da rede pública a encontrar unidades com medicamentos, médicos especializados e exames específicos. Segundo Guimarães, com as informações enviadas pelos usuários pelo smartphone é possível mapear que locais e tipos de serviço ou medicamentos precisam de mais investimento.

O terceiro caso apresentado pelo diretor do Tellus foi a rede Bem Cuidar, que transforma o atendimento das Unidades Básicas de Saúde (UBS) segundo as necessidades dos usuários. A iniciativa melhora tanto a qualidade do serviço quanto a avaliação dele pelos usuários. Tanto o Clique Saúde quanto a rede Bem Cuidar foram projetos desenvolvidos com a prefeitura de Pelotas (RS).

Para Guimarães, as três iniciativas são exemplos de como a sociedade civil pode pressionar por mudanças no sistema de saúde pública. “Do investimento total da primeira UBS, 93% foram doados por institutos e fundações. Quando o governo viu que o modelo deu certo, expandiu o programa com recursos públicos. Fazer protótipos para despertar a atenção do governo é uma das maneiras de a sociedade civil ajudar a encontrar soluções para saúde.”

Para ele, o interesse atual dos governos em coletar dados sobre saúde se resume a exigências para liberação de verbas. “O governo está coletando dados visando a receber verbas e pensa pouco nos resultados. A informação acaba tendo pouca qualidade. A iniciativa privada investe R$ 4 bilhões por ano (em projetos culturais e sociais), mas apenas 6% são usados na área da saúde. Existe uma grande oportunidade para o setor.”

Guilherme Genovez, médico especialista em Hematologia e Hemoterapia e ex-coordenador-geral de Sangue e Hemoderivados do Ministério da Saúde, destaca que a integração de bancos de dados é um processo, não um produto final. “Com a integração de dados, será possível ao governo fazer planejamentos melhores, para a compra de insumos e medicamentos de modo eficiente”, disse. O especialista sugere a adoção de normas e padrões de desenvolvimento para que as ações no setor sejam coordenadas em diferentes empresas e organizações. “Precisamos trabalhar com um objetivo comum e o Data SUS tem de ajudar a fazer isso.”

Segundo Genovez, é natural que a maioria dos dados cadastrados atualmente seja fragmentada ou incompleta. Na visão do especialista, os médicos têm pouco interesse nessas informações por não ver os benefícios de arrecadação desses dados no curto prazo.

Nelson Teich, presidente do Grupo COI e representante da United Health Group no Brasil, acredita que a deficiência na coleta dos dados não é culpa do profissional de saúde. “O médico está ocupado em tratar do paciente.” Para Teich, é um erro acreditar que basta coletar e armazenar informações para que elas sejam usadas. “A informação tem duas características fundamentais: uma é para que direção ela aponta e a outra é quanto você tem de informação. A informação precisa ser muito bem trabalhada, pois ter um dado coletado de forma errada é pior que a ausência dele.”

A ausência ou fragmentação de dados clínicos pode influenciar diretamente a vida dos pacientes. Para o especialista, sem a estruturação das informações, há aumento no número de erros médicos e, consequentemente, de mortes por falha humana. Segundo Teich, há estudos que apontam uma média de 400 mil mortes por ano no Brasil em razão de erros no sistema. Os atendimentos do SUS correspondem à metade dessa fatia.

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Adoção de big data pode elevar eficiência da saúde em 35%

A análise de dados de hospitais, laboratórios e dos usuários tende a reduzir o desperdício e aumentar a produtividade

Mariana Lima, especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

04 Novembro 2016 | 05h00

A análise de dados pode melhorar a eficiência e a qualidade do sistema de saúde. É o que aponta Tracy Francis, diretora no Brasil da Consultoria McKinsey e palestrante do Fóruns Estadão Gestão da Informação, realizado na terça-feira.

O uso de big data e análise de dados de hospitais, laboratórios e dos próprios usuários tende a reduzir o desperdício – um dos principais fatores que oneram o sistema de saúde – e aumentar a produtividade.

Segundo Tracy, 74% dos pacientes repetem as mesmas informações para diferentes médicos. No que diz respeito a exames laboratoriais, ao menos 60% dos pacientes dizem realizar o mesmo procedimento mais de uma vez. Em ambos os casos, um banco de dados poderia reduzir o tempo das consultas e aumentar a produtividade das atividades médicas.

“Conseguimos comprovar que o sistema pode ficar em média 35% mais eficiente se usarmos big data e análise de dados. Num mercado de milhões de dólares, o impacto é muito visível”, diz Tracy.

Com a entrada de multinacionais de tecnologia como Google e Apple no mercado de saúde, o volume de dados deve crescer exponencialmente nos próximos meses. As duas empresas oferecem aplicativos gratuitos para registrar e monitorar informações pessoais como peso, altura e batimentos cardíacos.

“Temos novas tecnologias que permitem que o paciente faça o próprio monitoramento de saúde, tenha transparência do que está acontecendo com ele e gerencie a interação com o médico. O paciente não ter o histórico do que aconteceu com ele durante sua vida inteira é um dos problemas mais graves”, afirma a diretora da McKinsey.

No caso do Brasil, a coleta e análise de dados podem trazer um ganho ainda maior. Isso porque a universalidade dos serviços de saúde pública previstos no Sistema Único de Saúde (SUS) é, ao mesmo tempo, o item que coloca o País como destaque mundial, mas vê crescer a insatisfação dos usuários.

“O projeto do SUS é muito bonito, mas não é sustentável em épocas de crise econômica. O modelo brasileiro é extremamente abrangente em comparação a outros países, se levarmos em conta o PIB (Produto Interno Bruto) per capita”, sustenta a especialista.

Em outros países, como o Reino Unido, a aplicação de big data no sistema público já tem se tornado realidade. A expectativa do país é que, até 2018, todos os registros de atenção primária e emergência estejam integrados num mesmo banco de dados (ver quadro na pág. H2).

No cenário brasileiro, uma integração federal pode demorar mais tempo, na visão de Francis. “A legislação nacional distribui responsabilidades entre os diferentes níveis da federação. Dificilmente um município vai querer coletar todos os dados, se ele só tem obrigação de prestar atenção primária, por exemplo.”

Uma alternativa, segundo ela, seria implementar bases de dados em diferentes camadas, com integração entre si.

“Teremos de descobrir uma forma de atender a parte expressiva da população que circula tanto no sistema público quanto no privado. Para esse paciente não vai adiantar ter metade dos dados num servidor público e outra num privado. Vamos ter de descer do nível federal, granular e ver como podemos fazer para haver cooperação”, diz.

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Planos de saúde usam gestão de dados para prevenir gastos

Um número cada vez maior de empresas está investindo em análise de informações dos beneficiários para prever risco de doenças graves

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

04 Novembro 2016 | 06h00

Dar atenção ao usuário somente quando ele fica doente é uma prática que tem ficado no passado de boa parte das operadoras de saúde brasileiras. Um número cada vez maior de empresas do ramo está investindo na gestão e análise dos dados de seus beneficiários para conseguir prever aqueles que têm maior risco de desenvolver algum problema grave de saúde e oferecer a ele serviços e orientações que reduzam o risco de isso acontecer. Para o paciente, uma vida mais saudável. Para a operadora, custos menores no futuro.

Medir peso e altura, acompanhar o número de consultas, exames e entradas no pronto-socorro de cada cliente, verificar gastos do paciente na farmácia. Essas são algumas das estratégias usadas pelos planos para saber como anda a saúde de seus beneficiários e, assim, tentar separar os grupos de maior risco para elaborar uma proposta de intervenção.

A Amil, por exemplo, iniciou no fim de 2015 um programa de mapeamento dos clientes chamados high users, ou seja, aqueles que utilizam com maior frequência os serviços do convênio médico. Na avaliação da operadora, o número de consultas, exames e outros procedimentos realizados por essas pessoas é, muitas vezes, exagerado, resultado da falta de orientação e organização do sistema.

O cliente, na visão da operadora, fica perdido, consultando diversos especialistas e passando por vários exames, sem que o problema de saúde seja efetivamente resolvido.

Como parte do programa, a operadora mapeou os dados de todos seus beneficiários e chegou a um grupo de 40 mil pacientes em São Paulo e no Rio considerados high users – o equivalente a 1% de toda a carteira de clientes da Amil. O próximo passo foi entrar em contato com todos eles para oferecer um programa de cuidados coordenados, com orientação individualizada e atendimento presencial em unidades espalhadas em 13 endereços das duas capitais. Os centros foram batizados de Clubes Vida de Saúde.

De novembro de 2015, quando o programa foi lançado, até setembro deste ano, 11,5 mil clientes aceitaram participar da iniciativa. O objetivo é que, com o acompanhamento individualizado de um único médico, o paciente possa receber orientações sobre os procedimentos e tratamentos mais eficazes para cada doença e, assim, melhorar seu estado de saúde, evitando complicações futuras que representem mais custos para a empresa.

“Um dos principais desafios é conectar os pacientes certos aos profissionais corretos e no momento oportuno. Para tornar essa estratégia um processo contínuo, foi necessário criar um fluxo de trabalho com entradas, saídas e resultados claros de cada etapa. Nosso objetivo é prever episódios graves ou agir imediatamente quando um evento agudo acontece. Desse modo, conseguiremos contribuir efetivamente com a gestão da saúde das pessoas, algo muito mais importante que a simples gestão de custos”, diz Hans Dohmann, diretor de Gestão de Saúde da Amil.

Corporativos. Gigante do segmento de planos corporativos, a Bradesco Saúde criou um programa, o Juntos Pela Saúde, para identificar, em cada empresa para a qual fornece o convênio médico, os funcionários com condições de saúde mais vulneráveis e, em seguida, propor intervenções específicas para cada grupo. São vários tipos de ações que a Bradesco oferece e que podem ser contratadas pelas empresas que desejarem oferecê-las a seus funcionários.

No programa de acompanhamento de doentes crônicos, por exemplo, a operadora primeiramente levanta os dados de consultas, exames e internações de cada beneficiário daquela empresa, recupera as informações dos gastos dele em farmácia e monta um algoritmo para prever quais funcionários têm mais chances de apresentar uma doença crônica ou, no caso dos que já possuem alguma patologia do tipo, quais têm maior risco de complicações. Identificado esse grupo, a operadora oferece acompanhamento profissional, além de monitoramento que inclui palestras e materiais informativos sobre hábitos de vida saudáveis.

Outro programa oferecido às empresas pela operadora é o de abandono do tabagismo. Pela ação, o funcionário fumante tem acesso a consultas individuais com pneumologistas e psiquiatra por seis meses, exames, além de acompanhamento semanal por telefone sobre a evolução do tratamento. De acordo com a operadora, 42% dos participantes deixaram de fumar e outros 57% diminuíram o número de cigarros consumidos.

Na Hapvida, a gestão da informação e as inovações tecnológicas são usadas não só para definir o público-alvo de programas de promoção e prevenção da saúde, mas também para otimizar o atendimento nas unidades de atendimento próprias da operadora.

A empresa criou um núcleo de controle e qualidade que acompanha o trajeto dos beneficiários nos centros médicos, emitindo alertas em situações como de espera excessiva no atendimento de urgência ou demora na marcação de consultas com especialistas. Sempre que há uma situação atípica, o núcleo – que funciona 24 horas – entra em contato com o coordenador da unidade para cobrar explicações sobre a demora.

Para evitar desperdício de recursos com exames repetidos, por exemplo, a operadora também implementou o prontuário eletrônico para que todas as unidades tenham acesso ao histórico do paciente. Como forma de cortar gastos também com a impressão de laudos médicos, os resultados dos exames feitos nas unidades da Hapvida passaram a ser entregues aos pacientes em mini DVDs.

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Gestores não estão prontos para lidar com a informação

Para acadêmica, volume de dados e sua constante transformação estão entre as dificuldades que o profissional encontra

Entrevista com

Marília Louvison, professora da Faculdade de Sáude Pública da USP

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

04 Novembro 2016 | 05h00

Usar a riqueza dos sistemas de informação como recurso para a tomada de decisões e não só para o registro de dados brutos é fundamental para melhorar a assistência e otimizar recursos no SUS, segundo a professora da Faculdade de Saúde Pública da USP, Marília Cristina Prado Louvison. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Como a sra. avalia a diversidade e qualidade de informações de saúde no Brasil e o acesso a elas?

Temos no Brasil bons bancos de dados nacionais que dão conta da diversidade das informações e permitem análises de situação de saúde e monitoramento em tempo real de grande parte das informações. Os sistemas demográficos de nascimento e mortalidade se aperfeiçoaram muito ao longo do tempo e os sistemas de produção de serviços vêm avançando no sentido de se alinhar a padrões internacionais.

A sra. acha que os gestores e especialistas em saúde estão bem preparados para trabalhar com as inúmeras informações disponíveis?

Os gestores e especialistas não estão preparados para trabalhar com as informações em saúde, pois não há esse enfoque em sua formação. Primeiro, porque as informações hoje são muitas e estão em constante transformação. Segundo, porque muitas vezes essas informações não têm a desagregação e a disponibilidade desejada pela gestão. Também por não termos construído uma cultura analítica de tomada de decisão com base em informações. A fragmentação dos sistemas de informação reflete a fragmentação do sistema de saúde e acaba servindo pontualmente a alguns interessados, mas não se conseguiu ainda produzir diálogo com a sociedade, com a mídia, nem com grande parte dos gestores e trabalhadores no sentido de integrar e valorizar a potência das informações mais articuladas e integradas. A visão atual ainda é mais voltada para o quão trabalhoso é registrar e coletar a informação do que exatamente o que se tem feito com ela, tanto do ponto de vista da organização quanto de sua disponibilização, análise e uso.

Por que temos tantos avanços tecnológicos, como o sistema eletrônico de votação nas eleições, e ainda não conseguimos ainda implementar, por exemplo, o prontuário eletrônico no SUS?

O prontuário eletrônico envolve um conjunto de informações que são compartilhadas entre serviços e usuários e dependem da importância que é dada a elas. Tem uma questão importante que a torna mais complexa que é o sigilo ao mesmo tempo que tem de dar conta da disponibilidade e da sua rastreabilidade. Práticas normativas gerenciais no trato com a informação contribuíram para piorar essa situação.

A sra. acredita que, no Brasil, informações e estatísticas fiquem algumas vezes em segundo plano na tomada de decisões em detrimento de critérios políticos? Como mudar essa cultura?

A decisão é sempre política, mas é fundamental que seja baseada em conhecimento prévio que permita a melhor decisão, a que mais tem impacto na melhoria das condições de vida da população, dentro de cada projeto político. É preciso construir essa cultura, tanto tornando disponível informação de modo que produza sentido para quem poderia usá-la, como cada vez mais aperfeiçoando os sistemas para que contribuam com isso.

Como os outros países têm trabalhado com a questão da gestão da informação em saúde?

Países de sistemas universais, como Inglaterra e Canadá, têm na informação a base de seu sistema, tanto do ponto de vista administrativo quanto assistencial. Não se administra o que não se conhece e não se conhece se não tivermos informações em utilização cotidiana. Esse é nosso desafio.

Como as novas tecnologias e áreas como o big data podem alterar a forma com que os gestores trabalham com as informações em saúde?

Em tempos de volume excessivo e cada vez maior de informações, corre-se o risco de sabermos tudo e nada ao mesmo tempo. A área da saúde tem utilizado o big data para sistematizar as informações, permitir análises e agregar inteligência. É necessário discutirmos ainda o poder da informação e o quanto pode ser emancipatório para uma população ter acesso à informação de maneira organizada e sistematizada, mas na sua totalidade. Há forte preocupação com o conjunto enorme de dados produzidos pelo setor saúde e o uso que se tem dado a ele.

Em tempos de recursos escassos, como é possível utilizar a gestão da informação para economizar verba sem prejudicar a assistência?

A gestão da informação, como todo processo que organiza, planeja, controla e articula recursos para produzir resultados, possibilita a otimização da coleta, processamento e distribuição da informação. O Brasil tem hoje uma política de informação que precisa ser implementada, é preciso avançar no processo de informatização de toda a rede, no avanço dos padrões e conjuntos mínimos de dados que enfrentam a fragmentação dos sistemas, na disponibilização dos dados ao usuário com o avanço do cartão SUS e do prontuário eletrônico compartilhado. Além disso, é preciso avançar na cultura de uso e análise das informações em saúde que permitam a tomada de decisão.

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Apps organizam de plantões a internação

Empresas consolidadas e startups criam meios para agilizar processos médico-hospitalares e reduzir custos das instituições de saúde

Hugo Passarelli, O Estado de S.Paulo

04 Novembro 2016 | 05h00

No lugar de um amontoado de fichas preenchidas à mão, entram prontuários eletrônicos disponíveis para todos os médicos e departamentos com o histórico completo do paciente. Para resolver a árdua tarefa de organizar plantões de, às vezes, centenas de funcionários, um aplicativo que simplifica a comunicação e ajuda a preencher os buracos na escala.

Esses são apenas alguns exemplos de saídas criativas com uso de tecnologia no setor de saúde que empreendedores brasileiros têm adotado nos últimos anos. Esse novo nicho de mercado reúne de startups a empresas mais consolidadas. Em comum, todas buscam agilizar o atendimento nos processos médico-hospitalares e reduzir custos.

Além das tarefas corriqueiras, processos mais trabalhosos, como o agendamento de cirurgias, podem ser facilitados pela digitalização. “Marcar um procedimento cirúrgico exige coordenar a reserva do espaço físico com o uso dos equipamentos e a mobilização de equipes de anestesia e cirurgia. Nos hospitais que trabalham de forma manual, isso se torna uma atividade complexa”, afirma Roberto Ribeiro da Cruz, presidente executivo da Pixeon.

A economia de tempo e dinheiro é ainda mais crucial para enfrentar a escassez de recursos no setor público de saúde. Segundo Cruz, na Santa Casa de Porto Alegre, a Pixeon constatou que mais de 40 mil filmes de exames eram desperdiçados por mês, pois os pacientes não os retiravam. A solução proposta pela empresa foi permitir o acesso aos exames pela internet e só imprimi-los, na hora, para quem fosse retirá-los pessoalmente.

No começo, a Pixeon, inaugurada em 2003, desenvolvia softwares para a área de diagnóstico por imagem e aos poucos foi expandindo sua atuação. A grande aposta da companhia hoje é digitalizar e integrar toda a cadeia médica para aperfeiçoar os diagnósticos. Atualmente, ela emprega cerca de 400 funcionários espalhados por escritórios em São Bernardo do Campo, Florianópolis, Salvador, Belo Horizonte, Recife e Rio de Janeiro.

Na Bionexo, em funcionamento desde 2000, a ideia foi trazer mais transparência para hospitais e fornecedores na compra de insumos. Para isso, a empresa conta hoje com um cadastro de 1,3 mil compradores (hospitais, clínicas e laboratórios) e 7 mil fornecedores.

Quando precisa de um item, a instituição de saúde faz a solicitação no sistema e pode escolher entre uma ampla gama de empresas e preços. A Bionexo não mantém estoques e apenas faz a intermediação entre as partes. Para lucrar com isso, cobra uma mensalidade das instituições de saúde. Em 2016, a empresa prevê que a plataforma irá movimentar R$ 6 bilhões em transações. Além do Brasil, a Bionexo também atua em Argentina, Colômbia, México e Espanha.

A aposta na tecnologia também levou a empresa a desenvolver outra iniciativa: o Whizhealth, um programa de aceleração de startups da saúde tocado em conjunto com a Gema Ventures. Em sua segunda edição, o programa promete dar suporte às companhias iniciantes e ajudar na penetração nesse mercado. “O setor de saúde costuma ser de difícil acesso às estreantes. Nós mostramos o caminho das pedras e ajudamos a estruturar os negócios”, afirma Luisa Ribeiro, da Gema Ventures.

Para Fábio Barbosa, gestor do programa na Bionexo, a vantagem do Whizhealth é não ter amarras. “Não compramos participação nas startups nem exigimos que a solução deles seja útil para a Bionexo.”

Nó no plantão. O Whizhealth aceita inscrições até o dia 11. Na primeira edição, a startup Pega Plantão foi uma das escolhidas para receber mentoria. Criada em Campo Grande e hoje com sede comercial em São Paulo, a empresa nasceu com o propósito de desatar o nó das escalas de plantão. “Não conheço nenhum lugar absolutamente bem organizado. Existe aquele que não tem problema porque a escala é estática. Os demais casos são bagunçados”, afirma Fábio Paradiso, cofundador da startup. O Pega Plantão é comandado pelo gestor da equipe, que dispara as informações para todos. Alterações na escala ou necessidade de um funcionário para repor a falta de outra chega por meio de notificações em um aplicativo de celular.

A startup ainda pode ser usada por grupos de médicos, como anestesistas, que geralmente prestam serviço para mais de uma instituição e precisam ajustar horários e dias de trabalho constantemente.

A experiência do Pega Plantão rendeu um contrato como Hospital do Coração (Hcor), em São Paulo. A aproximação foi facilitada porque Ary Ribeiro, superintendente do Hcor, também fazia parte do time de “wizards” da Whizhealth – como são chamados os mentores do mercado da saúde que ajudam no processo de aceleração.

No Ceará, outra experiência que partiu da percepção de ineficiência dos hospitais gerou negócio, a Mais Leitos. Segundo um dos fundadores, Paulo André, é comum que o controle do tempo de internação seja mal administrado pelos hospitais. O paciente que fica além do necessário acaba gerando custos extras à instituição, além de estar mais suscetível a infecções.

Para contornar isso, a Mais Leitos inspirou-se no método Kanban, da montadora Toyota, já usado em outros hospitais, para aumentar a eficiência. Por meio de três cores – verde, amarelo e vermelho –, o programa indica se o paciente está dentro do período previsto de internação ou se já deveria ter sido liberado. “A vantagem em relação a quem já utiliza o método é gerar, ao fim de cada mês, um vasto relatório que mede a eficiência do hospital e pode indicar onde estão os gargalos”, afirma Paulo André.

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Tecnologia 3D cria procedimento para cada paciente

Modelos que reproduzem com exatidão partesdo corpo ajudam a reduzir custos e tempo das cirurgias

Paula Felix, O Estado de S.Paulo

04 Novembro 2016 | 05h00

Já é possível planejar complicados procedimentos cirúrgicos utilizando modelos que reproduzem com exatidão estruturas do corpo do paciente. A união entre exames precisos, como a ressonância magnética e a tomografia computadorizada, e as impressoras 3D tem permitido que médicos das mais diversas especialidades consigam elaborar um plano que considere especificidades dos pacientes, reduzindo o tempo do procedimento e evitando complicações no período pós-cirúrgico.

Desde 2014, o médico radiologista Bruno Aragão, que é sócio-fundador da 3DUX, trabalha com biomodelos em 3D e planejamento cirúrgico virtual, um mercado que vem crescendo ano após ano. “Os dentistas já têm a cultura de utilizar um protótipo há muitos anos. O que tem aumentado é o público de médicos, principalmente os profissionais da ortopedia, cirurgiões de cabeça e pescoço, cirurgiões plásticos que trabalham com reconstrução facial. A procura dobrou de 2015 para 2016.”

Aragão diz que o custo da peça ainda é elevado, tendo em vista o uso de materiais importados para a confecção – o preço costuma variar entre R$ 500 e R$ 3 mil, mas os profissionais estão aderindo aos biomodelos pelo fato de o uso deles não se esgotar após a etapa de planejamento. “Nossos clientes ficam com as peças e utilizam como material didático, porque eles conseguem se comunicar com mais facilidade com seus pacientes, explicam como vão operar. A relação médico-paciente é muito importante e o paciente quer entender o que vai acontecer com ele, principalmente quando o procedimento é complexo.”

Presidente executivo da BioArchitects, Felipe Marques diz que a economia em material e a redução do tempo de cirurgia são pontos levados em consideração pelos especialistas. “Tivemos um caso de cirurgia de costela em que o apoio do médico no planejamento resultou em uma economia de R$ 25 mil em placas e parafusos e em redução de duas horas no tempo do procedimento.”

Marques explica que o segundo ponto tem um impacto direto para o paciente. “Quando se reduz o número de horas de cirurgia, o paciente fica menos tempo aberto e tem menos riscos de infecções e outras complicações.”

A parte de formação de profissionais também é beneficiada pela tecnologia. “Outra aplicação valiosa é para o treinamento de residentes. Nem sempre eles vão ter acesso a cadáveres com determinadas patologias e o biomodelo pode suprir isso.”

Personalização. O foco na personalização do tratamento é uma tendência na área médica e os biomodelos em 3D estão entre as principais ferramentas para oferecer esse recurso. “A gente parte do princípio de usar tomografia computadorizada e ressonância magnética, pois a imagem é daquele paciente. Conseguimos reconstruir tridimensionalmente o sistema nervoso, vascular e da parte óssea. Isso pode ser aplicado em todas as áreas da medicina”, afirma Elias Hoffmann, responsável e supervisor técnico da empresa Protótipos 3D, que é formado em física médica.

A empresa foi fundada em 2008, unindo profissionais das áreas de processamento de imagens médicas, física médica e informática. Hoffmann acredita que, nos próximos anos, com o barateamento da tecnologia e maior divulgação, ela tem potencial de se tornar uma ferramenta amplamente utilizada, principalmente por profissionais que estão tendo contato com a tecnologia durante a formação acadêmica. “O cenário é bem diferente de cinco anos atrás. O crescimento ainda não é tão significativo quanto em países do primeiro mundo, mas notamos que vem crescendo no cenário de graduação e pós-graduação.”

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Telesaúde ajuda a salvar vidas no País

Profissionais da saúde de localidade menores e distantes dos grandes centros são orientados por médicos experientes por meio da plataforma

Paula Felix, O Estado de S.Paulo

05 Novembro 2016 | 00h00

Pacientes e profissionais da área da saúde de todas as regiões do Brasil, mesmo em cidades menores e mais distantes, estão sendo beneficiados pela rede de telemedicina e telessaúde que já está consolidada no País. Casos de diferentes graus de gravidade são discutidos entre profissionais que podem estar a quilômetros de distância e salvar a vida de pessoas, mesmo em unidades de saúde que não têm um quadro de especialistas completo. Também é uma forte ferramenta de aprendizado para estudantes e um método de aperfeiçoamento para pessoas que já estão formadas.

Desde 2012, mais de 7 mil pacientes de 12 Estados foram atendidos por profissionais do Hospital Israelita Albert Einstein por meio da tecnologia. Foram, principalmente, pessoas que chegaram a unidades de saúde com quadros de derrame, enfarte ou vítimas de graves acidentes. “Temos 26 hospitais ligados a esse projeto para emergência e terapia intensiva. Eles podem entrar em contato todos os dias da semana, 24 horas por dia. É como um kart móvel com recursos de áudio e vídeo e conseguimos acompanhar o médico e o paciente em tempo real. Assim que o paciente chega com um AVC, por exemplo, o neurologista do Einstein atende remotamente mesmo quando o hospital não tem a estrutura”, explica Milton Steinman, coordenador do serviço de telemedicina do hospital.

Steinman diz que o procedimento pode ser determinante para a evolução do quadro do paciente. “Quando o paciente entra na terapia intensiva, as primeiras horas são as mais importantes. No caso de um AVC, você muda o destino entre viver e morrer.”

Mudança de hábito. O coordenador explica que, apesar da expansão da rede, sua utilização ainda é um desafio. “Como é uma tecnologia nova, causa uma mudança de cultura. Normalmente, quando o médico não tem o recurso, ele pede para transferir o paciente para outro hospital, mas a tecnologia evita transferências desnecessárias e dá mais segurança ao paciente e ao profissional de saúde, que vai receber conhecimentos de um profissional mais experiente. É uma ação que tem um impacto imediato.”

Em julho, a Prefeitura de São Paulo começou a implementar o programa Telessaúde Redes nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs) da capital. A iniciativa não é voltada apenas para médicos. “Qualquer profissional pode mandar dúvidas para consultores, dentista, médico, enfermeiro. Há três dimensões de dúvidas: como conduzir o caso, gestão das vagas para especialidades e políticas de saúde implementadas na cidade. As dúvidas são enviadas para teleconsultores, que têm 72 horas para responder”, explica Elaine Giannotti, coordenadora da regulação do município.

O projeto teve início com 29 unidades, passou para 122 em outubro e o objetivo é chegar a 256 UBSs até dezembro. A cidade tem 453 unidades ao todo.

Projetos. A Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) desenvolve um projeto na área que engloba unidades do município de São Paulo e outras 21 cidades do entorno. São 529 unidades de saúde que utilizam a tecnologia.

“Telemedicina e telessaúde são nomes que se confundem no Brasil. A telemedicina diz respeito a webconferências, grupos de médicos, grupos de interesses especiais. O paciente se beneficia de forma indireta, porque o profissional acaba aprendendo. Na telessaúde, um profissional de saúde dá assistência a outro por meio de uma plataforma. Fornecemos cursos que vêm da demanda dos profissionais e, em telessaúde, fazemos atendimentos na região sudeste de São Paulo, mas nossa plataforma conversa com a da Prefeitura”, diz Claudia Novoa Barsottini, professora do Departamento de Informática em Saúde da Unifesp.

Na rede estadual, um projeto-piloto de atendimento médico a distância foi implantado na região da Baixada Santista em 2014 e é administrado pela Central de Regulação de Ofertas e Serviços de Saúde (Cross).

“A telemedicina serve para que, em tempo real, equipes médicas da Cross e dos serviços hospitalares discutam quadros clínicos de pacientes por meio de videoconferência. Casos mais complexos podem ser discutidos com equipes médicas de cinco hospitais universitários considerados referências nacionais: Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, Hospital São Paulo, Hospital Santa Marcelina de Itaquera e Hospital Brigadeiro”, diz, em nota, a Secretaria de Estado da Saúde.

Eficiência. Entre janeiro de 2015 e setembro deste ano, foram registrados mais de 19 mil atendimentos em 27 unidades de saúde de 9 municípios da região. Entre 2012 e 2015, neurologistas do Hospital Alemão Oswaldo Cruz atuaram em um projeto que englobou 7 hospitais e atendeu 150 pacientes. O foco eram casos de AVC que chegavam em emergências de hospitais públicos que não tinham neurologistas.

“Essa tecnologia é tão segura quanto a medicina presencial. A interação é audiovisual. Especialistas com experiência em AVC viam os monitores, recebiam as imagens das tomografias e, a partir delas, faziam a discussão do caso com o médico. Com essa relação com a máquina, conseguimos reduzir em 26% a morte de pacientes e também tivemos queda no tempo de internação”, afirma Jefferson Gomes Fernandes, superintendente de Educação e Ciência do hospital. Ele disse que o projeto está sendo reformulado para ser retomado.

O hospital oferece também cursos para profissionais de todo o País e tem, hoje, 10,4 mil alunos que são profissionais do Sistema Único de Saúde (SUS).

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