A cada 15 minutos, uma família é despejada por dívidas na Espanha

Crise que entra em seu quinto ano ganha contornos sociais dramáticos

JAMIL CHADE, ENVIADO ESPECIAL / MADRI, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2013 | 02h08

Expulsas da própria casa nas principais cidades espanholas por ordem de bancos e retiradas à força pela polícia. Sem trabalho e sem renda, famílias inteiras na Espanha estão sendo desalojadas, na realidade, de seus sonhos por uma crise que não dá sinais de ceder. Com dívidas que talvez nem os filhos terão como pagar, vivem uma espécie de prisão perpétua, um purgatório social.

A cada 15 minutos uma família perde a casa hoje na Espanha, que tem mais da metade dos jovens sem trabalho e um a cada quatro habitantes sem renda. Muitos são equatorianos, marroquinos e brasileiros. Mas, acima de tudo, são espanhóis que vivem o drama diário de ter de entregar suas casas pela incapacidade de pagar as hipotecas.

Nos últimos meses, casos de suicídio de pessoas que estavam prestes a perder tudo começaram a ser noticiados em todo o país. Sem esperanças, se jogam das varandas dos apartamentos que estão prestes a ser confiscados pelos bancos. Num país católico, o tema foi por meses tratado como tabu. Mas, com mais de 20 casos já conhecidos, não pode mais ser ignorado.

A Espanha foi vítima da bolha imobiliária que, com a crise internacional, explodiu em 2009 e levou consigo toda a economia do país. Apenas em 2012, o Colégio de Cartórios da Espanha indicou que 38 mil casas foram confiscadas por bancos por causa da incapacidade das famílias de pagar as hipotecas. E o problema só aumenta. No ano passado, 65,7 mil processos de despejos foram iniciados. Desde 2008, 200 mil propriedades foram evacuadas.

No porão de uma casa na periferia de Madri, ocupada por uma associação, os atingidos lotam um salão a cada semana para debater como reagir diante da avalanche de despejos, a cara mais perversa de um sistema econômico que por muitos anos manteve o crescimento artificial da economia.

A tensão está à flor da pele e a vergonha estampada no rosto de cada um dos afetados. Enquanto as vítimas dos despejos escutam as orientações dos advogados, muitos suam, olham para o chão, roem de forma descontrolada as unhas e precisam, às vezes, até ser atendidos por médicos chamados às pressas ao local. Agarram-se a pastas com documentos, como se fossem suas últimas posses. Os rostos não escondem as cicatrizes morais de uma crise que já entra no quinto ano e não tem data para acabar.

Não são criminosos, nem viciados, nem imigrantes irregulares fugindo da polícia, nem analfabetos. São profissionais liberais, ex-empresários, economistas, enfermeiras. "Somos espanhóis, pessoas de Madri", disse Isabel Morales, que foi expulsa de sua casa. "Queremos que os políticos entendam que estamos sofrendo e que existem hoje pessoas pobres na Espanha. Só queremos uma casa digna, onde possamos viver."

Mesmo os "privilegiados", que têm algum salário, não ganham mais de 1mil por mês e precisam destinar entre 800 e 900 para o pagamento das hipotecas. "Ninguém consegue vive com 100", desabafa Isabel.

A situação que vive a Espanha hoje é consequência de anos de um crédito fácil e praticamente sem compromisso que levou milhares de famílias a viver muito além de suas possibilidades reais. Em média, os bancos concediam 871 mil empréstimos para a compra de imóveis por ano, muitas vezes sabendo que o credor não teria como pagar. Mas a fórmula mágica dos bancos era fazer da hipoteca mais um produto financeiro. E, para isso, as condições para a concessão de um empréstimo com 40 anos para pagar eram mínimas.

Resultado: esse esquema permitiu que construtoras, entre 2002 e 2007, erguessem na Espanha mais casas que tudo o que foi construído junto na Alemanha, França e Itália no mesmo período. Hoje, os dados oficiais apontam para a existência de 3,7 milhões de casas vazias na Espanha, de um total de 25 milhões no país. Já em 2012, o número de empréstimos não passou de 200 mil e, em cada rua de Madri, os cartazes de "vende-se" lotam os muros.

Aposentados. Pedro, um galego que há 19 anos vive em Madri - e não quis revelar seu sobrenome -, conta que sua situação é ainda mais dramática. Além de já ter perdido a casa, viu os sogros serem despejados pelo banco de uma casa que já haviam quitado há 23 anos. "Ao comprar meu apartamento, colocamos meu sogro como garantia do negócio. Perdi meu trabalho e não temos como pagar nossa dívida. O banco sequestrou minha casa e, ainda assim, fiquei com dívidas. Agora, foram em busca do apartamento dos meus sogros já aposentados e que serviu de garantia. Hoje, estamos todos vivendo na casa de um primo."

Sem renda além de uma aposentadoria que a cada dia vale menos, centenas de aposentados que foram fiadores de seus filhos hoje estão na rua. Sem casa, sem renda, com filhos desempregados e com dívidas que não têm como pagar.

Com a explosão dos juros cobrados por bancos e o desabamento dos salários, famílias passaram a ter dívidas praticamente para o resto da vida. Maria José Castilla é uma delas. "Já paguei 120 mil pelo meu apartamento. Fui obrigada a entregá-lo e ainda devo 105 mil. Nem eu nem meu marido temos trabalho e já estamos com 54 anos. Isso é como uma condenação perpétua."

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