A caça ao metal raro, novo ator da história

O chanceler japonês, Katsuya Okada, viaja um bocado mundo afora. Mas ele não é visto nas grandes capitais como Berlim, Paris ou Londres. Okada gosta de países bizarros como, por exemplo, Mongólia, Tanzânia, Casaquistão, Vietnã, etc.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2010 | 00h00

Explicação: o Japão é um campeão em altas tecnologias. Ele é faminto por metais raros, indispensáveis para todos os aparelhos com tecnologia de ponta. Ora, um país detém jazidas importantes desses metais raros: a China, que produz 91% do antimônio mundial, 59% do espato flúor, 72% do germânio, 72% do grafite, 58% do índio, 56% do magnésio, 78% do tungstênio e uma boa parte do gálio.

Está claro que a hegemonia sobre os metais raros oferece à China um poderoso trunfo industrial e comercial e, é claro, político e diplomático. E a China não deixará de usá-lo. Um relatório de Londres anunciou que Pequim proibirá de agora a 2015 todas as exportações desses metais. Por isso, a obsessão dos japoneses. Assim como o petróleo pesou de maneira acentuada na economia e na política mundial, entra em cena um novo grande ator da história: o metal raro.

O lítio, sem o qual as gigantes sul-coreanas (Samsung, Hyundai, LG, etc.) estariam estranguladas, é produzido na América Latina, sobretudo na Bolívia, no Chile, e um pouco na Argentina. Isso explica a Coreia do Sul ter recebido com fausto, em agosto, o dirigente socialista Evo Morales. A Bolívia firmou um contrato vultoso para entregas de lítio. China, Rússia, Japão e França também vão fazer "a corte" à Bolívia.

Esses metais raros são utilizados pelas indústrias de alta tecnologia em quantidades amiúde ínfimas, alguns gramas às vezes. Mas eles atingem preços impressionantes: o escândio, indispensável para as lâmpadas de halogênio, metal misterioso que é, sem dúvida, a origem da estranha cor do berilo, essa pedra preciosa das falhas da água-marinha, é vendido a preço de ouro.

Entre os metais cobiçados está o nióbio, do qual o Brasil é o principal produtor, muito à frente do Canadá. O berilo, metal dúctil precioso para algumas ligas e indispensável para a fabricação de tacos de golfe e veículos espaciais (sem berilo, fim dos torneios de golfe e da exploração do planeta Marte) é o apanágio dos Estados Unidos. A República Democrática do Congo possui a parte do leão do cobalto (baterias de telefones celulares) com 48% da produção mundial. A platina está concentrada na África do Sul (79% da produção mundial). E a Austrália controla a metade da produção de tantálio, à frente de outros países como Brasil, Canadá, China.

O tantálio, utilizado em componentes eletrônicos, condensadores e nas ligas com alto ponto de fusão, está ameaçado de esgotamento. Calcula-se que em 2038 as minas estarão vazias. O tantálio se originou em uma explosão cósmica ocorrida há 5 bilhões de anos. Pensou-se seria encontrado na Lua, mas hoje se sabe que não existe por lá.

A se crer nas profecias catastróficas de ambientalistas e de alguns químicos, muitos outros metais estariam ameaçados de extinção - antes de 2050. Desapareceriam o tantálio, a prata, o antimônio, o paládio, o ouro, o estanho, o chumbo, o urânio.

No passado, o petróleo foi muitas vezes o motor de guerras. No futuro próximo, teme-se que se desencadeiem "guerras da água". Será o caso agregar a essa coleção as "guerras de metais", por exemplo, uma guerra que, recuperando a mitologia grega do "suplício de Tântalo", mereceria o nome de "guerra do tantálio"? TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

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